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Fifa declara guerra a empresários que usam jogadores como mercadorias

O Brasil é líder mundial em termos de transações internacionais, pelo menos em quantidade

Da AFP
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Publicado em 03/10/2014 às 18:21
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O Brasil é líder mundial em termos de transações internacionais, pelo menos em quantidade - FOTO: Foto: AFP
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O futebol movimenta bilhões ao redor do mundo e muitos empresários possuem fatias de jogadores usados como mera mercadoria, principalmente na América Latina.

Para resolver o problema, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, anunciou recentemente que a entidade tomou "a decisão firme de banir a participação de terceiros no passe de jogadores", mas ponderou ao ressaltar que esta "não pode ser banida imediatamente, havendo um período de transição".

O anúncio foi feito depois de apelos do ex-craque francês Michel Platini, presidente da Uefa, que alertou que a atuação desses empresários é "um grave perigo" para o futebol.

Apenas em 2013, foram realizadas 11.938 transferências internacionais, movimentando nada menos de 3,7 bilhões de dólares, de acordo com dados divulgados pela Fifa. O Brasil é líder mundial em termos de transações internacionais, pelo menos em quantidade, envolvendo 5.526 atletas entre 2011 e julho de 2014, na frente da Argentina (2.632).

Não é por acaso. Ambos os países revelam inúmeros jogadores talentosos, mas os clubes estão endividados e não conseguem segurar seus craques.

FÁBRICAS DE CRAQUES - No Brasil, praticamente 90% dos jogadores da Série A têm seus direitos fatiados entre vários proprietários, de acordo com um relatório da consultora KPMG.

"Nunca houve tanto dinheiro no futebol, mas os clubes continuam endividados, muitos até o pescoço. Esta situação econômica faz com que clubes precisem de investidores para contratar", explicou à AFP, Eduardo Carlezzo, advogado de São Paulo especializado em direito esportivo.

"Num primeiro momento, o impacto (da medida da Fifa) terá um impacto bastante forte e negativo para os clubes brasileiros, mas a longo prazo, será positivo recuperar 100% dos direitos econômicos", analisou.

Na Argentina, o clube Argentinos Juniors - que revelou grandes craques como Diego Maradona, Fernando Redondo, Juan Román Riquelme ou Esteban Cambiasso - nunca conseguiu o retorno financeiro à altura e disputa hoje a segunda divisão.

A justiça argentina investiga uma suposta sonegação de impostos nas transferências de 444 jogadores do país, inclusive estrelas como os vice-campeões mundiais Sergio 'Kun' Agüero (hoje no Manchester City) e Javier Mascherano (ex-Corinthians, hoje no Barcelona).

Presidente do clube Envigado, da Colômbia, Ramiro Ruiz explicou à AFP que tenta impedir a atuação de empresários "assinando convênios diretamente com as escolas e os pais", a não ser que os jogadores sejam representados por agentes Fifa.

Uma série de intermediários tenta lucrar tanto em operações milionárias, envolvendo craques cobiçados pelos maiores clubes do mundo, tanto no caso de jogadores inexpressivos, negociados em mercados emergentes, na Ásia ou no Leste Europeu, por exemplo.

JOVENS ABANDONADOS NA MISÉRIA - "Os jogadores não representam clubes, mas novos chefões a quem devem obedecer, sendo que muitos deles possuem os próprios clubes, que os usam como se fossem fábricas de craques", afirmou à AFP o paraguaio Alberto Candia, dirigente envolvido em transferências internacionais.

"Muitos empresários submetem os jogadores a um verdadeiro regime de semi-escravidão. Por possuírem os direitos federativos dos jogadores, acham que podem decidir o seu futuro", concorda Carlos Soto, presidente do Sindicato de Jogadores Profissionais do Chile.

"Os jogadores precisam ter a liberdade de negociar e conversar diretamente com um clube. Essa decisão da Fifa me parece correta", considerou Jackson Ibargüen, ex-jogador da seleção sub-20 da Colômbia, que foi vítima de um empresário que acabou com sua carreira.

O colombiano, hoje com 29 anos, foi levado para jogar na Bósnia de 2008 a 2013, período em que não recebeu salário e foi impedido assinar contrato com outros clubes.

Há também o caso do jovem paraguaio Diego Mendieta, que morreu de tifo, sozinho e abandonado na Indonésia, em dezembro de 2012.

Seu clube, o Persis Solo, devia quatro meses de salários (9.560 euros) ao jogador, que acabou se vendo obrigado a morar em lugares precários e a ingerir alimentos em más condições.

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