Agropecuária

Morte de abelhas é investigada no Vale do São Francisco

Segundo a Univasf, milhares de abelhas foram encontradas mortas em locais distintos da região

Marília Banholzer
Marília Banholzer
Publicado em 19/08/2019 às 21:00
Foto: Divulgação/Cemafauna
Segundo a Univasf, milhares de abelhas foram encontradas mortas em locais distintos da região - FOTO: Foto: Divulgação/Cemafauna
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Está prevista para o início do mês de setembro uma reunião entre o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e órgãos ligados à agropecuária no Vale do São Francisco. O tema será a investigação do que pode estar causando a morte de abelhas na região. O caso está sendo acompanhado pela promotora de Justiça Rosane Moreira Cavalcanti. Para o encontro estão convidadas a Agência Pernambucana de Vigilância Sanitária (Apevisa); a Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária de Pernambuco (Adagro); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); e as Agências Nacional (Anvisa) e Municipal de Vigilância Sanitária.

De acordo com o Centro de Manejo de Fauna da Caatinga da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Cemafauna – Univasf), em setembro do ano passado, criadores de abelhas da região procuraram a instituição para investigar o motivo da morte e desaparecimento dos insetos. A partir de então a situação vem sendo analisada pela pesquisadora Aline Andrade e Silva, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf).

"Diversos fatores podem estar relacionados, como a redução da vegetação natural que vem dando espaço a monocultura dos tradicionais cultivos aqui da região, ao mesmo questões climáticas. No entanto, as análises iniciais feitas nas abelhas mortas e no mel, comprovam a presença de resíduo de substâncias químicas nas áreas cuticulares (pele) de abelhas e no próprio mel", explicou a bióloga que tem pós-doutorado em genética e evolução de abelhas.

Aline reforça que o estudo está em andamento e não há conclusões de que os defensivos possam ser a causa direta da morte dos insetos. Segundo ela, os materiais colhidos para estudo estão sendo analisados em parceria com Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto, e a Universidade de Cardiff, na Inglaterra. Já foram analisados 468 lotes de mel e 1003 abelhas encontradas mortas em locais distintos. Até o fim deste ano, a equipe técnica da Cemafauna irá divulgar um relatório conclusivo sobre o caso.

"Fomos procurados pelos produtores para auxiliar nas análises e descobrir o que está acontecendo. Os teste são muito caros e através de parceria feitas pela universidade temos conseguindo realizá-los. Essa região do Vale é muito rica em plantações e precisa do papel polinizador das abelhas. O nosso objetivo é ajudar a evitar a perda desses insetos e contribuir com esse ecossistema", pontuou Aline Andrade Silva.

Além da polinização e da importância para a fruticultura, o Vale do São Francisco é o segundo produtor de mel do Brasil, ficando atrás apenas do Rio Grande do Sul. Mas, segundo a Associação dos Criadores de Abelhas do Município de Petrolina, a redução na produção de mel vem sendo sentida há cerca de três anos, mas só agora relacionaram com a morte dos insetos. A estimativa da associação, que conta com 32 associados, é de que a produção que já chegou a 30 toneladas de mel, por ano, hoje caiu em 40%.
Em artigo publicado pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), o papel das abelhas é ressaltado: "Um terço da produção mundial de alimentos depende diretamente da sua atividade polinizadora e as abelhas são, entre os polinizadores, aquelas que desempenham a polinização de forma mais eficaz". O texto ainda traz a estimativa de que o valor dos serviços ecológicos e econômicos fornecidos pelas abelhas corresponde a US$ 577 bilhões.

O agrônomo e agricultor Silvio Medeiros, 57 anos, tem mil hectares de plantação de frutas como melão, uva e manga no Vale do São Francisco. Ele confirma a importância das abelhas para as produções, mas não relaciona a morte das abelhas na região com o uso de defensivos agrícolas. "Eu alugo colmeias para manter as abelhas nos meus cultivos. Sem dúvida elas são de extrema importância para a agricultura. Mas não acredito que elas estejam morrendo por causa de agrotóxicos. Exportamos para o mundo todo e se houve agrotóxico que mata abelha nossos contêineres seriam incinerados", defendeu Silvio.

Ele ainda relaciona a morte dos insetos a um processo natural causado pela longa seca enfrentada pelos estados nordestinos. "Não são só as abelhas. O gado morreu, as cabras, a vegetação. Se nem o Xique-xique deu flor, como é que as abelhas iriam sobreviver? É óbvio que essas mortes estão sendo causadas pela seca de sete ano que enfrentamos", finalizou.

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