Desfile da Mangueira

Carnaval 2020: Desfile da Mangueira mostra Jesus como negro e mulher

A escola de samba é conhecida por seus posicionamentos políticos e era uma das mais aguardadas no desfile carioca

Gabriela Carvalho
Gabriela Carvalho
Publicado em 24/02/2020 às 8:43
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MAURO PIMENTEL / AFP
FOTO: MAURO PIMENTEL / AFP
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Terceira escola a entrar ontem na Sapucaí, a Mangueira defendeu o título conquistado em 2019 com uma mensagem que esbarrou na política. Conhecida por trazer política para o Carnaval, o samba-enredo da escola "A Verdade vos Fará Livre" narrou a trajetória de Jesus Cristo, transportando a figura sagrada para contemporaneidade e exibindo faces diversas de Jesus. O grande destaque da escola de samba do Rio de Janeiro foi o pedido por respeito e tolerância.

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"Numa época em que se prega tanto um Jesus bélico, intolerante e controlador, a Mangueira leva para a avenida o Jesus do Evangelho: amoroso, amigo, parceiro dos oprimidos", escreveu recentemente o teólogo e pastor batista Henrique Vieira, que assessorou a escola com o estudo da Bíblia para criar o desfile.

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O enredo da escola falou de hipocrisia religiosa e apontou violências sofridas por minorias. Para reforçar a mensagem, Jesus surgiu como mulher, índio e negro com balas alojadas no corpo. Outra ala da Mangueira mostrava abuso do poder policial. "Meu nome é Jesus da gente. Nasci de peito aberto, de punho cerrado. Meu pai carpinteiro desempregado. Minha mãe é Maria das Dores Brasil", dizia trecho do samba-enredo. 

Internautas comentaram sobre possível alfinetada ao presidente Jair Bolsonaro em trecho que diz "não tem futuro sem partilha, nem messias de arma na mão". Além disso, a citação bíblica "a verdade vos fará livre" é uma das mais usadas pelo presidente, que é apoiado pela bancada evangélica no Congresso e pela parcela mais conservadora da população.

"Mas será que todo povo entendeu o meu recado? Porque de novo cravejaram o meu corpo. Os profetas da intolerância. Sem saber que a esperança brilha mais que a escuridão", em outro trecho do samba da escola.

Comandada pelo carnavalesco Leandro Vieira, a agremiação levou 19 alas 5 carros alegóricos, 3 tripés e 4.000 componentes para a Sapucaí. O enredo-samba foi escrito por Manu da Cuíca e Luiz Carlos Máximo e interpretado por Marquinho Art'Samba.

Samba-enredo da Mangueira

Eu sou da Estação Primeira de Nazaré

Rosto negro, sangue índio, corpo de mulher

Moleque pelintra do buraco quente

Meu nome é Jesus da gente

Nasci de peito aberto, de punho cerrado

Meu pai carpinteiro desempregado

Minha mãe é Maria das Dores Brasil

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

Eu tô que tô dependurado

Em cordéis e corcovados

Mas será que todo povo entendeu o meu recado?

Porque de novo cravejaram o meu corpo

Os profetas da intolerância

Sem saber que a esperança

Brilha mais que a escuridão

Favela, pega a visão

Não tem futuro sem partilha

Nem messias de arma na mão

Favela, pega a visão

Eu faço fé na minha gente

Que é semente do seu chão

Do céu deu pra ouvir

O desabafo sincopado da cidade

Quarei tambor, da cruz fiz esplendor

E num domingo verde e rosa

Ressurgi pro cordão da liberdade

Mangueira Samba que o samba é uma reza

Se alguém por acaso despreza

Teme a força que ele tem

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também 

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