Contracultura

Provos anteciparam a contracultura na Holanda em 1965

Eles já exigiam menos carros e mais bicicletas 50 anos atrás

José Teles
José Teles
Publicado em 12/04/2015 às 9:37
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Eles já exigiam menos carros e mais bicicletas 50 anos atrás - FOTO: Sem crédito
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Amsterdã, na Holanda, é provavelmente a única grande cidade do mundo em que um anarquista, Domela Nieuwenhuis, teve direito a uma estátua, e numa iniciativa popular. O movimento anarquista foi um dos movimentos políticos mais fortes na Holanda na virada do século 19 para o 20. Um anarquismo de acirradas tendências, solidarista e cooperativista, representado pelo National Arbeids Sekretariat, durante vários anos, a organização sindical de maior peso entre os trabalhadores holandeses.

Outro importante anarquista holandês foi Bart de Ligt, autor de A conquista da violência, manual de resistência passiva que influenciou pacifistas nos anos 1940 e 1950, e que nos anos 1960 seria uma das leituras de um grupo que retomaria o anarquismo holandês, com influência de outras linhas de pensamento libertárias e que transcendia a política partidária, como o dadaísmo: os Provos. Na série Baderna, da editora Veneta, o livro Provos ­ Amsterdam e o nascimento da contracultura, do italiano Matteo Guaranaccia (180 páginas, R$ 34,90, tradução de Leila de Souza Mendes), conta as circunstâncias que deram origem aos Provos e sua breve trajetória, que vai de 1965 a 1967. "Os Provos, juntamente com os Beatles, Allen Ginsberg e Bob Dylan (e mais alguns milhares de pessoas que se sintonizaram repentinamente no mesmo programa evolutivo), foram um dos elementos decisivos daquela estranha operação de alquimia que, por volta da metade dos anos 1960, produziu uma deflagração de consciências. Que obrigou o Ocidente a rever os próprios planos de voo e a desligar o piloto automático, oferecendo a um largo número de humanos a visão de outras opções de vida", comenta Matteo Guaranaccia na introdução do livro.

Ao contrário de Beatles, Dylan ou Ginsberg, as proezas dos Provos ­ e eles próprios ­, até hoje são pouco conhecidas fora da Holanda. Deve-­se isto em parte de seus jornais, livros, etc., terem sido escritos em holandês, um idioma difícil e pouco difundido. Acrescente­-se, como aponta o autor, o "chauvinismo inerente à cultura (e também à contracultura) americana ­ pouco inclinada a considerar digno de nota o que acontece e aconteceu fora dos EUA. É bem fácil compreender por que os que trataram da história dos movimentos contraculturais dos anos 1960 (principalmente autores americanos) não se deram ao trabalho de investigar o que aconteceu fora dos EUA (muitas vezes farejando o que se passou além da Califórnia)". Esse olhar para o próprio umbigo, que acontece também, por exemplo, na história da cultura brasileira que é escrita a partir de São Paulo, mesmo recebendo influências, ignorou um movimento que em apenas dois anos teve um eco estrondoso Europa afora, inspirou hippies europeus, americanos e sulamericanos:

"A revolta provo foi o primeiro episódio em que os jovens, como grupo social independente, tentaram influenciar o território da política". Fazendo-­o de modo absolutamente original, sem propor ideologias, mas um novo e generoso estilo de vida antiautoritário e ecológico (embora esta palavra ainda não existisse naqueles anos). Caminhando contra a corrente do "cair fora" beat, os Provos holandeses empenharam-­se descaradamente em permanecer "dentro da sociedade, para provocar nela um curto­ circuito". A Holanda no começo da década de 1960 era o lugar mais improvável para eclodir uma revolução, ou causar passeatas contra o governo. Não estava metido em guerras, não tinha problemas raciais (na Segunda Guerra, foi o único povo europeu a ir às ruas em favor dos judeus), desfrutava de economia sólida e os cidadãos não tinham do que se queixar do padrão de vida que levavam. "Decerto não existia nenhum motivo, a não ser naturalmente a própria existência da ordem constituída", tenta explicar, Richard Neville, no livro Play power.

O italiano Matteo Guarnaccia tenta definir novamente o Provo: "Nunca foi partido. Nem movimento. Podemos vagamente defini­lo como um conjunto instável de indivíduos absolutamente heterogêneos que, no ápice do próprio sucesso, não contava com mais de vinte agitados/agitadores, capazes de provocar simpatias e cumplicidades inesperadas, de envolver em suas ações milhares de pessoas". Provos ­ Amsterdam e o nascimento da contracultura procura também explicar porque tal manifestação só poderia acontecer em Amsterdã. Londres antes dos Beatles era considerada uma cidade esquisita, onde se dirigia na mão invertida, empregava­se um sistema métrico que só os ingleses entendiam (o duodecimal), e que só atraia turistas de meia­-idade.

Antes dos Provos, a Holanda teve, por exemplo, Robert Jasper Grootveld, que marcava com o "k" de "kanker" (câncer), em holandês os cartazes com anúncios de marcas de cigarros e fundou um templo antifumo: "Mas sem posar de enfadonho fumante arrependido, escoteiro ou dono da verdade. Muito diferente daqueles alucinados integralistas da saúde de nossos dias que, nos Estados Unidos, transformaram os fumante numa nova raça de párias...", afirma o autor.

BICICLETAS

O "k" começa de repente a ser pichado nos cartazes de comerciais de automóveis. Os Provos dirigem suas forças contra carros e a favor das bicicletas. Embora alguns Provos tenham sido presos antes por agitação variadas nas ruas de Amsterdã, o primeiro grande confronto entre os militantes e a polícia acontece com o Plano Branco, apresentado num local emblemático para aquela geração, e hoje ponto turístico, a Lieverdje, na estátua de um garoto pobre do escultor Carel Kneulman, numa pracinha chamada Spui. 

(leia matéria na íntegra na edição impressa de hoje do Jornal do Commercio)

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