Política social

Miséria deve voltar a crescer na crise e trazer adoecimento

Previsão é do médico Lurildo Saraiva, que escreveu livro retratando a pobreza dos portadores de febre reumática

Editoria de Política
Cadastrado por
Editoria de Política
Publicado em 09/07/2017 às 9:32
Filipe Jordão/JC Imagem
Previsão é do médico Lurildo Saraiva, que escreveu livro retratando a pobreza dos portadores de febre reumática - FOTO: Filipe Jordão/JC Imagem
Leitura:

A crise econômica e política na qual está mergulhado o Brasil deve realimentar a miséria e com ela fazer crescer doenças ainda não controladas, associadas à pobreza. Assim pensa um dos mais experientes professores de medicina de Pernambuco, com formação em cardiologia e saúde pública. Ex-membro da Juventude Universitária Católica (JUC) e anistiado político, Lurildo Saraiva Ribeiro, docente titular da Universidade Federal de Pernambuco, lança nesta quinta-feira (13/07), às 19h, na Igreja das Fronteiras, no Recife, o livro Miséria, pobreza e febre reumática. Vai além dos achados médicos, faz uma crítica social a partir da história de seus doentes.

“As doenças refletem o ambiente de onde vem a pessoa”, diz, repetindo o polonês Rudolf Virchow, que destacou-se por estudos na patologia clínica e chegou a fazer carreira política, na Alemanha, ao indignar-se com a causa social do adoecimento. Para Lurildo Saraiva, o momento político confuso, acompanhado de recessão, tende a gerar desemprego em massa, diminuindo a renda das famílias e comprometendo as ações básicas de saúde, abrindo espaço às doenças. “Uma grande revista australiana publicou recentemente editorial referindo-se à febre reumática como fruto da injustiça social. É isso que vemos no Brasil”.
Embora seja um crítico também dos governos petistas, ele reconhece que na era Lula a miséria caiu no País e que com a penetração do Programa Saúde da Família nos bairros populares e zonas rurais, houve impacto positivo. “Com certeza, com o acesso a médico e remédio facilitado, as crianças foram melhor tratadas de amigdalite e bronquite, que levam à febre reumática”. Mas a quantidade de adultos com complicação não mudou, indicando que mesmo em momento menos crítico socialmente, houve subnotificação. O quadro agora já é mais complexo, com os cortes no orçamento do Ministério da Saúde.
A febre reumática é uma doença negligenciada, talvez até mais que a tuberculose e a hanseníase, que contam com campanhas. Causada pela bactéria estreptococo, instala-se a partir de uma infecção na garganta não tratada. Pode se manifestar com dores articulares ou, ao longo do tempo, comprometer o coração ao ponto de fazer o doente precisar de implantes de válvulas, ou gerar problemas neurológicos, levando à morte. O paciente precisa tomar às vezes para o resto da vida injeções de penicilina mensalmente, nem sempre disponível na rede pública e farmácias particulares.
No livro, Lurildo conta histórias como a de um garoto de seis anos, C., vítima da tal febre, que, a partir dos 4 anos, teve frequentes infecções na garganta. “Foi criado pela madrinha de batismo, senhora muito pobre. A mãe fugiu para a Paraíba com outro parceiro. O pai passou a viver com outra mulher e C. ficou só, abandonado, a brincar constantemente num chiqueiro de porco”. A desestruturação familiar agravada pela condição social pode mais uma vez ser reeditada em maior escala, conforme o professor.

Na ditadura militar publicações não podiam associar doença à pobreza

“Desde os tempos em que comecei a estudar medicina e, mesmo na pós-graduação, em São Paulo, não costumava-se dar ênfase à pobreza como raiz da febre reumática e de outras doenças. Quando cheguei ao Recife, na década de 1970, meados da ditadura militar, me surpreendi com casos que pensava não mais existir. Sempre surgiam 15 a 20 doentes por ano no Hospital Barão de Lucena. Sempre pessoas muito pobres”, relata. Naquele tempo, a ditadura militar não permitiria que médicos denunciassem em livro a consequência da desigualdade e da pobreza extrema. “Os militares não aceitariam. Para eles, os pobres eram invenção dos esquerdistas, e qualquer denúncia nesse sentido simbolizaria a luta de classes que queriam esconder”. Para Lurildo Saraiva, mesmo superando essa fase, vive-se hoje a pseudodemocracia, com a classe dominante sempre definindo quem fica no poder.

Últimas notícias