Disco/Entrevista

Odair José lança Gatos e Ratos, e recusa rótulo de brega

Cantor lembra os tempos da censura e do envolvimento com drogas

José Teles
José Teles
Publicado em 23/10/2016 às 2:08
Foto: divulgação
Cantor lembra os tempos da censura e do envolvimento com drogas - FOTO: Foto: divulgação
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Caetano Veloso e Odair José, embora juntos no palco, e às vezes cantando em dueto, receberam as esperadas reações desiguais. Vaias monolíticas, para o tímido, desajeitado, incompetente cantor e violonista Odair. Aplausos uníssonos para Caetano”, da matéria do crítico Tárik de Souza, no alternativo tabloide Opinião (maio de1973) sobre a célebre feira musical Phono 73, realizada, durante quatro dias, com o elenco da gravadora Phillips, no Anhembi. Vivendo ainda a ressaca dos anos 60, a música popular brasileira teve seu primeiro momento polêmico dos anos 70, quando Caetano Veloso uniu-se a Odair José, e cantaram Eu Vou Tirar Você Deste Lugar.

 "Eu era o maior vendedor da Polygram, mas não estava ali entre a elite. Naquele momento foi um prazer estar com ele, um homem muito inteligente, à frente do seu tempo. Mas foi, evidentemente, uma confusão, com vaias, porque eu era um objeto estranho naquele ambiente.Vaias a gente sempre leva na vida, mas aquela foi uma noite especial, a qual talvez eu não tenha dado a devida importância”, admite, o cantor 43 anos depois.

 O goiano Odair José não gosta, nem admite ser enquadrado na categoria de cantor brega. Tampouco considera que canções como Uma Vida (Pare de Tomar a Pílula), ou Eu Vou Tirar Você deste Lugar sejam bregas: “As pessoas não conhecem o Odair José, que não agrada aos conservadores. Eles vão a um show do Odair Jose achando que vão ver uma copia do Roberto Carlos, ou anunciam que eu sou cantor brega. Eu sou o pior cantor brega do país, porque o que menos faço no show é aquilo que o cara que vai ver o show de brega que ver. Eu digo aos contratantes que não me levem pra estes projetos, porque vão quebrar cara”, 

 Cultuado por uma geração que o conheceu no século 21, Odair não emplaca um grande sucesso nacional desde meados dos anos 70, quando entrou para o time dos “malditos” das gravadoras, depois da citada ópera rock, com a qual despencou das paradas e das boas graças dos executivos da multinacional. Desde o ano passado, ele enveredou pelo rock and roll. Primeiro com Dia 16 (o dia em que nasceu) e agora com Gatos e Ratos, em que o foco é a problemática do trânsito, drogas, impostos, e outras mazelas do cotidiano. 

 Odair José concedeu para o Jornal do Commercio, a primeira entrevista sobre o disco que lança no início de novembro, sem se esquivar de falar sobre nenhum assunto, inclusive a dependência química que comprometeu o andamento da carreira na década de 70:

 “Eu bebi muito, fumei muita maconha, cheirei muita cocaína, graças a deus parei com tudo isto, senão teria morrido há muito tempo. Parei porque estava prejudicando a mim, as pessoas que andavam comigo. Eu estava me excedendo, ou parava com aquilo ou aquilo acabava comigo. Você faz musica sob efeito de drogas, mas é complicado, não se faz nada direito. Tenho uma frase no Filho de José e Maria, que diz que a loucura é um estado de lucidez. Às vezes o cara vai pra loucura pra fugir da lucidez. Mas pra fazer música é melhor de cara limpa”.


 ROCK

Odair José é cultuado por uma geração que o conheceu no século 21. Roqueiros, de gerações diferentes, participaram de um disco tributo a ele (Eu Vou Tirar Você Deste Lugar, 2006). Ele no entanto ressalta que não se deve a este público sua imersão nas guitarras:

 “Antigamente queria fazer, mas as gravadoras não deixavam. Quando fiz o José e Maria, você viu a merda que deu. Quase me barraram no baile totalmente. Antes de gravar, comecei tocando em bandas de guitarras. Na gravadora não permitiam. Se Jimi Hendrix estivesse aqui não gravaria disco no Brasil naquele momento, não como gravou. Mas os meus discos da Polygram de 70 a 76 são muito bem feitos. Eu gravava com o Azimuth, têm a mesma qualidade dos discos de Crosby Still e Nash, de Paul McCartney, porque o Azymuth era muito bom. Depois gravei com o Som Imaginário, com Dom Salvador, com Renato e Seus Blue Caps, Lafayette, Raul Seixas toca no meu primeiro disco”.

