Jovem Guarda 50 anos

Evinha, a estrela da maior família musical da Jovem Guarda

Depois da Jovem Guarda, a cantora retomou a carreira na França

José Teles
José Teles
Publicado em 24/05/2015 às 11:40
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Depois da Jovem Guarda, a cantora retomou a carreira na França - FOTO: divulgação
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A Jovem Guarda teve grupos formados por parentes, mas a família Corrêa, moradora do subúrbio carioca do Engenho de Dentro, foi a campeã. Primeiro, em 1958, vieram os Golden Boys, com Renato, Ronaldo e Roberto Corrêa, mais o primo Waldyr. Depois o Trio Esperança, em 1961, com Regina, Mário e Evinha, esta última com 10 anos na época, cursando o primário. Apesar da pouca idade, os três primavam pela afinação e pela harmonia vocal. E despertaram a admiração do radialista e compositor José Messias, que indicou os garotos à Odeon. O primeiro 78 rotações, com Rock do espirro (Fernando Costa/Alfredo Max) e Menino do amendoim (José Messias), não aconteceu. O disco seguinte, de 1962, com Filme triste (versão de Romeo, para Sad movies make me cry, de J.D Loudermilk), foi um sucesso que continuou em 1963, e fez do Trio Esperança um nome nacional. Conheça o resto da história na entrevista de Evinha ao jornalista José Teles.

JORNAL DO COMMERCIO ­ Você era a caçula do Trio Esperança, estava com 12 anos quando começou o programa Jovem guarda. Como era estar com esta idade no meio daquele turbilhão?

EVINHA ­ Nós éramos sempre acompanhados por nosso pai ou nossa mãe. Os artistas, colegas de profissão, tinham o maior carinho comigo em um ambiente alegre e descontraído. Meus pais me protegiam muito. Nunca percebi qualquer tipo de derrapagem.

JC ­ Como surgiram tantos talentos na família? E como conseguiram chegar às rádios, à TV? O que vocês escutavam em casa?

EVINHA ­ Obrigada pelo elogio! Nossos pais eram melômanos, mas não eram músicos. Consequentemente o gosto dos filhos pela música veio bastante cedo, começando pelos meninos (os Golden Boys), que tocavam e cantavam no colégio onde estudavam. Rapidamente foram contratados para fazer um disco, e logo seguidos por nós, os mais novos. Assim começou a carreira dos sete irmãos. Tivemos muita sorte no que gravamos, o sucesso veio rapidamente.

JC ­ Verdade que foi Paulo Gracindo que batizou o Trio Esperança?

EVINHA ­ Quando o Filme triste estourou, efetivamente, participávamos de quase todos os programas do Paulo Gracindo na Rádio Nacional, o que nos deu a oportunidade de nos tornarmos rapidamente conhecidos pelo grande público. Entretanto, o descobridor do Trio Esperança foi o José Messias. Graças a ele, o Trio foi contratado pela gravadora Odeon.

JC ­ Eram mais influenciados pela bossa do que pelo rock?

EVINHA ­ Não havia critério para a escolha. Nós ouvíamos todos os gêneros e todas as propostas de música que vinham a nós, orientados por nossos irmãos, e conforme o sentimento de prazer de cada um, aceitávamos gravá­las ou não.

JC ­ Mas foi Filme triste que realmente estourou no primeiro LP. Deve ter sido o maior sucesso de 1963. Quem trouxe esta versão para o trio?

EVINHA ­ Essa música ficou seis meses em primeiro lugar no hit­parade. Um orgulho para nós! A versão foi feita por Romeu Nunes.

JC ­ No terceiro disco de vocês, o sucesso foi A festa do bolinha, de Roberto e Erasmo, também cheia das dissonâncias. Vocês pediram música a Roberto, ou ele ofereceu a vocês?

EVINHA ­ O Trio Esperança participava de quase todos os programas do Roberto Carlos. Um belo dia, Roberto e Erasmo chegam com uma surpresa para nós: A Festa do Bolinha, um verdadeiro presente!

JC ­ Renato Correa era o compositor da família? No LP A festa do Bolinha, tem duas faixas assinadas por ele, aliás, o sucesso Gasparzinho, em quase todos os discos do Trio tem músicas dele.

EVINHA ­ O Renato é um compositor de sucessos, aliás, os outros irmãos, Roberto e Ronaldo também compuseram várias músicas de sucesso para outros artistas!

JC ­ Quando vocês lançaram A festa do Bolinha já faziam parte do programa Jovem Guarda, conta um pouco da experiência de estar fazendo história, mesmo sem ter consciência disto.

