Sertanejo

Chitãozinho e Xororó voltam inspirados em Raul Seixas

Novo DVD da dupla tem rap, e canção inédita de Lenine

José Teles
José Teles
Publicado em 01/12/2013 às 7:04
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Chitãozinho e Xororó formam a dupla que deflagrou a onda sertaneja Brasil afora.  Com Fio de cabelo, o primeiro sucesso nacional, em 1982, eles se tornaram ídolos populares, deixaram os grotões do Centro Oeste, interior de Minas Gerais e São Paulo, para entrar na sala de visitas da classe média do país inteiro, em trilhas de novelas, em duetos com o Rei Roberto Carlos, venderam discos aos milhões, ensaiaram uma carreira internacional, e chegaram a estourar nas paradas mexicanas, mas nos últimos cinco anos, pelo menos, os dois frequentam menos TV, rádio, e jornais.

Foram levados pela na onda que eles mesmos criaram. Solo ou em duplas, o sertanejo pop, e o universitário invadiu a praia dominada há anos por Chitãozinho & Xororó, e contemporâneos, como Leonardo, ou Zezé di Camargo & Luciano.  Os irmãos sertanejos, nascidos no Paraná, voltam com a intenção de recuperar o terreno perdido com DVD (e CD), ao vivo, registro de um show no Wood’s Bar, em São Paulo, Do tamanho do nosso amor (Universal Music).

“Não lembro quanto tempo faz que fomos ai. Também, diminuímos a quantidade de shows por mês. Hoje fazemos em média uns oito. Temos os negócios pra administrar. Mas está um momento muito importante para a música sertanejo. Um movimento que começou em barzinhos de universidades e hoje está pelo Brasil todo.”, o comentário é de Xororó, em entrevista por telefone.

Eles e Chitãozinho apostam as fichas num disco em que tentam imprimir novidades ao gênero. Entre os convidados do DVD estão o rapper Cabal do grupo Dexterz do qual faz parte Junior Lima, filho de Xororó: “Viajando pelo Brasil a gente notou que a nossa sonoridade estava um tanto antiquada, então nos perguntamos: por que nãodar uma atualizada”?  Ele convidou Fernando Zorzanello, da  dupla Fernando & Sorocaba, um dos maiores arrecadadores de direitos autorais do país atualmente, não apenas para fornecer músicas, como também para produzir o DVD.

As canções novas vieram do citado Sorocaba, do outro campeão de arrecadação Victor Chaves (da dupla sertaneja pop, Victor & Léo). E de Lenine, com a inédita Não sou nada sem você (parceria com Dudu Falcão): “Quando Lenine participou do DVD de Sandy, ele me contou que, anos 15 ou 20 anos atrás, fez uma música pra gente. Estava em casa, e pensou em determinados artistas pedindo músicas para ele, e fez uma no nosso estilo. Então falei com e ele elembrei da música. Ele mandou e realmente ficou bem do nosso jeito”.

TENTANDO

Outra canção cujo autor não circula no universo sertanejo é Um amor puro, de Djavan (do álbum Djavan ao vivo, 1999) : “É uma música de que a gente gostava, cantava em ensaios, mas nunca havia gravado, quando preparávamos o repertório decidimos botar esta”. Ainda  mais inusitada no álbum de dupla sertaneja é Tente outra vez, de Raul Seixas (com Paulo Coelho e Marcelo Motta) .

A inclusão da canção vem de uma longa história, do começo da trajetória dos irmãos José de Lima Sobrinho, e Durval Lima, nascido no sítio, em Astorga, interior do Paraná. Os dois começaram a cantar de calças curtas. O primeiro álbum veio em 1970 (Galopeira), seguidos por A mais jovem dupla sertaneja (1972), e caminhos da minha infância (1974). As vendas eram mínimas, variavam de 5  a 15 mil discos.

