Educação

Artigo: Nunca haverá escola sem partido

Projeto Escola sem Partido diz que dever do professor é não favorecer alunos em razão de convicções políticas

Siane Gois Rodrigues
Siane Gois Rodrigues
Publicado em 21/05/2019 às 8:26
Artigo
Foto: Lula Marques / Fotos Públicas
Projeto Escola sem Partido diz que dever do professor é não favorecer alunos em razão de convicções políticas - FOTO: Foto: Lula Marques / Fotos Públicas
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Certa vez, em um debate acerca de ideologia e discurso, uma aluna minha disse que, a seu ver, certas expressões que outrora possuíam carga semântica negativa perdem esse valor e passam a ter outros significados. Para ilustrar a tese, ela citou o enunciado “eu não sou tuas negas”, utilizado em nossa região em conversas informais em tom jocoso. Eu não tive tempo de responder ao comentário, pois uma colega sua de sala reagiu de imediato: “você acha isso porque é branca”.

A resposta da segunda aluna é um exemplo da relação signo ideológico/enunciado que constitui as interações sociais. Tome uma palavra em estado de dicionário e terá um mero sinal, uma forma estável e sempre igual a si mesma, uma possibilidade. Tome esta mesma palavra e a insira em um enunciado e terá um signo ideológico. É a dualidade sinal/signo ideológico que embebe a palavra de uma tensão: como sinal, ela é da ordem do repetível. Retomando o diálogo entre as alunas, a palavra “negas”, em estado de dicionário, não diz nada, pois não pertence ao domínio da ideologia e está ali como um mero vir a ser. Quando mobilizada por um falante em um enunciado, ela se transforma em signo ideológico e é da ordem da unicidade.

Ela tem também uma historicidade interna, uma memória. Foi essa memória que veio à tona quando da resposta da segunda aluna: “eu não sou tuas negas” remete à maneira pejorativa com que mulheres brancas da aristocracia se referiam às possíveis amantes de seus companheiros.

Agora, tomemos um “Dever do Professor”, do projeto Escola sem Partido: “O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas.” Como educadora, não haveria possibilidade de mediar esse debate sem “tomar partido”, pois, se eu concordasse com a primeira estudante, estaria reiterando um discurso racista e machista. Em vez disso, eu me alinhei à resposta da segunda. Até mesmo se tivesse ficado em silêncio, estaria assumindo um posicionamento.

Talvez, para completar o quadro de horrores de desrespeito ao professor no Brasil, reste apenas a aprovação de uma proposta que subtraia dele qualquer possibilidade de exercer o seu ofício.

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