EVINHA ­ Esse movimento (realizamos depois de adultos) foi de uma importância primordial em nossas vidas. Éramos crianças, adolescentes, e não tínhamos ideia do que estava acontecendo. Para mim, o fato de pegarmos o avião toda semana para irmos a São Paulo era uma brincadeira, um divertimento e não tinha a menor conotação política ou de revolta. Era um simples movimento de jovens de bem com a vida. Só felicidade!

JC ­ Você ressaltaria algum episódio curioso ou engraçado acontecido nesta época? EVINHA ­ O que me marca até agora: as fãs na porta da TV Record, enlouquecidas para tentar arrancar um fio de cabelo do ídolo Roberto Carlos ou ganhar um tchauzinho de suas belas mãos... rsrs... Alucinante! Nunca esquecerei!

JC ­ Vocês eram muito criança naquela época. Quem vigiava o trio, os irmãos dos Golden Boys? Como os pais de vocês reagiam àquele sucesso todo? A escola, como ficou?

EVINHA ­ Tínhamos a chance de sempre contar com a compreensão dos professores. Viajávamos com um dos nossos pais. Eles nos deixaram a escolha de fazer o que gostávamos, ou seja: cantar e cantar, mas controlando o futuro de cada um. Alguns se tornaram advogados, professores de inglês ou médico veterinário.

JC ­ Naturalmente, vocês ganhavam dinheiro com discos, com shows. Quem controlava a grana? Quando ganhou os primeiros cachês, você costumava gastava com o quê? Ainda gostava de brinquedos?

EVINHA ­ Papai controlava os cachês e gastava uma parte para a compra dos brinquedos que desejávamos. Mais tarde, adorávamos fazer viagens não programadas e frequentávamos boates para nos divertirmos, como todos os jovens. Ajudávamos instituições fazendo shows de caridade. Nunca esbanjamos dinheiro, festejávamos bastante a vida, mas também investimos em imóveis para garantir nosso futuro e o de nossa família.

JC ­ Com o tempo. os festivais da MPB estouraram, veio o tropicalismo, e vocês passaram a participar. O coro de Andança, com Beth Carvalho, tem os Golden Boys. O Trio Esperança participou de festivais, fez backing vocals em discos de MPB também?

EVINHA ­ A Mafia Corrêa: era como nos chamavam quando queriam os sete irmãos para fazer backing vocals. Nossa especialidade era a facilidade com a qual nos adaptávamos a todos os estilos de música. Sendo assim, viramos A Família Goldherança (Golden Boys, Evinha e Trio Esperança) nos estúdios o tempo todo, gravando com todos!

JC ­ Como foi para você o fim da Jovem Guarda? O programa acabou em 1968, exatamente o ano do seu último disco com o Trio Esperança. Uma coisa tem relação com a outra?

EVINHA ­ Minha irmã Regina (componente do Trio) estava esperando seu primeiro filho e, por pura coincidência, aconteceu no fim da Jovem Guarda.

JC ­ Em 1970, o novo álbum do Trio Esperança tinha em seu lugar a caçula dos Corrêa, Marizinha. Com a sua participação no Festival Internacional da Canção, cantando Cantiga por Luciana, de Edmundo Souto e Paulinho Tapajós, veio a decisão de sair para carreira solo?

EVINHA ­ Com a parada momentânea do Trio, a Odeon me convidou para fazer um disco solo: Casaco marrom, que estourou. A Marizinha, a irmã caçula, naturalmente entrou em meu lugar, dando continuidade ao Trio Esperança. Após o sucesso do Casaco marrom fui convidada para defender a Cantiga por Luciana no 4º Festival Internacional, e ganhamos a fase nacional, internacional e revelação feminina. Assim começou minha carreira solo.

JC ­ Seu primeiro LP solo saiu em 1969, na fase mais dura do regime militar. Você teve algum problema com a censura?

EVINHA ­ Em nenhum momento de nossa carreira tivemos problemas com censura, haja vista que cantávamos canções ingênuas com letras ingênuas. Mais tarde, em minha carreira solo, meu propósito era "paz e amor"... rsrs nunca curti polêmica em política. Tenho minhas opiniões, mas as conversas são a maior parte do tempo entre familiares.

JC ­ Você vai para a França pouco tempo depois. Como anda sua carreira?

Evinha ­ A França foi uma opção pessoal. Me apaixonei por uma pessoa incrível (Gérard Gambus) com que estou casada há 36 anos. Temos nossa vida de família, com filha e neta, e ao mesmo tempo, com minhas irmãs Regina e Marizinha, que também residem na Europa, formamos o novo Trio Esperança, com a direção artística e arranjos vocais de Gérard. Gravamos vários CDs, alguns discos de ouro, fizemos nova carreira e viajamos com nossos shows pelo mundo afora!

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