MERCADO FINANCEIRO

Empresas perdem mais de R$ 50 bi em meio a temor por coronavírus

No Brasil, a Bolsa recuou na segunda (27) 4 mil pontos com as grandes produtoras de commodities brasileiras perdendo em um único dia mais de R$ 40 bilhões

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 28/01/2020 às 7:07
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SONNY TUMBELAKA / AFP
FOTO: SONNY TUMBELAKA / AFP
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Com a mesma velocidade que o coronavírus se espalhou no fim de semana, com vítimas em vários países, o medo de uma recessão global e a incerteza causada pela falta de transparência do governo chinês atingiu os mercados financeiros ao redor do mundo No Brasil, a Bolsa recuou na segunda-feira (27) 4 mil pontos com as grandes produtoras de commodities brasileiras - Vale, Petrobrás, Gerdau, CSN e Suzano - perdendo em um único dia R$ 42,343 bilhões em valor de mercado. As empresas de carne JBS, BRF, Marfrig e Minerva também sofreram, despencando R$ 8,072 bilhões. Ou seja, as perdas passaram de R$ 50 bilhões.

No mercado cambial, o dólar teve alta de 0,60% e o índice que aponta a capacidade de honrar compromissos do País, o CDS, chegou a atingir 110 pontos no início da tarde, para fechar em cerca de 107 pontos. Na semana passada, o indicador chegou a ficar abaixo de 100.

Vários motivos ajudaram no crescimento do temor global em relação ao avanço da doença. A Organização Mundial da Saúde (OMS), que havia divulgado a classificação do risco global do coronavírus como "moderado", corrigiu a informação para "elevado". Em relatório sobre o surto, a OMS disse que, nos comunicados anteriores, havia divulgado a avaliação errada. Segundo a entidade, o risco permanece "muito elevado" na China e "elevado" na região do país asiático.

Por outro lado, autoridades chinesas admitiram que informações sobre o contágio não foram divulgadas com agilidade. Segundo o prefeito da cidade de Wuhan, epicentro da crise, o governo local só poderia divulgar informações depois de obter autorização do governo central. Antes de a cidade ser fechada, 5 milhões viajaram por causa do Festival da Primavera. De acordo com o sócio da Eleven Financial, Raphael Figueredo, o mercado "não tem medo de crise, mas de incertezas".

Previsões

Especialistas de todo o mundo começaram a fazer previsões sobre o impacto da doença na economia chinesa - e global, por consequência. O banco dinamarquês Danske Bank estimou que o surto pode reduzir o PIB da China em 0,8 ponto porcentual no primeiro semestre. O motivo: a Província de Hubei, onde fica a cidade epicentro da doença, representa 4% da economia chinesa. A consultoria Capital Economics, por sua vez, diz que o surto terá "impacto significativo" no PIB do país no primeiro trimestre.

Com menor crescimento da China, maior compradora de commodities do mundo, as ações de empresas brasileiras ligadas à área sofreram muito. Segundo Luiz Roberto Monteiro, operador da corretora Renascença, as empresas sofrem mais com a exposição ao exterior. "Além disso, o mercado subia apenas por questões internas, com as pessoas tirando dinheiro da renda fixa para a variável", diz. "Com os estrangeiros buscando opções mais seguras, a Bolsa brasileira sofre."

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Turistas chineses em Dempassar, na Indonésia - SONNY TUMBELAKA / AFP
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Pedestres usam máscaras durante feriado do Ano Novo Chinês, em Hong Kong - ANTHONY WALLACE / AFP
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Turistas chineses em Dempassar, na Indonésia - SONNY TUMBELAKA / AFP
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Casal usando máscaras no metrô de Hong Kong, na China - Anthony WALLACE / AFP
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Passageiros usando máscaras aguardam por trem na plataforma em Hong Kong - Anthony WALLACE / AFP
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Passageiros usando máscaras viajam em trem durante feriado de Ano Novo Chinês - Anthony WALLACE / AFP
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Homem usando máscaras sentado em um banco enquanto aguarda por trem - Anthony WALLACE / AFP
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Turista chinês usa máscara para se proteger do coronavírus em Dempanssar, na Indonésia - SONNY TUMBELAKA / AFP
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Passageiros usando máscaras aguardam por trem na plataforma em Hong Kong - Anthony WALLACE / AFP

Perdas

No final do pregão, Vale ON (com direito a voto) recuou 6,12%, perdendo sozinha mais de R$ 17,3 bilhões em valor de mercado, enquanto Petrobrás ON recuou 4,21% e PN (sem direito a voto) perdeu 4,33%, seguindo o mau humor no mercado de petróleo, cujo barril do Brent caiu 1,94%, a US$ 59,32. Gerdau PN retraiu 7,94%, pior desempenho do Ibovespa, e CSN ON desvalorizou 7,78%, segunda maior queda do índice. Suzano ON teve baixa de 6,7%.

