TECNOLOGIA

Steve Wozniak, co-fundador da Apple, diz que dinheiro não importa

Em palestra em São Paulo, Woz afirma que o que vale é ser feliz e dá detalhes de sua relação com Steve Jobs

Saulo Moreira
Saulo Moreira
Publicado em 15/11/2014 às 7:20
Divulgação/Symantec
FOTO: Divulgação/Symantec
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SÃO PAULO – Quando aquele senhor gordinho, sem pescoço, de estatura média para baixa, com uma barba grisalha enfeitando o rosto com papadas estava prestes a entrar no feérico auditório, homens engravatados e sérios, tal adolescentes, se transformaram em tietes. Eram 841 profissionais do setor de tecnologia. CEOs, diretores, gerentes, enfim, líderes de grandes corporações como Dell, Hitachi, Fujitsu, HP. Estavam ali, todos a convite ou a serviço da Symantec, gigante americana que domina mundialmente as vendas de programas contra vírus de computador. Toda aquela gente ocupava a maior ala de eventos do Grand Hyatt, luxuoso cinco-estrelas no Itaim Bibi, bairro nobre de São Paulo. Estávamos no Vision São Paulo 2014, cuja estrela principal era Steve Wozniak. Ou Woz, com a naturalidade que sua simplicidade nos permite.

Stephen Gary Wozniak nasceu em São José, na Califórnia, há 64 anos e se tornou um apaixonado por engenharia e ciência da computação. É hoje uma espécie de herdeiro da idolatria antes dedicada a seu homônimo, sócio e amigo, Steve Jobs, morto em 5 de outubro de 2011 com 56 anos, vítima de câncer. Em 1976, Woz com 26 anos e Jobs com 20 criaram a Apple, ícone do empreendedorismo dos Estados Unidos, repleto de riscos e de gente disposta a encarar esse risco colocando dinheiro numa ideia. Durante as duas décadas em que conviveram mais intensamente, ficou claro que Woz era o contrário de Jobs. Este irritadiço, obcecado, emocionalmente instável. Aquele, brincalhão, tranquilo, de bem com a vida. Em vários momentos, brigaram (inclusive por dinheiro), mas também se tornaram milionários e se divertiram muito, quase sempre ao som de Bob Dylan. Woz e Jobs são gênios. Um não aconteceria sem o outro.

Às 10h03 da última quarta-feira Woz foi chamado ao palco pelo vice-presidente da Symantec na América Latina, Sérgio Chaia. De pronto, os presentes sacaram seus smartphones, tablets e phablets para registrar o momento. Havia um clima de euforia, insuflado pela apresentação agitada de Chaia, um dos executivos mais premiados do País. Antes que Woz se sentasse, Chaia e Aled Miles, vice-presidente sênior da Symantec, fizeram selfies com o ídolo. Depois pediram que o próprio Woz os clicasse, no que foram atendidos com gargalhadas da plateia e um sorriso tímido do co-fundador da Apple. É parte do jogo nesses eventos que buscam quebrar a aridez dos temas com descontração ensaiada.

Divulgação/Symantec
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Os computadores pessoais tal como conhecemos hoje, com teclado, tela, processadores e fonte de alimentação de energia acoplados são uma invenção de Wozniak. Mas foi uma invenção a pedido de Jobs, que não entendia muito de computação, mas excedia em atributos como marketing, tino para negócios e, suprema virtude, intuição para descobrir o que poderia deslumbrar o consumidor. O deslumbramento veio com o Apple II, em 1976, produto que marca a entrada prática da empresa da maçã no mercado de consumo. O nerd desenvolveu, o marqueteiro empacotou. Com todas as ferramentas de marketing, Jobs convenceu outras empresas do caráter revolucionário daquele aparelho onde letras digitadas apareciam na tela. Aos pais americanos, recomendava em propagandas que os filhos seriam mais inteligentes se tivessem um Apple II em casa. Water Isaacson, biógrafo de Jobs, classifica aquele computador como “o alvorecer de uma nova era.”

Calça, camisa e blazer pretos combinados com tênis azul e amarelo que mandou customizar em homenagem ao Brasil numa loja da Nike de São Paulo, Woz começa a responder as perguntas num bate-papo com Chaia. “Woz, por favor, defina para nós inovação”. Woz pensa e cita o exemplo do iPhone, que não é apenas um celular, mas um novo produto que foi lançado em 2007, bem depois de ele sair da Apple. “Inovação é uma invenção.” E emendou uma analogia acadêmica: “Na escola de engenharia ou na escola da vida, você sempre aprende. Em vez de pegar o livro, estudar e fazer uma bela prova e, assim, ser chamado de inteligente, você pode criar respostas novas para aquela prova.” Chaia: “E quanto a sua relação com Steve Jobs. Foi divertida, triste, relevante, frustrante...” Silêncio completo no auditório. Woz espera calmamente a pergunta e demora alguns segundos para responder. “Não tenho uma resposta fácil. Minha personalidade estava definida e a dele, não. Eu não queria brigar, discutir. Eu queria, e quero, que as pessoas gostem de mim.” Vozes femininas sussurram com sotaque paulistano “aaah, que lindo”

