Memória política

O Brasil em ação na Operação Condor

Documentos da Argentina sobre sequestro de militante mostram que o Brasil integrou aliança político-militar com ação no Cone Sul

Carolina Albuquerque
Carolina Albuquerque
Publicado em 09/02/2014 às 0:59
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Documentos da Argentina sobre sequestro de militante mostram que o Brasil integrou aliança político-militar com ação no Cone Sul - FOTO: NE10
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Uma documentação secreta da Chancelaria da Argentina comprova que a Polícia Federal brasileira reteve na cidade de Corumbá, no Mato Grosso, a militante argentina do movimento guerrilheiro Montoneros, Noemí Esther Gianotti, 11 dias depois do seu sequestro em Miraflores, no Peru, fato ocorrido em 1980.

A guerrilheira, uma das fundadoras do grupo Mães da Plaza de Mayo, apareceria morta no dia 21 de julho de 1980 em um apartamento alugado no distrito Madrid Princesa, na Espanha. A participação do Brasil nesse caso reforça a tese de que os regimes ditatoriais do Cone Sul instituíram uma aliança político-militar até meados dos anos 80, intitulada Operação Condor.

A informação foi repassada pelo filho de Noemí, o argentino Gustavo Molfino, ao documentarista pernambucano Cleonildo Cruz, que está na Argentina colhendo depoimentos para o filme Operação Condor: Verdade Inconclusa.

Além de Noemí, o documento nomeia outros três cidadãos argentinos: Julio César Ramirez, Maria Inês Roserta e César Abel Pilar. A Comissão Argentina de Direitos Humanos (Cadhu) já declarou que a morte de Noemí se tratou de crime político, derrubando a versão oficial de causa natural.

Segundo o livro Os anos do Condor: Uma década de terrorismo internacional no Cone Sul, do jornalista norte-americano John Dinges, essa foi provavelmente a última operação promovida pela Operação Condor. No papel até então inédito, é relatado como assunto “muito urgente” que os quatro cidadãos argentinos disseram ser integrantes da polícia federal argentina e pertencer ao serviço de inteligência.

“Se encontravam em Corumbá, vindos da Bolívia e tinham a intenção de continuar a viagem em direção a Europa”, diz o texto. Segundo o documento, os quatro ficaram com a polícia brasileira até às 12h do dia seguinte, 24 de junho.“Foi uma surpresa essa revelação feita pelo o filho de Noemí ao falar e mostrar esse documento, nunca revelado, descoberto recentemente que prova que o Brasil participou do processo do sequestro da argentina Noemí Molfino”, contou Cleonildo Cruz.

Gustavo Molfino já enviou a documentação para o governo brasileiro e aguarda um pronunciamento oficial sobre o caso.

O CASO

Apenas César Abel Pilar não está na lista dos militantes argentinos sequestrados no Peru, citados no livro de John Dinges, que pesquisou a temática. A publicação sustenta que logo após serem presos, eles foram torturados por três dias. Depois, entregues ao Exército argentino em terras bolivianas. A operação começou em 9 de junho de 1980, quando o coronel argentino Martín Martínez Garay reuniu um grupo de agentes do Exército no auditório do “Pentagonito”, pedindo a colaboração do serviço de inteligência peruano.

Em seguida, formou-se uma força tarefa entre as inteligências militares dos dois países, uma das características da Operação Condor.

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