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No WhatsApp, procuradores cobraram posicionamento de Dodge sobre STF

Em grupos dos quais a procuradora participa as mensagens tinham tom de indignação em relação aos rumos do inquérito do STF

Ana Tereza Moraes
Ana Tereza Moraes
Publicado em 17/04/2019 às 11:30
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Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
Em grupos dos quais a procuradora participa as mensagens tinham tom de indignação em relação aos rumos do inquérito do STF - FOTO: Foto: Wilson Dias/Agência Brasil
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Um dia antes da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, determinar o arquivamento do inquérito aberto pelo STF (Supremo Tribunal Federal) para apurar notícias falsas e ameaças à Corte, procuradores do MPF (Ministério Público Federal) teriam utilizado mensagens de WhatsApp para cobrar um posicionamento da procuradora, segundo o UOL.

De acordo com o portal, dois membros de alto escalão dentro da hierarquia do órgão afirmaram que as cobranças foram desencadeadas após a decisão de Alexandre de Moraes, que determinou a remoção de uma reportagem da Crusoé e O Antagonista referente ao presidente do STF, Dias Toffoli. Segundo a matéria, Toffoli seria citado por Marcelo Odebretch como "amigo do amigo do meu pai" em um e-mail investigado pela Operação Lava Jato.

A decisão gerou ainda mais polêmicas do que o inquérito já havia levantado desde a sua abertura, quando foi alvo de muitos questionamentos, inclusive jurídicos.

As mensagens trocadas entre procuradores nos grupos de WhatsApp tinham o tom de indignação e cobrança em relação aos rumos do inquérito. Segundo um dos procuradores ouvidos pelo UOL, Raquel Dodge faria parte de alguns desses grupos por onde circularam as mensagens. No entanto, não há relatos de que as cobranças tenham sido endereçadas diretamente a ela.

"Durante toda a segunda-feira (15), os grupos de WhatsApp que reúnem procuradores do Brasil todo ficaram cheios de mensagens cobrando uma posição dela", disse um procurador, enquanto o outro confirmou o tom das conversas. "A repercussão da censura cometida pelo ministro foi péssima. Era preciso que alguma medida fosse tomada e só quem poderia tomar essa atitude era a procuradora-geral", disse.

Argumentos

Para determinar o arquivamento do processo, a procuradora-geral da República justificou que, entre outras coisas, o STF não tinha a competência para seguir no caso, uma vez que caberia ao MP (Ministério Público) e não à Corte o papel de investigar e conduzir uma ação penal. No entendimento de Raquel Dodge, o órgão a julgar o caso não pode ser o mesmo que investiga e denuncia.

Reação a manifestação de Dodge

Para os dois procuradores ouvidos pela reportagem, a manifestação de Dodge contra o inquérito era necessária e foi feita no tempo certo. Segundo ambos, alguns procuradores concordaram que ela foi diplomática ao esperar que o STF enviasse os autos para o Ministério Público. "Você não pode ficar confrontando o tribunal em que você trabalha o tempo todo. Ela deu o tempo para o STF se manifestar, mas isso não aconteceu. Um mês depois, ela não tinha outra opção", afirmou uma das fontes.

Outros membros do órgão, no entanto, teriam considerado que Raquel Dodge demorou demais a se pronunciar diante da polêmica investigação aberta pela Corte e adotou uma medida que, em vez amainar os ânimos e resolver a crise com o STF, teve o efeito inverso.

Posicionamento da PGR

Procurada, a assessoria de comunicação da PGR disse não poder se pronunciar sobre eventuais mensagens em grupos privados, em aplicativos como o WhatsApp, compostos por procuradores, e disse que Dodgee não atuou como resposta às supostas cobranças feitas por colegas. Segundo o órgão, a determinação para o arquivamento do inquérito se deu por critérios técnicos expressados no documento encaminhado ao Supremo.

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