PERFIL

Amélia Rainha: conheça a história de luta da travesti Maria Clara

Ser uma dama (glamourosa) do lar e responder obediente ao marido: o ideal de mulher desejado pela travesti Maria Clara arrepia o feminismo

Do JC Online
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Publicado em 08/03/2015 às 7:04
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Ser uma dama (glamourosa) do lar e responder obediente ao marido: o ideal de mulher desejado pela travesti Maria Clara arrepia o feminismo - FOTO: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Fabiana Moraes

fmoraes@jc.com.br

 

Maria Clara tem mais de 1.90m, quadrilzão, cabelão, bocão. Usa umas argolas grandonas, a calça justa, a camiseta idem. Musculosa, ela parece uma heroína superlativa dos gibis da Marvel.

Maria Clara tem 36 anos e uma de suas ideias de felicidade é viver em um lar no qual um homem, seu marido, seja aquele que manda enquanto ela, feliz, cumpre o que ele quer. Uma casa que ela não precise necessariamente comandar – detesta arrumar e cozinhar -, mas na qual possa deslizar usando saltos, maquiada, bem-vestida e perfumada, enquanto agrada ao homem amado. “Eu busco a Amélia.”

Maria Clara tem um pênis e é a síntese daquela mulher que o feminismo vem lutando há mais de um século para desmontar, a mulher sempre à deriva dos humores e do afeto de uma figura masculina.

“Quando dizem que estou bonita, vão no meu íntimo.”

Lembra bem: não precisou exatamente performar os modos vistos nas meninas, não fez esforço para adquirir a suavidade dos jeitos. Começou a realizá-los quase sem querer. Estava na sala, no chão, cercada pelos irmãos e irmãs (eram seis crianças, no total). Comiam amendoim e, enquanto todos iam jogando as cascas no piso, ela juntou tudo. Quando levantou, preparada para catar os restos, fechou um pouco as pernas e colocou as mãos nos joelhos. O pai viu e irritou-se: achou que o ainda filho tinha alguma doença mental. A mãe, Maria Francisca, concordou. A partir daí, para não ampliar seu sofrimento, Maria Clara tratou de misturar-se a outros meninos, ia para a rua jogar bola. “Eu não era feliz, mas precisava ficar no meio deles para não apanhar.”

Aos 18, conseguiu emprego em uma grande loja de decoração e flores, um lugar que, exemplarmente, emprega pessoas trans (que enfrentam enormes dificuldades de inserção no mercado profissional). Ali, vendo colegas nascidas homens mas ostentando peitos e quadris, foi observando a pedagogia própria das travestis. Usava então cabelo mais longo e vestia uma peça feminina e outra masculina. Uma blusa “ela” e uma calça “ele”. Maria era pura transição. “Eu era uma gay pintosa.”

Cerca de dois anos depois, foi para João Pessoa. Lá, não conseguiu continuar trabalhando com decoração, a necessidade do dinheiro falou alto e ela terminou nas ruas. A experiência, que pode ser percebida como negativa de saída, também trouxe um certo empoderamento para Maria: quando o primeiro cliente a abordou, ela calculou que suas formas eram atraentes. Nunca esqueceu: “Ele me tratou no feminino, me tratou como mulher. Elevou a minha auto-estima. Era tudo o que eu queria, alguém que não me visse pelo meu biotipo, minha genética, mas pela minha sensibilidade. Eu não tenho nem palavras para explicar.” Outros clientes vieram e enquanto isso ela foi mudando cada vez mais. Adotou o silicone, o megahair, os saltos. Quando voltou para casa e reencontrou a mãe, houve uma rápida surpresa (“Precisava disso?”), mas logo o entendimento. Hoje, Francisca chama a filha de Clarinha. Talvez seja a única pessoa no mundo que usa um diminutivo para se referir àquela enorme mulher.

Um dia, apareceu um amor. O tal homem que ia fazer valer todo o investimento econômico e emocional pelos quais Maria passou (e passa). Ele não estava muito bem, havia se envolvido com drogas, debilitado. Ela cuidou. Na sua mulher, também tem mãe. Moraram juntos 3 anos e, durante esse tempo, muitos desentendimentos aconteceram. Os amigos dela não entendiam como aquela moça tão poderosa podia se relacionar com um rapaz tão ciumento. “Quando ele dizia que eu não podia sair, eu ficava com raiva. Mas, no fundo, adorava.” A posse demonstrada pelo companheiro, um dos escoadouros da violência doméstica que vitimiza milhares de mulheres no Brasil e no mundo todos os anos, é aqui valorizada. Provavelmente, como acontece entre tantas mulheres biológicas, é interpretada como puro amor. “Eu sei que eu reproduzo a sociedade”, reflete.

Essa reprodução de um modelo padrão de feminino, tão alta entre travestis e transexuais, está impressa também em seu corpo: apesar das formas hiperbólicas, ela ainda não está satisfeita por completo com o seu. Quer secar mais ainda a barriga, quer “suavizar” os traços do rosto (inclusive afinar o nariz), tudo em nome de uma aparência que ela considera mais feminina. Ou seja: os regimes, cirurgias plásticas e outras práticas de afinar o corpo feminino biológico também ganha enorme espaço entre mulheres trans. Mas o que pode ser muito difícil para muita gente entender, ao mesmo tempo em que mostra o tanto de camadas que levamos em nossa alma – as tantas camadas do nosso desejo – é que Maria não tem qualquer problema com seu órgão sexual. Pelo contrário. “Nunca pensei em ser uma mulher readequada. Eu adoro meu pênis. Os homens se sentem atraídos por ele.”

EMPODERADA - Atualmente, apesar do desejo de caminhar glamourosamente pelos corredores de um bem montado lar, Maria precisa se dividir em várias atividades: é perita do Mecanismo Estadual de Prevenção e Combate à Tortura (que realiza visitas periódicas a pessoas privadas de liberdade, como asilos, abrigos, prisões, clínicas de desintoxicação, entre outros) e faz parte do Grupo de Trabalhos de Prevenção Posithivo (GTP+), ONG que atua na prevenção do HIV. Lá, ela participa do Mercadores de Ilusões, voltado a compartilhar, nos locais de trabalho de travestis e profissionais do sexo, informações sobre doenças sexualmente transmissíveis e HIV/Aids. A aproximação com o grupo, diz Maria, foi fundamental para a construção de sua identidade. “Há por exemplo quem se incomode de ser chamada de travesti. Preferem mulher trans. Eu não tenho problema com isso. Eu sou travesti e sou mulher.” Também está cursando faculdade de Serviço Social, prática que vai somar-se à experiência adquirida no seu dia a dia profissional.

Apesar do discurso de teor anacrônico sobre o que considera um ideal feminino, Maria Clara vai se empoderando para exercer um trabalho que a mostra em lentes diferentes, que pode sustentá-la, torná-la ainda mais autônoma. Em vez de aprender a cozinhar e passar roupa, como a mulher perfeita idealizada por ela poderia ser, vai adquirindo conhecimento sobre a política presente nas questões LGBT. “Se eu realmente for uma Amélia, serei uma Amélia rainha.”

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