ENTREVISTA

'Se tem algo democrático, são as fake news', diz especialista da FGV

'Fiz um levantamento a respeito de fake news, e as encontrei, cada uma com seu jeito, em todos os governos recentes', diz o professor Diogo Rais

Marcelo Aprigio
Marcelo Aprigio
Publicado em 08/04/2019 às 8:48
Foto: Divulgação/IPRADE
'Fiz um levantamento a respeito de fake news, e as encontrei, cada uma com seu jeito, em todos os governos recentes', diz o professor Diogo Rais - FOTO: Foto: Divulgação/IPRADE
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Toda a formação acadêmica do professor Diogo Rais Rodrigues Moreira é na área jurídica. É professor de direito eleitoral do Mackenzie e da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV). Entre outros títulos, tem mestrado e doutorado em direito constitucional pela PUC-SP e fez cursos de extensão na Université Paul Cézanne, na França. Mas Diogo Rais se diz um jornalista frustrado. Sem o formalismo comum ao mundo das leis, conversa bem humorado sobre aquilo que há três anos se transformou no seu principal objeto de estudo: a desinformação nas redes sociais e de que maneira ela pode interferir ou até ameaçar a democracia. A dedicação ao tema é reflexo de uma percepção de dez anos atrás, quando Diogo teve a certeza de que a internet iria mudar a forma de se fazer política e, com isso, mexer no jogo eleitoral. Ao se debruçar sobre o tema e seus desdobramentos, se tornou também num especialista em comunicação. Foi colunista da Folha de S.Paulo e do Valor Econômico.

Confira a entrevista:

JORNAL DO COMMERCIO – O uso das mídias sociais para a propagação de fake news é comum à direita e à equerda?

Diogo Rais - Sem dúvida. Não é partidário. Se tem algo democrático, são as fake news e o viés de confirmação, ou seja, a manipulação daquele fato que se apresenta.

JC – O governo Bolsonaro e seus apoiadores são vítimas da mídia tradicional, como eles argumentam?

Diogo - Parece-me que alguns veículos podem, de fato, buscar uma espécie de pauta permanente. Mas governo é pauta permanente de toda a imprensa. Ou seja, isso não quer dizer, de uma forma geral, que todos os veículos o perseguem. Esse discurso é típico para descredibilizar a imprensa. E isso é muito ruim porque ignora o fato de que a imprensa livre e de múltiplas fontes é essencial à democracia. E quando isso parte de um presidente da República, tem um poder avassalador porque dita uma regra.

JC – Usar as redes para falar direto à população vem sendo uma estratégia muito usada pelo políticos...

Diogo – Está sendo cada vez mais usadas em vários países do mundo onde tem governos mais populistas. Eles procuram se utilizar da internet para se conectar diretamente com a população. Donald Trump é o maior exemplo no mundo e o Bolsonaro é o maior exemplo aqui no Brasil.

JC – A oposição também usa do mesmo expediente em matéria de fake news?

Diogo – Fiz um levantamento a respeito de fake news, e as encontrei, cada uma com seu jeito, em todos os governos recentes: Fernando Henrique, Lula, Dilma, Temer e Bolsonaro. O que você pode ter é uma diferença de estratégia e de quantidade, mas a presença dela eu posso garantir que existe.

JC – Na reta final da campanha de 2018, foram muitas as mentiras de lado a lado?

Diogo – Sim. Posso citar dois exemplos que foram muito disseminados pelos dois principais grupos que disputavam o segundo turno: uma mamadeira que seria em formato de pênis, que foi apontada como um projeto do candidato Fernando Hadadd. E uma outra fake news dizia que não houve o atentando contra o candidato Bolsonaro, que tinha sido um teatro. Esta teria sido criada por aquelas pessoas que, de alguma maneira, não simpatizavam com ele, Bolsonaro. Isso mostra como as fake news não têm lado.

JC – O que as difere de governo para governo?

Diogo – A diferença vai ser se há o envolvimento, por exemplo, de dinheiro ou de outras pessoas...

JC – Quem ganha dinheiro com fake news?

Diogo – Tem alguém ganhando dinheiro. Fake news não é uma piada ou um conteúdo só de mau gosto. Ela está gerando dinheiro. Eu costumo associar fake news a poder. Porque, se informação, é poder, desinformação é muito mais. Ela te faz acreditar na mentira e desacreditar na verdade. Então, ela cria uma espécie de super fato que se sobrepõe ao restante. É muito mais fácil você, sem fazer nada, receber muito mais fake news do que notícias verdadeiras.

JC – Mas é algo orquestrado para prejudicar alguém? É uma pessoa física, uma organização?

Diogo – Não acredito que seja só uma empresa ou só um grande grupo. Há grupos pequenos, médios e já há grupos grandes. Alguns podem ser interligados, mas não todos. Não estamos falando de uma única rede, mesmo porque a produção disso, muitas vezes, se contra-ataca. Mas há uma produção intensa porque isso gera poder econômico, mercantil, social, político... Existe aquilo que é para seduzir e fomentar a chamada indústria do clique com notícias sensacionalistas. Eu já recebi na minha timeline várias vezes uma notícia sobre a morte do Renato Aragão. Aí você se pergunta, o que há por trás disso? É que cada clique aumenta o patrimônio daquela pessoa que criou. Ela ganha em ads, em publicidade. Basta ter um fluxo de pessoas que a publicidade é atraída. Ela não faz um filtro de seriedade. É o exemplo mais inicial das fake news.

JC – E se a gente aprofundar?

Diogo – Existem estratégias para conquistar mais do que cliques. Conquistar eleitores, pessoas para seu produto ou fazer pessoas rejeitarem o produto do outro. Há uma guerra à margem da ética. E aí, sim, há empresas que, em vez de fazer publicidade, investem em fazer este tipo de ataque seja a outra empresa, a uma pessoa e tudo mais. Há informações de que existem pessoas que oferecem pacotes ouro, prata, platinum para a compra de seguidores, e esses seguidores começam a falar bem de você; eventualmente, você poderia comprar “seguidores ciborgues”, uma mistura de robô com humano. São algoritmos que, por exemplo, fazem aniversário e recebem parabéns das pessoas. Há um mercado falso que pode mover reputações digitais.

JC – Há realmente uma ameaça à democracia?

Diogo – Quando a gente transporta tudo isso para as eleições, ameaça a democracia, sim.

JC – Como?

Diogo – As fake news não entram no seu cérebro e mudam sua forma de pensar. Sua forma pensar se mantém. O que muda são os dados de entrada. A gente poderia ter um primeiro modelo onde eu diria assim: “olha, vou mudar esses dados e provavelmente eles vão tomar essa atitude diante dessas informações”. Só que hoje, com o grande processamento de dados chamado big data, pode-se descobir muito mais sobre as pessoas, descobrir como elas pensam sobre determinado assunto. E aí, juntou-se dois elementos extremamente inflamáveis e perigosos: a microssegmentação com a possibilidade de produção de conteúdo falso. Assim, pode-se criar um produto com conteúdo falso direcionado especificamente para aquele microgrupo de pessoas. Pode-se criar 100 mil conteúdos falsos, cada um com uma cara. Dessa forma, leva-se as fake news para as “pessoas certas”.

JC – Certo. E em política?

Diogo – De repente, descobre-se que você jamais votaria em alguém que de alguma maneira desrespeita a sua religião, vamos supor. Então uma fake news na medida para você pode dizer que determinado candidato desrespeita sua religião. Você vai excluí-lo de sua lista para sempre. Você nunca mais vai checar porque mexeu com algo íntimo seu. Então é um conjunto muito perigoso.

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