RESISTÊNCIA

Biblioteca pública atrai moradores da Zona Norte do Recife

Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial Brasileiro mostra que mercado está mal, enquanto por aqui o JC mostra nichos de resistência de leitura

Ana Tereza Moraes
Ana Tereza Moraes
Publicado em 03/05/2019 às 9:44
Editorial
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial Brasileiro mostra que mercado está mal, enquanto por aqui o JC mostra nichos de resistência de leitura - FOTO: Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Quem procura a Biblioteca Amigos da Leitura do Alto José Bonifácio, na Zona Norte do Recife, e pede, por exemplo, o livro As crônicas de Narnia, 752 páginas, é informado que tem fila de espera. Essa é uma informação estupenda que pode ser melhor avaliada quando feito o cotejo com o mercado de livros no Brasil, como acaba de ser divulgado: a Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial Brasileiro revelou segunda-feira, 29, que esse mercado está ladeira abaixo, enquanto por aqui a repórter Margarida Azevedo descobre nichos de resistência de leitura até onde menos se poderia imaginar: “É num prédio onde funcionou uma gafieira e depois bailes funk que crianças e adolescentes do Alto José Bonifácio, Zona Norte do Recife, se encontram para ouvir histórias, brincar com jogos de tabuleiro e ler livros”.

E tem mais, mostrando que brasileiro não é tão ruim de leitura como se costuma dizer. No confronto com países onde há mais tradição, mais recursos e mais condições materiais e de ócio, de fato ficamos lá embaixo, mas a reportagem deste JC mostra como, entre Olinda e Recife, no bairro de Peixinhos, as mesmas atividades que passaram a ocupar o lugar de uma gafieira acontecem num local antes usado como matadouro, hoje batizado de nascedouro.

Isso tem que ser festejado, na perspectiva de que mesmo com os mais parcos recursos materiais e o advento dos equipamentos eletrônicos que costumam “roubar” a busca da ficção como amortecedora das durezas do mundo real, é possível criar espaços de alumbramento literário. É o que acontece, também, numa das áreas que em passado não muito distante era dada como perigosa para se viver e transitar, o Coque, na Ilha Joana Bezerra, área central do Recife, onde a leitura está disponível numa casa alugada na Rua Centenário do Sul.

E agora em maio vão ser divulgadas pesquisas em sete bibliotecas comunitárias da Região Metropolitana do Recife, parte de um estudo em 45 cidades de 15 Estados e do Distrito Federal, onde se informa que 86,7% das bibliotecas ficam na periferia de áreas urbanas e em regiões de elevados índices de pobreza, violência e exclusão de serviços públicos. Cida Fernandez, do Centro Luiz Freire e uma das coordenadoras da pesquisa entre nós, traduz esse cenário: “São espaços não só de formação de leitores, mas que possibilitam debater a vida comunitária. É onde as mães se juntam, por exemplo, para conversar sobre raça, gênero, sexualidade. Onde as crianças ficam em vez de estarem nas ruas. Local de aconchego para sentir e compartilhar experiências da comunidade”.

Aí está contida a magia da leitura, que por si só não é suficiente para fazer emergir a formação da cidadania consciente e participativa, mas funciona como uma ferramenta capaz de ser usada para o bem mesmo quando as condições sociais apontam na direção contrária.

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