PERSONAGEM

Dona Elzita: uma história marcada pela dor da ditadura

Três dos dez rebentos de Dona Elzita ? Rosalina, Marcelo e Fernando ? sofreram com a repressão. Em todos os casos, o amor materno a guiou em busca de justiça

Beatriz Albuquerque
Beatriz Albuquerque
Publicado em 13/10/2013 às 6:16
Hélia Scheppa/JC Imagem
Três dos dez rebentos de Dona Elzita ? Rosalina, Marcelo e Fernando ? sofreram com a repressão. Em todos os casos, o amor materno a guiou em busca de justiça - FOTO: Hélia Scheppa/JC Imagem
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Dona Elzita foi criada no engenho Jericó, em Água Preta, Mata Sul de Pernambuco. “Era um engenho muito grande e bonito”, disse Elzita, relembrando a infância. A família, apesar de ter pertencido à elite açucareira, não tinha envolvimento com a política. Durante a crise do açúcar, João Santos, seu pai, precisou retirar parte dos filhos da escola. A escolha foi rápida: afastou as mulheres, que, na visão dele, não precisavam estudar, pois deveriam ser esposas e donas de casa. Segundo Marcelo Santa Cruz, que hoje é vereador de Olinda e filho de Dona Elzita, sua mãe ficou revoltada porque sempre gostou de ler. Ela acatou a decisão do pai, mas jovem conheceu Alfredo, filho do governador Estácio Coimbra de Sá.

A família não permitiu o namoro porque Alfredo tinha tuberculose. Entretanto, Elzita saiu de casa e casou com Alfredo, que faleceu seis meses depois. “Quando papai era estudante de medicina alguém disse: ‘vamos visitar um amigo que está doente’ e ele foi. Chegando lá, ficou encantado com a beleza de mamãe, mas só oito anos depois a reencontrou”, relatou Marcelo.

Aos 26 anos, Elzita casou com Lincoln Santa Cruz, com quem teve 10 filhos. Lincoln era tenente-médico do Exército durante a guerra e foi morar no Rio de Janeiro para estudar saúde pública. Dona Elzita saiu de Pernambuco e acompanhou o marido, deixando os filhos com parentes. Em 1948, decidiu fazer seu título de eleitor. O País vivia uma campanha anti-comunista e a igreja tinha autoridade para emitir o documento. Quando ela solicitou o título ao padre, este fez a ressalva de que ela não deveria votar em comunistas. Elzita não contestou, mas ao pegar o título votou em Luís Carlos Prestes, um dos líderes do PCB. 

Após um ano e meio voltou para Pernambuco e foi morar em Olinda. Residiu primeiro na rua Siqueira Campos, mas passou a maior parte da vida morando em Bairro Novo. “Era uma casa muito visitada, inclusive, antes de haver maior envolvimento nosso com as questões políticas. As pessoas que estavam sendo perseguidas se escondiam lá. Chico Assis, por exemplo. Nossa educação foi com muita liberdade, conversávamos sobre política e não éramos reprimidos, apesar de todos os riscos da época”, rememorou Marcelo.

PRIMEIRO "GOLPE"
Rosalina foi a sua primeira filha a ser presa. Ela ficou desaparecida por 45 dias e foi encontrada pela mãe no I Exército, no Rio. Elzita saiu só em busca de sua filha. Até que um dia ligaram do DOI-Codi avisando que se ela quisesse ver Rosalina deveria descer do prédio onde estava hospedada, às 6h, sem contar aos familiares. Corajosamente, Elzita aceitou a condição e entrou no carro do DOI-Codi. 

O coronel Braga, responsável pela prisão, pressionou Dona Elzita. Queria que ela pedisse a sua filha para contribuir com os militares, denunciando onde estariam os companheiros. “Você está querendo que minha filha entregue os colegas de partido dela? Não criei filho para ser dedo duro”, teria respondido.

EXÍLIO DE MARCELO
O exílio de Marcelo Santa Cruz também amargou a vida de Dona Elzita. Ele foi enquadrado no decreto 447, da ditadura militar, e expulso da faculdade. Morou na Europa e retornou um ano e meio depois ao Brasil. Ele residiu no Rio por dez anos e só pôde voltar a Olinda com a anistia política. “Papai achava que tinha errado na nossa educação. ‘É tudo subversivo. Um cassado, outra presa torturada e o outro desaparecido’, dizia. Mamãe discordava, dizendo que tinha nos educado para termos opinião”, lembrou.

A PERDA
A maior dor da vida de Dona Elzita foi a perda do filho Fernando, ao qual nunca teve o direito de sepultar. Ele participava do movimento estudantil, seguindo uma orientação da Ação Popular Marxista-Leninista. Ele precisou sair do Recife, após ser preso em frente da Assembleia Legislativa, e foi morar no Rio. No Carnaval de 1974, Fernando foi preso e, possivelmente, torturado até a morte pelos agentes do DOI-Codi. 

Inconformada com o desaparecimento do filho, Dona Elzita dedicou a sua vida à elucidação dos crimes cometidos pelo DOI-Codi durante a ditadura militar, representando a luta das famílias dos mais de 140 desaparecidos políticos. Em 1981, participou da fundação do PT, partido que é filiada até hoje, e do Movimento pela Anistia em Pernambuco. Ganhou notabilidade ao receber o Prêmio Nacional de Direitos Humanos, em 2010, concedido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. Nos últimos meses está calada. No balanço da sua cadeira, não lembra mais de tudo o que lhe aconteceu. Porém, o olhar sereno e acolhedor revela uma mãe que, apesar de todo o sofrimento, transborda amor.

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