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Prepare-se: o clima mudou e nada será mais como antes

No mundo, a capital pernambucana é a 16ª cidade mais vulnerável às mudanças climáticas

Felipe Amorim
Felipe Amorim
Publicado em 03/11/2019 às 9:13
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Foto: Filipe Jordão/JC Imagem
No mundo, a capital pernambucana é a 16ª cidade mais vulnerável às mudanças climáticas - FOTO: Foto: Filipe Jordão/JC Imagem
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O inverno não é mais o mesmo. E nem o verão. Os efeitos da crise climática alteraram a rotina de milhares de cidadãos das grandes cidades. No entanto, pelo menos em cinco prefeituras consultadas pela reportagem do JC isso, até agora, resultou em ações pontuais e tímidas diante do desafio do que vem por aí.

Somente como exemplo, na manhã do dia 13 de junho último, o Grande Recife parou com um grande alagamento. Em seis horas, ocorreu uma precipitação de 117 milímetros (mm) na capital pernambucana, o equivalente a 10 dias para aquele mês, cuja média de chuvas é 369,60 (mm). Em agosto deste ano, a areia invadiu a Avenida Beira Mar, em Olinda, numa maré alta que provocou o fechamento da rua, fato que espantou os moradores da cidade que não tinham presenciado nada parecido nos últimos 40 anos.

Cerca de 40% dos habitantes da Região Metropolitana do Recife passam por um racionamento de água devido à redução das chuvas e ao crescimento populacional. No interior do Estado, a última seca começou em 2012 e, em algumas cidades, como Cabrobó, ainda não acabou.

O que pensam fazer os governantes

A Prefeitura da Cidade do Recife (PCR) vai lançar o Plano de Mudanças Climáticas durante a Conferência Brasileira do Clima. O evento começa na próxima quarta-feira (6) e vai até a sexta-feira (8). Antes de chegar ao plano, o município levantou informações sobre os principais eventos que podem ocorrer por causa dos efeitos do aquecimento global. São eles: proliferação do Aedes aegypti (cuja picada pode transmitir doenças como dengue, chicungunha e zika), aumentos da temperatura média e do nível do mar, deslizamentos de encostas (que ocorrem como consequência da concentração das chuvas) e ondas de calor. Essas informações serviram de base para o plano. 

No mundo, a capital pernambucana é a 16ª cidade mais vulnerável às mudanças climáticas, principalmente por estar abaixo do nível do mar. “As ações do plano devem ser implementadas ano a ano”, conta o secretário de Meio Ambiente do Recife, José Neves, sem revelar mais detalhes.

Mas o que foi feito no Recife para combater a crise climática?, pergunta a reportagem da JC. “Fizemos o plantio de 10 mil árvores porque o Iclei – uma rede de governos locais pela sustentabilidade – entende que uma das melhores formas de combater a emissão de gás carbônico (CO2) é via arborização”, conta José Neves, argumentando que também estão sendo feitas ações de manutenção dos sistemas de drenagem para amenizar os alagamentos.

Com relação à emissão de gás carbônico, a situação é mais difícil de resolver em várias grandes cidades, inclusive o Recife. O transporte responde por 55% do total de emissões de CO2 na capital pernambucana, segundo o último inventário realizado em 2015. Em seguida, a maior quantidade de emissões são geradas pelos resíduos, principalmente, os orgânicos com 20% do total. “A cultura de usar o carro é exacerbada em Pernambuco. É difícil tirar o carro da rua”, comenta José Neves. A cidade tem engarrafamentos constantes nos horários de pico, mas uma parte da classe média não troca o automóvel pelo transporte coletivo, por causa da má-qualidade do serviço.

Por enquanto, a PCR estuda a possibilidade de usar etanol nos 600 veículos que pertencem ao município. “Isso reduziria em 73% a emissão de gases dessa frota”, afirma o secretário. E os carros elétricos – que não emitem CO2 – ainda é uma realidade distante de se concretizar antes de 2027, segundo o diretor de Regulação e Compliance de Produtos da Jeep, João Irineu. Para ele, o uso do etanol consegue mitigar a emissão do CO2 e a bateria de um carro elétrico custa em torno de US$ 9 mil, valor considerado alto para o Brasil.

Na capital baiana, o transporte é responsável por 54% das emissões totais de CO2. “Cerca de 800 ônibus passaram a ser abastecidos com o euro 6, um tipo de diesel menos poluente para cumprir o contrato de concessão com o município. Uma consultoria levantou que isso melhorou a qualidade do ar, evitando a morte de 10 pessoas por ano”, conta o secretário de Sustentabilidade, Inovação e Resiliência de Salvador, André Fraga. Ele acrescenta que até 2020 os 3 mil ônibus da Grande Salvador terão que usar o combustível menos impactante. Aquele município tenta estimular a bicicleta entre os seus funcionários. “Quem vem pedalando para o trabalho ganha um dia de folga a cada 15 dias”, conta.

A cidade de Salvador também é litorânea e vai passar por problemas parecidos com os que vão atingir o Recife. A capital baiana está começando a fazer o plano de convivência com a crise climática que vai ficar pronto em junho de 2020. “Foram plantadas 50 mil árvores em Salvador nos últimos seis anos”, diz André, se referindo a uma das principais ações adotadas por lá para combater o aquecimento global.

Voltando à RMR, as cidades de Jaboatão e Olinda desenvolvem ações para enfrentar problemas específicos que já estão ocorrendo. “A tecnologia tradicional para enfrentar o avanço do mar é o enrocamento das pedras que estamos colocando em pelo menos três pontos, onde o mar passou a avançar. Também estão sendo feitas pelo menos três obras que vão reduzir os alagamentos dessas localidades. É o que estamos fazendo com os recursos que se têm porque a dificuldade é grande”, conta o secretário de Infraestrutura de Olinda, Marconi Madruga.

Em Jaboatão, a situação não é diferente. “Dizer que as chuvas estão aumentando é fácil. Temos que nos preparar e avançar nessa questão, mas a cidade tem uma dinâmica de crescimento maior do que a capacidade de gestão financeira do Executivo”, argumenta o secretário executivo do Meio Ambiente de Jaboatão, Isaac Azoubel. Tanto Olinda como Jaboatão não iniciaram qualquer processo para executar um plano de enfrentamento à crise climática.

“O ritmo de implantação das ações de enfrentamento à crise climática está mais devagar do que o necessário. É uma prática intersetorial. Requer uma mudança de paradigma, que inclui desde melhorar a governança (dos municípios) até implementar os projetos”, diz a assessora de mudança do clima do Iclei, Flávia Bellaguarda. E acrescenta: “Estamos convidando todos para a mesa, porque a adaptação é necessária”.

Além do Recife, somente seis cidades brasileiras possuem políticas climáticas ou plano de adaptação: Belo Horizonte (MG), Feira de Santana (BA), Palmas (TO), Rio de Janeiro (RJ), São Paulo (SP) e Fortaleza (CE).

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