Escravidão

No Recife, Prêmio Nobel da Paz fala sobre combate ao trabalho infantil

A convite do TRT, ativista indiano Kailash Satyarthi discute as ações para erradicar a exploração de crianças e adultos

Ciara Carvalho
Ciara Carvalho
Publicado em 30/01/2016 às 7:25
Guga Matos/JC Imagem
A convite do TRT, ativista indiano Kailash Satyarthi discute as ações para erradicar a exploração de crianças e adultos - FOTO: Guga Matos/JC Imagem
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A voz suave do indiano Kailash Satyarthi é um grito contra o conformismo. O ativista ganhou o Nobel da Paz em 2014 por sua luta em defesa da liberdade de crianças submetidas a regimes de servidão. “O trabalho escravo é um crime contra a humanidade”, crava, sem alterar o semblante, mas com a firmeza de quem fez dessa frase um propósito de vida. Nascido em 1954, no interior da Índia, Satyarthi e sua ONG Bachpan Bachao Andolan (Movimento para Salvar a Infância) carregam no currículo a libertação de mais de 80 mil crianças vítimas de exploração. A convite do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), ele esteve ontem no Recife. O discurso do ativista fala direto às consciências: em todo o mundo a exploração infantil ocorre em nome da tradição cultural. E é preciso dar um basta nessa falsa normalidade.

Não faltam exemplos da perversa relação. No Brasil, se convive com crianças trabalhando nos mercados, feiras livres e semáforos como se fosse algo banal. Kailash enumera outras realidades. Meninas que são forçadas a casar em idade precoce, comunidades que matam crianças ainda no ventre de suas mães, sociedades ou países nos quais as mulheres sequer têm voz. “Todas essas expressões de abuso sobre o ser humano continuam sob o guarda-chuva da cultura. E isso não é justo. A cultura não é um lago poluído. A cultura, pelo contrário, é um rio que flui e que corre, cheio de novas ideias que deveriam abrir as mentes, e não fechá-las.”

Ao se recusar a conviver com esse flagelo, o ativista trata a exploração de crianças como uma questão política que pode e deve ser enfrentada. “Resolver o problema do trabalho infantil não está além da nossa capacidade. Nós podemos fazer isso”, provoca. Ouvir as palavras de Kailash faz lembrar o pensamento do pernambucano Josué de Castro, médico e geógrafo que enxergou a fome não como uma mazela decorrente de causas naturais, mas um problema político criado e alimentado pelo homem. O nome de Josué de Castro, inclusive, chegou a ser indicado duas vezes ao Nobel da Paz, honraria conquistada pelo indiano.

Em escala global, Kailash dimensiona o tamanho do desafio. São 168 milhões de crianças trabalhando em tempo integral, sendo 5,5 milhões delas escravizadas. Um comércio que gera, aproximadamente, US$ 150 bilhões de lucros decorrentes do trabalho ilegal.

Essa é a quinta vez que o ativista vem ao Brasil e a primeira que visita Pernambuco. Apesar de o País ter registrado um aumento do número de crianças e jovens trabalhando (segundo dados da última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios-Pnad, divulgada no ano passado), o indiano tem uma visão otimista do País.

Diz que nos últimos 21 anos o Brasil empreendeu maiores progressos em relação ao trabalho infantil do que a maioria das demais nações. E cita programas como o Bolsa Escola e o Bolsa Família como iniciativas que ajudaram a superar parte do problema. “Mas ele ainda não está resolvido. É preciso esforços mais coordenados para isso. Cerca de três milhões de crianças continuam fora da escola. E ainda temos o trabalho escravo e vítimas de tráfico de seres humanos. Não dá para fechar os olhos.”

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