
Os políticos que usaram o crowdfunding tiveram um custo até cinco vezes menor por voto proporcionalmente do que os que não utilizaram essa ferramenta – conhecida também como vaquinha virtual –, que permite arrecadar recursos de pessoas físicas usando a internet, segundo informações do AppCívico.
“Essa é uma das nossas conclusões sobre a eleição de 2016. Quanto mais doadores, menor o custo da campanha. Quem doa R$ 30 para um político vai virar um cabo eleitoral falando sobre isso no almoço do domingo, no WhatsApp. A participação do cidadão pode ser uma nova moeda no processo eleitoral”, resume o CEO do AppCívico, Thiago Rondon.
Na eleição de 2016, A plataforma Voto Legal fez a vaquinha virtual de 130 candidatos. Atualmente, são 800 políticos interessados em usar a ferramenta oferecida pela empresa.
O crowdfunding não era regulamentado em 2016. Na eleição deste ano, a vaquinha virtual passou a ter as suas regras estabelecidas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que abriu o processo para cadastrar as empresas que vão fazer esse tipo de operação. A Voto Legal é a plataforma do AppCívico usada para fazer a vaquinha virtual.
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Os 130 candidatos que usaram a Voto Legal arrecadaram mais de R$ 6 milhões de 384 mil pessoas, que contribuíram com uma doação média de R$ 80. A empresa fez crowdfunding para 26 partidos em 2016, e a única exigência era a transparência exigida tanto dos políticos quanto dos doadores. “O campo digital está mais seguro para os políticos não só porque está regulamentado, mas por exigir valores como a transparência em tempo real no mesmo lugar no qual pede os recursos”, conta Thiago.
Os doadores devem informar o CPF no ato da doação. “O lado bom do crowdfunding é trazer o cidadão para se engajar nas campanhas e cobrar dos políticos posturas mais éticas. É como se o eleitor se tornasse sócio da campanha. No entanto, o lado ruim é que há todo um cenário (alta carga tributária, aumento do preço da gasolina, a crise) que torna difícil o brasileiro comprometer uma parte da sua renda para fazer uma doação a uma campanha política”, diz o desembargador eleitoral substituto, Delmiro Campos.
PARTIDOS
Do PT ao PSOL passando pelo PSDB, os partidos estão se organizando para fazer o crowdfunding. “Temos uma bancada pequena, e o nosso acesso aos fundos com recursos públicos que bancam as campanhas é pequeno. O crowdfunding é uma oportunidade de levantar recursos para a campanha e gerar engajamento”, conta a pré-candidata ao governo de Pernambuco pelo PSOL, Dani Portela.
Na eleição de 2016, o partido conseguiu arrecadar mais de R$ 1 milhão em doações de crowdfunding na campanha de Marcelo Freixo (PSOL) à prefeitura do Rio de Janeiro. “O PSDB se preparou para esse novo modelo de financiamento de campanha e dará acesso a todos os seus pré-candidatos no Brasil, de modo especial em Pernambuco, a participarem do processo do crowdfunding a
partir de 15 de maio. Essa decisão envolve não somente questões de necessidades econômicas, mas sobretudo uma sinalização de estar completamente sintonizado com esse novo momento da relação entre a política e a sociedade, e a forma como o sistema eleitoral é financiado”, diz o deputado federal e presidente do PSDB de Pernambuco, Bruno Araújo.
Ele estava se referindo ao fato de que a próxima eleição será bancada por recursos públicos, com Fundo Eleitoral e Fundo Partidário somando R$ 2,5 bilhões. Um dos candidatos do PSDB disposto a fazer o crowdfunding é o deputado federal Betinho Gomes. “A criação de uma cultura de doações no Brasil a partir dessa ferramenta pode diminuir o uso dos recursos públicos na campanha”, afirma Betinho. Pré-candidato a deputado estadual, o advogado João Suassuna (PSB), 32 anos, pesquisou várias plataformas e vai lançar a campanha de financiamento coletivo já no próximo dia 15.
Como o modelo de arrecadação é novidade, ele admite que ainda não sabe estimar quanto vai conseguir captar, mas espera contar com o engajamento de amigos e entusiastas para se contrapor a campanhas com estruturas financeiras mais robustas. “É uma ferramenta nova.
Importante pelo critério de transparência, porque todas as contribuições serão aferidas e disponibilizadas na prestação de contas. A gente acredita que isso trará uma maior sensação de participação e de pertencimento nas pessoas com a campanha. Existe um distanciamento muito grande entre a classe política e a população. E o crowdfunding vem para aproximar”, opina Suassuna, ex-secretário-executivo estadual de Políticas para Criança e Juventude. Pessimista, o secretário estadual de financiamento do PT, Cirilo Mota, argumenta que a legenda vai usar de forma coletiva o crowdfunding.
“É uma coisa experimental. Não acredito que vai dar muito certo, porque geralmente a pessoa física quer doar durante a campanha que só começa em 16 de agosto, e as arrecadações já podem ser feita a partir do próximo dia 15. É um processo de reeducação da sociedade para o cidadão perceber que vale a pena fazer uma doação a um político. Não acredito que vamos chegar nesse estágio em 2018”, conclui.