Memória

Erasto Vasconcelos fazia percussão, canções e poesia

Ele foi mestre em todos os ritmos pernmbucanos

José Teles
José Teles
Publicado em 29/10/2016 às 10:16
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Ele foi mestre em todos os ritmos pernmbucanos - FOTO: foto: divulgação
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“Muito acham que eu sou um cara esquisitão, calado, pensam que eu sou infeliz. Mas o que ninguém sabe é que eu sou o cara mais feliz do mundo, comigo mesmo, é claro.” O comentário é do músico Erasto Vasconcelos, falecido na quinta-feira, de parada cardíaca, mas não é recente. É de 40 anos atrás, quando ele apresentou um concerto solo de percussão Amanhã Auê, no MAC, em Olinda. Um show que levaria para o Rio, com temporada na Aliança Francesa. Ele continuava conhecido no meio musical da cidade onde morou durante parte dos anos 70. Ali conviveu com os músicos alternativos da época, em Santa Teresa, o bairro udigrudi carioca daquela década.

Era no palco, ou compondo, que ele era feliz.

 É difícil acompanhar a movimentada trajetória de Erasto Vasconcelos nos anos 70 e início dos 80. Repetia-se com ele o que aconteceu com Naná Vasconcelos, no final dos anos 60, quando se tornou o percussionista mais requisitado da cidade. Erasto tanto fez apresentações como integrante de grupo, como aconteceu no show Artimanhas em Geral, com Joyce, Mauricio Maestro, Paulo Guimarães, e o coletivo Nuvem Cigana, como fez show solo, no Teatro João Caetano, com participações e Toninho Horta, Mauricio Maestro, Lô Borges, Vital Farias, Marcio Montarroyos, João do Vale e Luiz Melodia.

Participou do musical Se Eu Tivesse Meu Mundo, espécie de remake do show Opinião, de 1964, com João do Vale, e a cantora Vilma Lucia, no Teatro Opinião, em Copacabana. Com este espetáculo, ele chegou na Bahia. Entrosado com os músicos de Salvador, fez amizade com o pessoal do Bendegó, banda liderado pela dupla Gereba e Patinhas, que deixaria a música e se tornaria o marqueteiro político João Santana. Foi com eles que Erasto Vasconcelos foi para o Rio, e de lá faria a viagem que mudaria sua rota. 

 Foi para Nova Iorque, onde estava morando o irmão Naná Vasconcelos. O comunicativo Erasto não teve problemas para se enturmar. E ter Naná como referência abriu portas, que ele soube aproveitar, tocando com nomes do porte do saxofonista Stan Getz, por exemplo. Gravaria no Rio, com o Stone Alliance, grupo de jazz de Don Alias, Steve Grossman e Thad Jones, convidado por Márcio Montarroyos.

 Com o talento e a bagagem de informações rítmicas que levou de Pernambuco para NYC, abriu uma escola de percussão, a Samba Art & House. Anunciada no Village Voice, atraiu além de alunos, um professor da Columbia University, que o convidou para dar um curso de música brasileira na universidade. Logo, teria uma turma de 40 alunos, e conheceu os músicos do The Decoding Society, liderado pelo baterista Ronald Shannon Jackson (que gravou e tocou com Ornette Coleman, Archie Shepp), o baixista Melvin Gibbs (Defunkt, Rollins Band), e Vernon Reid (Living Colour).

 Uma crise de aguda de depressão fez com que Erasto Vasconcelos perdesse sua grande chance nos Estados Unidos. Ele deixou o grupo, com que gravou um álbum, e na véspera de uma turnê pelos EUA, voltou para o Brasil, e para sua Olinda.

“A música está aqui, ali, em qualquer lugar onde houver amor. E a coisa onde eu ponho sentimento, atualmente, é nas minhas próprias músicas, letras, que falam de coisas simples do dia a dia, como ‘menina vai ali na feira, traga tomatinho, cebola, pimentão, antes que venham os enlatados’. Depois, quando alguém ouvir uma música minha,alguém vai saber que em algum tempo existiu aquilo”, comentou, certa vez, Erasto Vasconcelos sobre sua música. Retraído, ele poderia de repente se tornar um tagarela, cantar, ou contar histórias divertidas. Aliava a percussão com letras engraçadas, muitas vezes non sense. Mas tudo levado extremamente a sério.

Houve uma época em que sua preocupação foi o maracatu. Pretendia criar um repertório de maracatu canção, que fosse cantado pelos grupos e pelas pessoas que acompanhavam o cortejo. Parte do repertório foi composta em 1974, quando Erasto Vasconcelos passava uma temporada em Ouro Preto. Outras foram feitas na década de 80. “O que me levou a fazer estas músicas foi o fato de observar que os maracatus apenas batucam, quase não cantam. Só há umas três ou quatro loas que eles sabem. Queria criar um repertório de maracatu-canção. Fiquei com a fita gravada e guardada tanto tempo porque não me sentia estimulado a lançar, já que o maracatus não estavam tão bem quanto hoje”, explicou Erasto, em entrevista concedida ao JC, quando lançou o CD Estrela Brilhante, em 2008.


 OLINDA MANDOU ME CHAMAR

O disco interessou a Milton Nascimento e a Wagner Tiso, que o queriam lançado pelo selo que estavam criando. Chegaram a dar um adiantamento a Erasto, mas o projeto foi abortado por causa de uma crise grava de diabete que acometeu Milton na época. Parte do repertório remontava a 1974, outra parte aos anos 80, quando ele fez amizade com Zeh Rocha, e eles chegaram a se apresentar em dupla pela periferia do Recife. Embora tenha tocado com dezenas de músicos, feito Geraldo Azevedo, que fez a primeira turnê solo com Erasto, com diversos músicos da cena mangue, Erasto manteve aproximação maior com a banda Eddie. Para Fábio Trummer, guitarrista da Eddie, Erasto foi um grande amigo, não apenas parceiro musical. 

 No início dos anos 80, Zeh Rocha foi o parceiro mais constante de Erasto. Juntos apresentaram, no Teatro da Livro 7, em 83, Pintô, o Tagarela, também nome de música (assinada pelos dois e Lenine), que ganhou o 1º Festival de Música Popular, promovido pelo DCE da UFPE.

 

Entre as músicas que fizeram, Zeh Rocha destaca Maracatu Silêncio, gravado por Lenine, no Baque Solto, disco dividido com Lula Queiroga (foi também gravada pelo Boca Livre, em 1996). Zeh Rocha conheceu Erasto Vasconcelos num bar em Olinda. Embora há muitos anos não bebesse, nos períodos em que se via livre dos problemas psicológicos (“Sou do clube da tarja preta”, brincava consigo mesmo), Erasto era figura fácil em Olinda. Foi pelo bairro histórico da cidade, que muitos músicos o conheceram. Erasto amava Olinda, onde nasceu e de onde veio muita da sua inspiração. 


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