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Rio: Governo emite nota sobre caso Agatha, mas Witzel não se manifesta

A menina Agatha Vitória, de apenas 8 anos, foi morta depois de ser atingida nas costas por um tiro de fuzil dentro da Kombi em que viajava, no Complexo do Alemão

Estadão Conteúdo
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Publicado em 22/09/2019 às 16:14
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Foto: Acervo pessoal
A menina Agatha Vitória, de apenas 8 anos, foi morta depois de ser atingida nas costas por um tiro de fuzil dentro da Kombi em que viajava, no Complexo do Alemão - FOTO: Foto: Acervo pessoal
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Em meio a protestos de moradores do Complexo do Alemão e à crescente pressão nas redes sociais, o Governo do Estado do Rio de Janeiro emitiu, na tarde deste domingo, 22, uma nota de pesar sobre a morte da menina Agatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, atingida por um tiro de fuzil no Complexo do Alemão na noite de sexta-feira. Até às 15h09, o governador Wilson Witzel (PSC) não havia se manifestado. Diversas autoridades políticas, entre elas o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes, postaram manifestações sobre o assunto nas redes sociais.

No texto publicado no Twitter, que não leva assinatura, o governo informa que a Polícia Militar do Rio de Janeiro abriu um procedimento para apurar a ação dos policiais. "O Governo do Estado lamenta profundamente a morte da menina Agatha, assim como a de todas as vítimas inocentes, durante ações policiais", diz a nota. De acordo com o governo, criminosos fizeram ataques simultâneos em diversas localidades do Complexo do Alemão na noite de sexta-feira, o que teria feito os policiais da UPP Fazendinha revidarem.

"Após confronto, foram informados por moradores que a menina tinha sido atingida e levada para o Hospital Getúlio Vargas", diz a nota. A versão é contestada pela família de Agatha, que negou ter havido confronto e relatou que os policiais atiraram contra uma motocicleta que passava na hora, atingindo Agatha dentro da Kombi em que viajava.

Mesmo com a nota institucional do governo, cresce nas redes sociais uma cobrança por um posicionamento pessoal do governador Witzel. Neste domingo, Witzel tuitou duas vezes, uma parabenizando o município de São Gonçalo pelo aniversário de 129 anos e outra sobre o Dia Mundial Sem Carro.

Também no Twitter, o deputado Rodrigo Maia prestou solidariedade à família de Agatha. "Qualquer pai e mãe consegue se imaginar no lugar da família da Agatha e sabe o tamanho dessa dor. Expresso minha solidariedade aos familiares sabendo que não há palavra que diminua tamanho sofrimento", disse Maia. "É por isso que defendo uma avaliação muito cuidadosa e criteriosa sobre o excludente de ilicitude que está em discussão no Parlamento."

O ministro Gilmar Mendes classificou o número de mortes resultantes de ações policiais nas favelas como "alarmantes" e chamou atenção para o número de crianças baleadas neste ano. "Uma política de segurança pública eficiente deve se pautar pelo respeito à dignidade e à vida humana", afirmou.

Corpo da menina Agatha é velado no Rio

Parentes e amigos velam desde o início da tarde deste domingo, 22, o corpo da menina Agatha Vitória Sales Félix, de apenas 8 anos, morta depois de ser atingida nas costas por um tiro de fuzil dentro da Kombi em que viajava, no Complexo do Alemão. O enterro está previsto para 16h, no cemitério de Inhaúma, na zona norte do Rio.

Moradores e ativistas convocaram nova manifestação neste domingo, pedindo o fim da violência policial no conjunto de favelas em que a menina foi atingida. A Concentração de manifestantes começaria 13h, em frente à Unidade de Pronto Atendimento de Itararé.

A Polícia Civil informou que enviará para perícia as armas dos policiais militares que estavam em patrulhamento na noite de sexta-feira no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio, no momento em que Agatha foi atingida.

Ela foi levada para o hospital, mas não resistiu ao ferimento e morreu na madrugada deste sábado, 21. A Polícia Militar alega que os agentes que atuavam no local tinham sido alvo de criminosos, mas parentes da menina e testemunhas relataram que não houve confronto e que os policiais teriam atirado contra uma motocicleta que passava na hora, com dois homens a bordo.

As armas dos policiais militares passarão por confronto balístico com o projétil retirado do corpo da vítima no Instituto Médico Legal. De acordo com a Delegacia de Homicídios da Capital (DHC), familiares de Agatha Félix já prestaram depoimento neste sábado, e novas testemunhas serão ouvidas a partir desta segunda-feira.

No decorrer dessa semana, a polícia determinará a data para a reconstituição do disparo que vitimou Agatha.

A morte de Agatha causou comoção e motivou críticas de entidades à política de segurança pública do governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). A Defensoria Pública do Estado condenou a "opção pelo confronto", enquanto a seção Rio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) destacou o "recorde macabro" de 1 249 pessoas mortas pela polícia no Estado de janeiro a agosto.

O assunto também mobilizou a internet. A hashtag a "A culpa é do Witzel" figurou entre as mais citadas no ranking do Twitter Brasil ao longo do dia de sábado.

Protesto

Moradores, parentes e amigos da família de Agatha participaram neste sábado de um protesto contra a violência policial nas comunidades que formam o Complexo do Alemão. Em vídeos postados nas redes sociais pelo jornal comunitário Voz das Comunidades, era possível ver os manifestantes carregando faixas com nomes de algumas das vítimas de confrontos e mensagens como "Parem de nos matar", "Chega de morte" e "Não quero enterrar meu filho". Os líderes do protesto pediam um basta à violência e ao uso de helicópteros da polícia que têm sobrevoado as comunidades fazendo disparos contra a favela.

Em nota, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro informou que lamentava "profundamente a morte da pequena Agatha no Complexo do Alemão" e manteve a versão de que os agentes apenas revidaram a uma agressão de criminosos "quando foram atacados de várias localidades da comunidade de forma simultânea". No entanto, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) comunicou que abrirá "um procedimento apuratório para verificar todas as circunstâncias da ação".

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