 Odair José de Araújo trocou o interior de Goiás pelo Rio de Janeiro no final da década de 60. Pousou no olho do furacão, de passeatas, viradas de mesa culturais, endurecimento do regime militar. Gravou em 1969, ponta de rama da Jovem Guarda, pegou o finzinho, foi apresentado a Roberto Carlos nos corredores da CBS: “Eu ia com Othon Russo (compositor da velha guarda, mas que transitava pela turma do iê iê iê), quando encontramos Roberto. Fui apresentado a ele, que insinuou que eu era seu imitador. Mas eu não fazia a mesma coisa. Quando mostrei Eu Vou Tirar Você Deste Lugar para Rossini Pinto (compositor e produtor da gravadora) ele quase teve um ataque do coração. Mas era a minha verdade. Ele achou um absurdo, mas a música ficou em primeiro lugar nas paradas durante um ano. Era um absurdo pra os conservadores, pro povo não. Eu falava de coisas que incomodavam. Neste disco Gatos e Ratos falo de coisa que não podem ficar debaixo do tapete”.

 CENSURA

Enquanto os cantores populares da época derramavam-se em romantismo, chorando fracassos amorosos, paixões incontidas, Odair José falava de questões sociais, da empregada doméstica, da pílula concepcional, de prostituição, de religião, o que lhe valeu, como ele lembra, o epíteto de “Bob Dylan da Central do Brasil”, ou “Rei das Empregadas”:

 “ O que as pessoas não sabiam é que eu tinha problemas com a censura. Tive bastante. Fui o segundo autor mais censurado deste país, o primeiro é Chico Buarque. Eles achavam que eu era uma péssima influencia para os jovens. Sempre mexi com a cabeça de pessoas jovens, eu sou um cara de quase 70 anos, mas que tem a cabeça de jovem. Meu publico sempre foi mais Raul Seixas, mais Tim Maia, mais louco, de rua, de bar, eu não sou o cantor do conservador. Eles não gostavam de Odair José quando cantava a música da puta. Forçaram a barra, mas vendeu um milhão de cópias. Não cheguei a ser preso, mas fui chamado para receber sugestões, ou para me dizerem para não cantar esta ou aquela musica. Mandaram cartas para as gravadoras, principalmente para a Polygram, sugerindo que não me gravassem, porque eu era péssima influencia, com umas ideias que não tinham nada a ver com a sociedade brasileira”.

 Os censores há muito tempo não o incomodam, mas ele se sente incomodado por seus discos não tocarem mais como antigamente, porque os novos fãs querem sempre o Odair José dos anos 70. Dia 16 foi pouco comentado, não se sabe o destino de Gatos e Ratos. Gravou e se apresenta agora como power trio, ele na guitarra, Junior Freitas, guitarras e teclados, Caio Mancini, baixo e percussão. Mas diz que fora a instrumentação continua batendo na mesma tecla de protesto social:

 “Espero que recebam este disco como o do mesmo Odair José da Pílula, de Vou Tirar Você Deste Lugar. As letras continuam populares, estou falando do transito, do gato e do rato, das fronteiras do absurdo, do imposto de renda. Você bebe água tem imposto. Este país é o lugar onde mais tem imposto. Aliás, fiz a letra, porque lembrei da música de George Harrison, Taxman. Os Beatles não eram populares? Falar destas coisa então não é ser popular?”, provoca.

 PARADA GAY

Ao falar de Gatos e Ratos, Odair José arrisca uma frase de efeito: “Este disco gatos e ratos, é tapa de luva na cara de tanta besteira”. Adianta também que não pretende se limitar a levá-lo apenas aos palcos: Pretendo cantar estas músicas que falam do preconceito contra o homossexual, contra a lésbica, na Avenida Paulista em cima de um caminhão, na passeata gay. A minha proposta, falar de coisa que ninguém quer falar. Não vou cantar que estou saudades, com saudades de um amor, para alguém ouvir tomando uma latinha de cerveja. Tenho que falar das coisa que incomodam, do que está sendo escondido do povo brasileiro, chamar atenção das pessoas sobre determinadas coisas. Sempre fui assim. Com o Filho de José e Maria também era assim. Com a pílula também era assim. Você não sabe o problema que a pílulas me causou. Fui ameaçado de não gravar no Brasil por causa deste música”, comenta, panfletário.

