Sertanejo

Michel Teló mapeia em livro o universo da música sertaneja

Astros populares contam suas história e fazem revelações

José Teles
José Teles
Publicado em 05/07/2015 às 6:23
foto: divulgação
Astros populares contam suas história e fazem revelações - FOTO: foto: divulgação
Leitura:

O paranaense Michel Teló, ídolo sertanejo pop, com o jornalista André Piunti, assinam o livro Bem Sertanejo ­ A História da Música que Conquistou o Brasil (Planeta), uma série de conversas descontraídas com alguns dos principais nomes do sertanejo, veteranos e novos, e uns poucos que não se encaixam no atual conceito do gênero, como Almir Sater ou Sérgio Reis. Independente de se apreciar ou não a música que fazem, fazia­se necessário que se historiasse, mesmo que parcialmente como neste livro, um universo musical que domina o País de Norte a Sul. O Bem Sertanejo virou também uma série de programas da TV Globo, já que muitos dos principais nomes da música sertaneja são contratados da gravadora do grupo Globo, a Som Livre.

Michel Teló começa contando sua própria história, que lembra a de todo garoto que tem aptidões musicais e que quer tocar a música dos seus ídolos. Morando em no Mato Grosso onde, brincam, duplas sertanejas nascem em árvores, ele teve como modelo Chitãozinho e Xororó, Bruno e Marrone. Fez parte de um grupo que marcou época, o Tradição, que introduziu o trio elétrico na música sertaneja. Poderia ter se tornado um dos muitos sertanejos cuja fama é circunscrita aos admiradores deste tipo de música, mas Ai Se Eu Te Pego mudou não apenas sua vida, como a própria música sertaneja. Com Tchrererê, de Gustavo Lima, sai da temática romântica para virar festeira, assimilando elementos da axé music, da fuleiragem music, tudo isso montando num formidável aparato tecnológico.

Bem Sertanejo não é uma história convencional do sertanejo, mas uma radiografia do que acontece neste universo, com entrevistas bem conduzidas e tão reveladoras quanto deveriam ser as biografias de pessoas públicas. O livro desfaz a impressão de ídolos pré­fabricados, estrelas cadentes, que somem com a mesma rapidez com que surgem no firmamento da indústria cultural. A Rainha da Música Sertaneja, Paula Fernandes, por exemplo, nasceu, em 1982, numa família pobre, em Minas. Começou a se apresentar em troca de cachê ainda criança. Dos 9 aos 18 anos, cantou em rodeios. O primeiro disco, de vinil, foi vendido de porta em porta ­ apelava para as rádios tocarem. Porém, sem esperança de que a carreira decolasse, ela desistiu. Entrou num processo de ansiedade e depressão: "Quimicamente fiquei desestruturada, adoeci. Tive depressão e tive que tomar remédio tarja preta. Nesta época, fui morar em Contagem (MG), com uma mão na frente ou atrás. Tive até crise de pânico", confessa Paula Fernandes. A crise durou dois anos. Ela chegou a fazer um curso para ser secretária, mas a música foi mais forte. Passou a ganhar a vida cantando em barzinhos de Belo Horizonte. Um amigo conseguiu que ela participasse de um programa Brasil Gerais, da TV Globo. Sua voz chamou atenção: a Ave Maria, que entoava na abertura rodeios, garantiu a sua entrada numa novela global, América (2005). Daí em diante a carreira de Paula Fernandes deslanchou.

Chitãozinho & Xororó, os primeiros focalizados no livro, marcam o começo do sertanejo moderno. Embora tivessem começado no final dos anos 1960, sendo contemporâneos de duplas como Milionário & Zé Rico, os dois são para a música sertaneja mais ou menos o que Caetano e Gil significam para o Tropicalismo. Depois deles, nada foi o mesmo. "Até a década de 1980, as rádios FM que tocavam música sertaneja escondiam as canções na madrugada," afirma Chitãozinho. O imenso sucesso de Fio de Cabelo (Darci Rossi/Marciano), obrigou as emissoras a tocar a dupla na programação normal. Eles passaram a turbinar suas apresentações com luzes, som de qualidade. "Eles falavam: não precisa, dupla sertaneja tem de ter só voz e violão, duas vozes. E a gente falava, não você está enganado." Quando aconteceu o Rock in Rio, os irmãos José e Durval quiseram um palco igual ao do Yes, investiram tudo que ganharam na estrutura. Quando foram gravar o disco Amante, receberam apoio total da gravadora. Em lugar de se espelhar no universo do interior, de amores simples e músicas que contavam uma historia sentimental, enveredaram pelo romântico, introduzindo guitarras, teclados, bateria, sintetizadores. Pela primeira vez, foram convidados para o Chacrinha, Globo de Ouro. Uma escalada que culminou por lotar a casa de shows Palace, em São Paulo, cujo recorde de publico até então tinha sido do mágico David Copperfield.

A porteira estava aberta. Por ela entraram João Paulo & Daniel, Leandro & Leonardo, Zezé di Camargo & Luciano, Bruno & Marrone, César & Menotti, para citar uma pequena parte da invasão sertaneja. Todos eles cresceram ouvindo o sertanejo de raiz, ou seja, o caipira: Tonico & Tinoco, Liu & Léo. Mas, por contingências de mercado quando se profissionalizaram, optaram pelo romântico: "Muito do que escrevo, só estou contando minha realidade de caipira. Comecei a fazer música romântica por necessidade de entrar no mercado, de tocar no rádio", revela Rick, nascido no Tocantins, parceiro de Renner. Quem define esta "nova" música sertaneja é Eduardo Costa: "As duplas sertanejas começaram a cantar o que Fábio Jr. e José Augusto gravavam, mas colocando uma segunda voz," diz Costa. Bruno & Marrone e César Menotti & Fabiano comungam das mesmas origens. Vêm do interior, cresceram com a música caipira, mas quando formaram duplas aderiram ao romântico: "Pode parecer demagogia porque a música que a gente canta é contemporânea, mas o que eu temo é perder a raiz. Às vezes, algumas duplas dizem que somos a influência delas. Isso me preocupa porque vai deixando de existir aquela fonte, a verdadeira raiz", lamenta Menotti.

Últimas notícias