ITÁLIA

Incerteza na Itália após tsunami nas eleições legislativas

A extrema-direita reivindicou o direito de governar após alcançar 37% dos votos nas eleições

Julia Aguilera
Julia Aguilera
Publicado em 05/03/2018 às 14:38
Foto: AFP
A extrema-direita reivindicou o direito de governar após alcançar 37% dos votos nas eleições - FOTO: Foto: AFP
Leitura:

Fortalecidos pelos resultados das eleições legislativas de domingo (4), a extrema direita de Matteo Salvini e o Movimento 5 Estrelas antissistema reivindicaram nesta segunda-feira (5) o direito de governar a Itália.

O Movimento 5 Estrelas (m5E), com eleitores de esquerda e de direita, e os partidos de extrema direita se beneficiaram de uma rejeição da velha classe política, do descontentamento com uma economia que não decola e das tensões em relação aos imigrantes.

A Itália votou em sintonia com os britânicos que optaram pelo Brexit, os americanos que deram a vitória a Donald Trump e outros países da Europa, onde a extrema-direita vive um novo impulso.

O líder de extrema-direita Matteo Salvini, do partido Liga do Norte, reivindicou nesta segunda-feira (5) "o direito e o dever" de sua coalizão conservadora de governar a Itália após somar 37% dos votos.

"É uma vitória extraordinária", comentou Salvini, líder xenófobo, durante coletiva de imprensa na sede de seu partido.

Salvini superou seu aliado dentro da coalizão, Silvio Berlusconi, e, por esta razão, exigiu ocupar a chefia do governo, acrescentando que não está disposto a se aliar ao M5E, o partido mais votado do país, com 32% dos votos.

"Pela primeira vez na Europa, as forças antissistema venceram", resumiu o editorial do jornal "La Stampa".

Contudo, a coalizão liderada durante a campanha pelo magnata e três vezes primeiro-ministro Silvio Berlusconi e seu partido Forza Italia, aliada aos xenófobos da Liga do Norte e aos neofascistas Irmãos da Itália, com seus 37% dos votos, não teria condições de governar.

A formação antissistema do M5E, que se apresentou sozinha, deve ser confirmada como o maior partido na Itália, com cerca de 32% dos votos, de acordo com projeções que mostram uma ascensão espetacular do movimento criado em 2009.

Di Maio já se pronunciou, reivindicando o direito de formar governo no país, enquanto  Italia Alessandro Di Battista, um dos líderes do movimento que fez campanha contra a corrupção e contra a "casta política italiana", celebrou que, de agora em diante, "todos terão que falar conosco".

Ingovernáveis

Se as estimativas forem confirmadas, o cenário político que se desenha é o de um país ingovernável, com duas novas forças, muito diferentes, mas nascidas contra a chamada casta política.

"Os vencedores desta batalha eleitoral são Matteo Salvini e Luigi di Maio", líder do M5E, mas "nada disso leva a qualquer tipo de governabilidade", assegura o editorial do "La Stampa".

A Bolsa de Valores de Milão reagia com relativa serenidade aos resultados. O índice FTSE Mib abriu com uma queda de 2%, mas logo se recuperou, situando-se em torno de -0,5%.

Nesse contexto, o governo alemão convocou, nesta segunda-feira, a formação na Itália de um "governo estável".

"Nós desejamos boa sorte aos responsáveis ??para formar um governo estável, para o bem da Itália, mas também da nossa Europa", afirmou o porta-voz da chanceler Angela Merkel, Steffen Seibert, em entrevista coletiva.

A polêmica reforma eleitoral adotada em outubro na Itália complicou a situação, pois, ao favorecer as alianças políticas e tentar penalizar grupos independentes, como o M5E, causou uma "confusão gigantesca", segundo um popular jornal local.

Para o maior partido da atual coalizão no poder de centro-esquerda, o Partido Democrático (PD), liderado por Matteo Renzi, a derrota deve ser amarga, com cerca de 19% dos votos.

"Uma derrota clara e muito negativa, não negamos", comentou o porta-voz do PD, Maurizio Martina.

 

Cautela

Com as mudanças em uma lei eleitoral que combina o sistema proporcional com o majoritário, a composição das duas câmaras do Parlamento, que na Itália tem o mesmo poder, ainda não é conhecida.

De acordo com especialistas, para obter uma maioria dos assentos são necessários de 40% a 45% dos votos.

A campanha foi dominada por questões como imigração, insegurança e promessas econômicas impossíveis de se cumprir, bem como agressões e insultos entre neofascistas e antifascistas, algo que não era visto desde os anos 1980.

A incerteza dos resultados abre caminho para todos os cenários possíveis: uma maioria de direita, coalizão entre Forza Italia e a centro-esquerda, algo difícil de acordo com os comentaristas italianos, e até uma aliança entre a Liga e o M5E, que teoricamente poderiam atingir a maioria no Parlamento.

Cerca de 46 milhões de italianos foram convocados para eleger 630 deputados e 315 senadores. Agora, o presidente italiano, Sergio Mattarella, será responsável nas próximas semanas por confiar a formação de um governo a quem ele acredita que possa formar uma maioria no Parlamento.

O jornalismo profissional precisa do seu suporte. Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Últimas notícias