 Ele reafirma que nunca foi tão Odair José quanto em Gatos e Ratos: “Deixei de ser Odair José nos anos 80, quando gravei umas músicas populares, estas coisas em cima do muro. Fiz umas músicas assim, que não me acrescentaram nada. Não que fossem ruins, mas não tinham a ver com a minha verdade. Eu sai da Odeon, porque não gravava nada do que queria lá. Só o que o diretor queria. Um dia Gonzaguinha me perguntou por que eu concordava com aquilo. Respondi que não sabia o motivo, talvez estivesse fragilizado, sei lá”.

 ÓPERA

 Há 40 anos, quando deixou de ser o artista mais popular do Brasil ao impor à gravadora a primeira ópera rock brasileira, ele deixou de frequentar as paradas, e entrou para o time dos “malditos” da indústria fonográfica, jogando no time de Sérgio Sampaio, De Raul Seixas, Tim Maia, Luiz Melodia: “Depois da ópera achavam que eu tinha virado louco, drogado, todos os malditos foram meus amigos, convivi com Tim Maia, mas não chegamos a fazer trabalho juntos. Tenho sempre esta vontade de fazer coisas novas. Mas é bom tocar neste assunto, porque, três anos atrás, fiz um show de O Filho de José e Maria, no Teatro Municipal de São Paulo, que teve DVD lançado pela gravada de Erasmo Carlos, e foi muito bem aceito pelo público. A Sony vai lançar, no ano que vem O Filho de José e Maria em CD e vinil”, adianta.

 Para Odair foi uma grande besteira (sic) das pessoas não prestarem atenção no disco: “ Ele é simples, popular. Uma das faixas, chamada Nunca Mais, entrou na trilha do filme sobre Tim Maia. Está num filme intitulado Chove no Sertão, produzido no Ceará. Acontece que a gente tem vontade fazer coisas diferentes. Sou meio inquieto. Não consigo viver repetindo o truque da foca a vida inteira, ainda que corra riscos. Eu achava que as pessoas iam achar aquilo o máximo, elas odiaram na época,. hoje amam. Hoje talvez eu seja mais respeitado como artista por aquele disco que as pesos detestaram na época”.

 Odair José tem uma das obras mais peculiares da MPB. Representa sempre o papel do outsider. Na época em que era sucesso popular no país inteiro, ele nem entrava nos programas de MPB, nem nos do rock, e ficava sobrando nas caravanas bregas. Não participou dos festivais hippies dos anos 70, como o de Guarapari, onde Luiz Gonzaga foi bem acolhido no meio do rock: “Toquei aí em Recife, no festival Rec-Beat para 40 mil pessoas, debaixo da maior chuva. Já nos festivais dos anos 70, e nem precisava, porque naquela época eu era o meu próprio festival. Onde ia havia 50 mil pessoas, cem mil pessoas. Tinha dificuldades de chegar ao palco”

 Ser compreendido para ser o objetivo do goiano. No disco novo ele canta um rock chamado A Culpa É do Henrique. O “Henrique”, vem do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mas não é exatamente dele sobre quem Odair está cantando, meio complexo, mas ele explica: “Teve um tempo em que tudo era culpa dele, do Fernando Henrique, então me inspirei pra fazer a música. Mas não é só ele, o presidente, pode ser qualquer coisa. Deixaram a piada no ar e eu aproveitei. Mas a mensagem principal do meu disco está na capa. O gato e o rato, as pessoas tem que viver no seu quadrado, mas respeitando o quadrado do outro. É preciso respeitar todas as diferenças”.

 Tem a ver a  faixa Açúcar Mascavo com Brown Sugar dos Rolling Stones? Odair José confessa que se tiver foi inconsciente: “Fiz sem pensar na música dos Rolling Stones. Mas pode ser uma mulata bonita, ou uma droga”, reflete o cantor, que lança Gatos e Ratos, com show em São Paulo, no início de novembro, e em seguida cai na estrada país afora: “Já começando a pensar no que vou fazer no próximo disco, sou inquieto, não quero é me repetir”.

 

 

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