Compositores

Caiubi, um clube de autores que aprendeu a lidar com a crise

A entidade surgiu em 2003 em reuniões semanais despretensiosas

José Teles
José Teles
Publicado em 12/01/2015 às 8:51
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Um clube que congrega oito mil compositores de todo o Brasil e de países como Argentina e Espanha. Reúne em sua homepage 25 mil músicas, o suficiente para, pelo menos, 2,5 mil CDs. Por sua vez, seus associados têm arrebatado os primeiros lugares nos principais festivais de música que se realizam País afora. O nome do clube é Caiubi (https://clubecaiubi.ning.com), batismo de origem prosaica: é o nome da rua onde nasceu, no bairro de

Perdizes, em São Paulo, num bar instalado numa casa pequena ­ porém aconchegante, garantem os fundadores do clube ­, que começaram a se reunir às segundas­feiras, a partir de 2003. Mesmo ano em que o cantor e compositor Sonekka, um dos fundadores, gravou o primeiro disco. "A intenção queeu quis dar para o movimento ao usar minha experiência com tecnologia e expandi­lo internet afora era muito honesta. Eu queria que mais pessoas tivessem a chance que eu tive: de encontrar parceiros bons e expandir a obra. Eu nem sonhava com essa catarse produtiva. A explosão dos saraus musicais, em Sampa, a febre do autoral. Antes tinha valor quem tocasse bem e tivesse repertório grande, hoje tem valor quem é compositor", comenta Sonekka.

O Caiubi, como todo clube que se preze, tem seu santo padroeiro, que atende pelo nome de Zé Rodrix (1947­2009). "Havia mesmo uma galera criativa, boa e que não estava dando a mínima bola pro mercado afunilado, estreito e chato (e só piorou). Quando entrou o Zé Rodrix na história, a convite meu, a coisa mudou de figura. Ele nos encheu a bola como grandes criadores! A autoestima pegou brisa", continua Sonekka. Zé Rodrix tornou-­se frequentador assíduo do Caiubi e atraiu compositores renomados, a exemplo de Tavito, Guttemberg Guarabyra, Luhli e Celso Viáfora. Em seguida, autores de outros estados que viviam em São Paulo, como a cearense Aparecida (Apá) Silvino, o mato­grossense Guilherme Rondon, o paranaense Iso Fischer. Sonekka enfatiza outros aspectos da contribuição de Zé Rodrix para o Caiubi: "Ele nos deu status de que ali se fazia música boa. Nos emprestou conhecimento. Montou grupos, armava shows e produzia".

No entanto, dificilmente uma entidade feito a Caiubi teria o mesmo alcance sem a internet. E aí entra uma lista de discussão na web, a M­Música, criada antes do Caiubi, cujos compositores passaram a participar dos debates e, consequentemente, a atrair adeptos para o clube que, até então, não estavam na rede. "Integrantes de vários estados participavam das discussões, dos encontros reais e passaram a compor desmedidamente, pela web. Usavam a lista, o MSN e o e­mail. Tornaram­se sócios e parceiros musicais de um monte de gente", complementa o jornalista pernambucano Gilvandro Filho, "sócio" do clube desde 2004. "O Caiubi hoje é um encontro ao vivo e virtual de gente que faz ou quer fazer música. Caminha numa reta paralela ao que se chama de mercado mesmo. São linhas que, aparentemente, não se cruzarão. Uma pena o mercado de CDs ter se retraído a quase zero, pois de um tempo pra cá começaram a pipocar muitos discos de gente que construiu o repertório todinho ali nonetworking do Caiubi. Eu mesmo fui parar em ene discos. Tudo por conta do Caiubi. De Luiza Possi, Renata Pizi, Danny Reis, Alvaro Cueva, Bárbara Rodrix, Bossa Nova, Vanu Rodrigues... Vixe, em bem uns 40 discos", diz Sonekka.

A Era de Ouro dos festivais aconteceu até 1969. Nos anos 1970, o entusiasmo de público e autores arrefeceu. Mesmo assim, os concursos musicais continuaram com relativa popularidade até o início dos anos 1980. Embora sem ganhar grande espaço na mídia, os festivais continuam acontecendo, alguns com polpudas somas em dinheiro para os vencedores. Na última década, compositores ligados ao Caiubi têm vencido vários deles. Sonekka comentou sobre estas participações e a importância dos certames. "Se for levar de maneira estrita, as vitórias do pessoal do Caiubi seria por causa do volume de gente que se considera do clube. Na realidade é que o núcleo criativo central e mais antigo do Caiubi raramente fica de fora de premiações. Posso falar por mim mesmo. Ao ganhar o Fampop de Avaré, fui parar no CD da Luiza Possi. Até dividi palco com ela. É vitrine de qualidade. O lance de festivais só cresce, porque é uma maneira relativamente fácil de atrair verba pra cultura. O festival de Avaré tem 32 anos, o de Ilha Solteira fez 40. Pelo de Avaré passaram Chico César, Lenine, Zeca Baleiro e Jorge Vercilo."

No último festival da TV Cultura, a música Classe média, do caiubista Max Gonzaga, foi a favorita do público e seu vídeo virou viral na internet. No Fampop (o festejadíssimo Festival de Avaré) deste ano, os principais prêmios ficaram com caiubistas. O primeiro lugar foi de Bárbara Rodrix, o segundo Fábio Cadore e o terceiro Alexandre Lemos. Levaram também o prêmio de melhor letra, Fernando Cavalliere e Sonekka. Este, em parceria com Zé Edu Camargo, venceu o Fampop de dois anos atrás. Em outros festivais aconteceu o mesmo. Com a vitória de caiubistas como Ziza Padilha (Pará), Zé Alexandre (Rio), a dupla Apá Silvino e Gilvandro filho, ganhando respectivamente em Belém (PA), Rio e em Fortaleza (CE). O citado jornalista Gilvandro Filho é um bom exemplo do papel do Caiubi em revelar vocações. Recomeçou a compor na M­Música e no Caiubi. Hoje,

com mais de 20 parcerias, já tem cerca de 300 canções. "Fiz músicas com mais de 20 parceiros. Alguns viraram amigos e eu ainda nem os conheço pessoalmente, como o pantaneiro Eduardo Franco. Os mais constantes são Apá Silvino, Sonekka, Tavito, o mato­grossense Gilson Espíndola, o paraense Ziza Padilha, o curitibano Iso Fischer e a pernambucana Adriana B", conta Gilvandro que tem 30 músicas gravadas. Há três anos, ele ganhou, com Apá Silvino, o I Festival de Música Brasileira do Ceará, com a canção Janela aberta. Para o pernambucano e tantos outros autores de várias regiões da federação, trocadilho à parte, o Caiubi foi uma janela aberta para criar uma música que, de outra maneira, provavelmente, teria ficado restrita a parentes e amigos próximos.

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