Woz deixou a Apple em 1985. Mas ainda tem ações da empresa, acompanha sistematicamente seus lançamentos a ponto de ser um dos primeiros da fila sempre que um gadget novo chega às prateleiras. Ele já acampou na frente de uma loja da Apple na Califórnia para ser um dos primeiros a ter o iPhone 4S. Virou um consultor. Sua opinião sobre um determinado produto pode reduzir ou estimular as vendas não só da Apple como de todas as concorrentes. Recentemente, criticou o Apple Watch e elogiou o sistema Android, o rival do IOS. Com um fortuna pessoal estimada em US$ 300 milhões, tem negócios na área imobiliária, de restaurantes, cosméticos e até um time de futebol americano. Também criou uma vodca em sua homenagem. Jobs, por sua vez, embora um dos homens mais ricos do planeta, só pensava em trabalho e desprezava a própria fortuna. Já rico, morava numa mansão em Palo Alto sem nenhum móvel ou decoração. Apenas uma mesa de madeira onda conversava com sócios e amigos.

Provocado a contar algo inusitado que ocorreu na Apple de seu tempo, Woz prossegue suas histórias com Jobs no início da empreitada, quando era pressionado pelo amigo a formar uma sociedade “para mudar o mundo”. “A memória vai se esvaindo com o tempo. Mas lembro que não queria ser um empresário. Não queria sair da HP. Eu queria continuar sendo um engenheiro, soldando placas. Desenhei o Apple I e II, mas não queria sair da empresa onde eu trabalhava. E eu não podia ficar na Apple e na HP. Então eu disse a Steve: ‘Não quero ir pra Apple e dinheiro não vai influenciar minha decisão.’”
Ao narrar a reação de Jobs às suas recusas naquele longínquo 1976, Woz provoca gargalhadas do público na palestra. Como sempre faz ao empolgar-se, Woz fica de pé e, falando rápido com uma expressão de incredulidade na face, continua. “Ele (Jobs) simplesmente telefonou chorando para todos os meus parentes dizendo que eu estava desperdiçando a chance de mudar o mundo, de ganhar dinheiro.”
Pressionado, Woz deixou a HP, fundou a Apple com o amigo temperamental e, juntos, saíram em busca de investidores.

E eis que durante o Vision São Paulo abre-se o momento para as perguntas dos jornalistas. Pedi a palavra e disse a Wozniak que muitos jovens no Brasil sonham não em empreender, mas em ser aprovado num concurso, ter um bom salário, estabilidade no emprego, uma vida confortável. Contei-lhe a máxima que se ele, Jobs ou Bill Gates tivessem nascido no Brasil, teríamos um auditor da Receita, um juiz federal e um procurador do Ministério Público. E o mundo não teria nem Apple nem Microsoft. Woz riu e respondeu: “Não tivemos muito apoio quando surgimos na década de 70, mas lutamos porque acreditávamos naquilo. Acho que o jovem que quer um emprego numa empresa ou quer desenvolver uma ideia não pode ir para a balada toda noite. Tem que estudar e insistir. Uma hora alguém vai acreditar naquilo.”

Apesar da mensagem incentivadora, é bom lembrar que nos Estados Unidos da década de 70 já havia a cultura do empreendedorismo. Grandes empresas entravam em contato com universidades em busca de jovens e seus projetos. No caso da Apple, foi Mark Markulla, um ex-executivo da Intel, que, ao entrar na garagem onde Woz e Jobs trabalhavam, resolveu passar um cheque sem a menor garantia de retorno e financiar aqueles garotos que mais pareciam hippies.

Perto do fim da palestra, alguém pede a palavra é questiona Woz sobre o que o que o motiva. “Dinheiro não é o ponto. A vida é felicidade. O cara que morreu e que se divertiu contando piada com os amigos. Quero ser lembrado assim. Felicidade significa sorrisos e menos cara feia. Procuro sorrisos.” Um jornalista quebra o clima sentimental e, questões técnicas retomadas, pergunta a Woz o que ele acha da “internet das coisas”, a tendências das empresas de colocarem equipamentos como geladeiras, carros e outros objetos ligados na rede. “Eu acho uma curtição. Muitas coisas da minha casa, eu checo do meu celular. Mas o que mais gosto de fazer é tocar a buzina do carro de onde eu estiver. Quando faço isso, minha esposa sabe que estou pensando nela.” Novos suspiros emocionados do público. Woz encerra sua participação, exibe uma camisa da seleção brasileira que ganhou de presente e sai ovacionado. No coffee break, o que mais se ouve é a expressão: “meu, o cara é muito fofo”.

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