TENSÃO

Ameaças a Jean Wyllys vão de estupro a decapitação, revela jornal

Segundo informações divulgadas, mensagens ameaçadoras e detalhadas eram destinadas ao parlamentar e a familiares dele

Fillipe Vilar
Fillipe Vilar
Publicado em 25/01/2019 às 17:09
Foto: Wilson Dias/ABr
Segundo informações divulgadas, mensagens ameaçadoras e detalhadas eram destinadas ao parlamentar e a familiares dele - FOTO: Foto: Wilson Dias/ABr
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De ameaças de bomba a esquartejamento de parentes, o deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ) recebeu diversas mensagens intimidadoras nos últimos dois anos. A informação foi divulgada pelo jornal O Globo na tarde desta sexta-feira (25). O periódico teve acesso ao conteúdo de dezenas de ameaças recebidas pelo parlamentar desde o ano de 2016. O volume de textos influenciou na decisão de Jean em abandonar o terceiro mandato como deputado, eleito com mais de 24 mil votos.

As mensagens vinham por meio do telefone ou do e-mail do gabinete do deputado, pelo e-mail pessoal dele, ou pelas redes sociais. A Polícia Federal (PF) abriu cinco investigações a partir dos textos. Desde março de 2018, Wyllys foi obrigado a andar com escolta policial. O parlamentar era acompanhado o tempo todo por três agentes e transportado com o suporte de dois carros blindados.

Assessores do deputado afirmaram que a campanha em 2018 foi feita somente por meio de redes sociais, evitando compromissos de rua. Após a decisão de Wyllys, na quinta-feira (24), por volta das 16h45 (15h45, horário do Recife), o gabinete do parlamentar recebeu um e-mail que dizia: “Nossa dívida está paga. Não vamos mais atrás de você e sua família, como prometido. Mesmo após quase dois anos, estamos aqui atrás de você e a polícia não pôde fazer para nos parar".

Ameaças

Apesar de ser ameaçado desde 2011, quando iniciou o primeiro mandato, Jean Wyllys recebeu em dezembro de 2016 uma mensagem que incluía seus familiares como alvo: "Você pode ser protegido, mas a sua família não. Já pensou em ver seus familiares estuprados e sem cabeça?"

O mesmo remetente enviou para Wyllys e seus irmãos, dias depois, um outro e-mail que mostrava os endereços de todos, placas dos carros e outras informações que confirmavam conhecimento sobre a família dele. Essa mensagem foi uma das que baseou investigação da PF.

O endereço do IP do dispositivo que enviou as mensagens era da Califórnia, nos Estados Unidos. A PF qualificou que os autores teriam um “alto nível de qualificação” com a descoberta.

Em janeiro de 2017, de outro remetente, Wyllys recebeu uma ameaça que demonstrava conhecimento sobre explosivos. "Eu vou espalhar 500 quilos de explosivo triperóxido de triacetona, explosivo tão perigoso e potente que é chamado de mãe de Satan pelos terroristas do Estado Islâmico. [...] Se vocês duvidam que tenho capacidade para fazer isto, apenas vejam como é fácil produzir o explosivo", dizia o texto.

Já em 15 de março de 2017, outro e-mail foi mandado ao parlamentar, contendo dados pessoais dele, placa do carro, endereço e nomes de familiares. “Vamos sequestrar a sua mãe, estuprá-la, e vamos desmembrá-la em vários pedaços que vamos te enviar pelo Correio pelos próximos meses. Matar você seria um presente, pois aliviaria a sua existência tão medíocre. Por isso vamos pegar sua mãe, aí você vai sofrer”, afirmava a mensagem.

Escritório esvaziado

Um dos assessores de Jean Wyllys contou ao O Globo que o escritório ocupado pela equipe do deputado, no bairro da Lapa, Rio de Janeiro, foi esvaziado após as ameaças mais sérias. “Saímos do local em dezembro. Era lá que o Jean trabalhava quando estava no Rio, para além das agendas públicas e também do descanso em casa. A ideia era trocarmos de endereço, mas o anúncio dele fez com que isso caísse por terra”, diz o assessor, uma das seis pessoas que trabalhavam diariamente no local.

Os funcionários combinavam os melhores horários para sair do prédio. Eles também ficavam atentos ao circuito de câmeras de segurança que vigiava o local. Um assessor acompanhava Wyllys em locais públicos, inclusive em programas de lazer. Ele também estava presente quando o deputado chegava em aeroportos, momento onde recebia muita hostilização.

No dia 20 de março de 2018, no ato ecumênico que marcava o sétimo dia do assassinato de Marielle Franco, o deputado recebeu uma ameaça. O autor da mensagem dizia que sabia onde ele estava e que devia tomar cuidado, pois Jean seria o próximo.

OEA

Em outubro de 2018, Wyllys enviou um pedido de medida cautelar à Comissão Interamericana de Direitos Humanos, da Organização dos Estados Americanos (OEA). Ele relatou as ameaças que sofria e a falta de medidas protetivas tomadas pelo Estado brasileiro.

“Wyllys, hoje, está sendo compelido a viver quase que sem sair de sua residência, limitando seus compromissos ao estritamente necessário no campo profissional. Não tem levado vida normal, saudável ou tranquila. Vive aos sobressaltos, por si mesmo e por sua família. Suas dificuldades são enormes e algumas intransponíveis, desde o ato simples de pedir uma pizza e ter que divulgar seu endereço até receber amigos em casa”, afirma o documento enviado.

A Comissão se manifestou a favor do deputado, mas nada teria sido feito, segundo os advogados que o representam.

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