O setor de alimentos também esteve entre os que mais sofreram. A JBS ON teve queda de 6,83%; enquanto a BRF ON caiu 6,06%; Marfrig ON teve baixa de 7,27%, na mínima do dia; e Minerva ON, que não faz parte do índice, recuou 8,17%. Outro segmento que foi prejudicado foi o aéreo, por conta do cancelamento de viagens pela propagação do vírus. As ações sem direito a voto da Gol caíram 6,66% e as da Azul 3,33%. CVC ON perdeu 4,35%.

A piora na percepção do mercado em relação ao alastramento da doença começou no domingo, quando mais países relataram o aparecimento do vírus.

Contaminação da economia mundial

Os mercados mundiais operaram em baixa nesta segunda-feira (27) impactados pelas notícias de alastramento do coronavírus pelo mundo. Os principais índices da Bolsa de Nova York tiveram sua pior sessão do ano e replicaram as quedas registradas nos mercados da Europa e da Ásia. O Dow Jones recuou 1,57%. O mesmo aconteceu com a bolsa brasileira. O Ibovespa, principal índice da B3, fechou o dia em queda de 3,29%, puxado por duas das principais empresas listadas.

Desde o início das notificações de coronavírus, em 3 de janeiro deste ano, a Vale acumula uma perda de R$ 18 bilhões e a Petrobras, R$ 29,8 bilhões. O petróleo também voltou a cair derrubado pela possibilidade da propagação do coronavírus impactar na demanda da China.

Escute o analista Osvaldo Moraes explicar como o coronavírus atrapalha a economia:

Nesta segunda, a Organização Mundial da Saúde (OMS) corrigiu a avaliação que tinha feito a respeito do coronavírus. Agora, o órgão internacional acredita que o risco da doença é alto tanto para a China quanto para o mundo. Com isso, o mercado passa a se questionar de que forma a doença poderá impactar no crescimento da economia mundial e como eventuais fechamentos de portos e aeroportos poderão atrapalhar a dinâmica da economia.

Pânico no mercado com o coronavírus

O sócio-diretora da Multinvest Capital, Osvaldo Moraes, explica que o pânico do mercado em relação à disseminação da doença é porque o medo  termina por influenciar no comportamento das pessoas e, portanto, do mercado. “O racional disso é que, com o vírus se espalhando, menos pessoas tendem a sair de casa para comprar e consumir. Isso reflete no faturamento das empresas. E se o faturamento tende a cair por conta do medo das pessoas, as empresas vão dar menos resultado”, contextualiza o analista.

“E quem aposta em Bolsa, compra porque acha que as empresas vão dar retorno. Mas se elas vão faturar menos por causa do medo das pessoas, os investidores ficam menos dispostos a comprar, porque as empresas, obviamente, vão dar menos resultados”, comentou.

Nesta segunda, uma primeira morte causada pela epidemia de pneumonia viral foi registrada em Pequim, num cenário de crescente ansiedade em todo o mundo, com a multiplicação de medidas de prevenção nas fronteiras, enquanto a OMS considera “elevada” a ameaça representada pelo vírus internacionalmente. Para conter o vírus, que contaminou mais de 2.000 pessoas e causou em torno de 80 mortos, Pequim adotou medidas de confinamento sem precedentes, o que pode ser devastador para a atividade econômica.

Moraes também salienta que, como a China é o maior produtor e fornecedor de produtos no mundo, o vírus faz com que a previsão para a produção chinesa diminua em produtos usados diariamente pela população mundial, como chips, TVs, máquinas de lavar roupas e vários outros produtos exportados por aquele País. “Havendo menos produtos para vender, o comércio é reduzido. Com isso, a Vale não vai vender tanto minério de ferro, o consumo de petróleo tende a baixar e, com isso, a Petrobras também vende menos. Tem todo um conceito que está por trás disso que levam as pessoas a repensarem a Bolsa”, comentou Moraes.

Além do aspecto racional do mercado, também há os impactos irracionais motivados pelo medo. O vírus foi exportado pela China e está se espalhando pelo mundo. O Brasil anunciou nesta segunda-feira para evitar a proliferação da doença no País.  

Os Estados Unidos já registrou vários casos, a Europa também passou a contabilizar pessoas infectadas e, além disso, há o fato de que o vírus pode ser transmitido pelos doentes antes de os sintomas como tosse ou febre se manifestem nos infectados. Uma pessoa que sai da China contaminada pode transmitir para várias outras apenas dentro de um avião. “O empresário que iria para China fechar um negócio deixa de ir”, salienta Osvaldo Moraes.

Nesta segunda, o governo dos Estados Unidos pediu que os cidadãos americanos reconsiderem seus planos de viagem para a China devido à epidemia de coronavírus originada na cidade de Wuhan. O Departamento de Estado emitiu um aviso categórico para que os americanos não viajem para a província de Hubei, onde está localizada a cidade de Wuhan.

Até agora, 82 pessoas morreram do coronavírus, todas na China. As autoridades de saúde dos EUA confirmaram no domingo cinco casos de coronavírus, embora tenham alertado que esperavam mais contágios. Os cinco casos confirmados correspondem a pacientes que viajaram para Wuhan, disse Nacy Messonnier, chefe de doenças respiratórias dos Centros de Controle de Doenças, durante uma teleconferência com jornalistas.

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