Os irmãos conseguiram juntar dinheiro suficiente para comprar um fusca 1972, e com eles viajavam para os compromissos marcados, boa parte deles em circos: “Em 1975, a gente estava numa situação difícil. Depois de um show num circo, que não rendeu quase nada, vimos que a solução era vender o fusquinha, e aí iria ficar ainda pior. Quando entramos no carro, ligamos o radio e tocava Tente outra vez. Ficamos escutando até o fim. Parecia que a música tinha sido feito pra nós. Decidimos não vender mais o fusca, e continuar tentando”, conta  Xororó.

Para os que só conhecem o sertanejo a partir de duplas pop, de cabelos estilosos,e roupas de grife, Xororó recorda o início da dupla com o irmão no final dos nãos 60: “Éramos Zezinho e Durval. Não chamavam música sertaneja, era caipira. Só tocava no rádio na madrugada, ou às cinco horas a manhã. A gente era  criticado por colegas de escolas porque cantávamos aquela músicas,. Foi este o motivo porque  inovamos a música sertaneja, para que ela chegasse à juventude”.

Depois daquela aflita audição de  Tente outra vez, a sorte foi mudando. As vendas foram aumentando gradativamente, e em 1979, os dois conseguiram o primeiro Disco de Platina, pelas 180 mil cópias de 60 dias apaixonado. O próximo álbum. Amante amada, foi a 400 mil cópias e, em 1982, Chitãozinho &Xororó bateram Roberto Carlos em vendas de discos, com 1,8 milhão do LP Amante, que os tornou nacionalmente conhecido com o megasucesso Fio de cabelo (Darci Rossi/Marciano).

É certo que a arrancada da música sertaneja no Brasil não se deveu apenas ao talento dos irmãos Lima. No começo dos anos 80, com as vendas de disco, nos EUA,  sendo pela primeira vez rastreadas por scanners, constatou-se  uma surpresa: o maior vendedor do país não era nem um roqueiro, nem banda pop, mas o caipira Garth Brooks. O que fez as companhias de disco no Brasil valorizar mais seus próprios caipiras.

Com maior divulgação, participações em programas de TV de grande audiência, como, Chacrinha e Sílvio Santos levaram os caipiras, agora chamados de sertanejos, para o país inteiro; “A gente modernizou o sertanejo, com uma mixagem diferente, com a bateria mais presente, com uma roupagem muito próxima do que se faz hoje. Mas com a preocupação de não perder a tradição, nunca deixamos a viola, a música que aprendemos no interior. Tem gente aí que se perde quando tenta esta diversificação”, comenta Xororó.

Com o sucesso nacional carimbado e confirmado, já em nova gravadora a Polygram (deixaram a Copacabana depois de dez anos) , os dois foram preparados para tentar a carreira internacional, afinal o sertanejo não está tão distante do ranchero mexicano, de tanto sucesso nos países latinos e entra a população hispânica dos EUA. O nome não ajudava. Chitãinho e Xororó era impronunciável lá fora.



O produtor Robert Livi (argentino que chegou a fazer sucesso no Brasil como cantor na época da Jovem Guarda) , sugeriu que eles usassem o nome de batismo, Jose e Durval: “Foi engraçado porque voltamos ao começo. Quando a gente iniciou se chamava Zezinho & Durval. E deu certo. A carreira da dupla foi bem no exterior, fizemos sucesso no México, com uma música para uma novela mexicana, Guadalupe. Estourou. Fomos os primeiros sertanejos a chegar ao primeiro lugar na Billboard”.

Porém a carreira internacional teve que ser interrompida, por problemas na agenda: “A gente precisava definir se seguia carreira internacional, ou ficava no Brasil. Com as viagens, não tínhamos tempo de cumprir os compromisso no Brasil. Além disso os filhos ainda eram pequenos, decidimos pelo Brasil”, conta Xororó, que se prepara com o irmão para voltar à estrada com o show do novo DVD, torcendo para que o Nordeste entre novamente no roteiro a dupla: “A concorrência é muito grande. Acho que o fato da falta de botar nossa cara mais em exposição, com menos show, contribuiu muito para a gente estar menos em evidência. Vamos ver o que acontece quando começarmos a nova turnê em dezembro”. 

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