História

Projeto resgata acervo da Santa Casa de Misericórdia do Recife

Trabalho é desenvolvido de forma conjunta entre a entidade secular e a Universidade Católica de Pernambuco

Cleide Alves
Cleide Alves
Publicado em 19/04/2015 às 8:08
Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
Trabalho é desenvolvido de forma conjunta entre a entidade secular e a Universidade Católica de Pernambuco - FOTO: Foto: Bobby Fabisak/JC Imagem
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Quando chegou ao Recife, em 2013, o historiador gaúcho Tiago da Silva César começou uma busca pelos arquivos da Santa Casa de Misericórdia. Pergunta daqui, pergunta dali, acabou encontrando a papelada na sede da entidade, em Santo Amaro, área central da cidade. “É uma das coleções documentais mais completas do Brasil sobre instituições assistenciais, educativas e hospitalares”, afirma Tiago.

O registro mais antigo é de 1767, sobre as propriedades da extinta Santa Casa de Misericórdia de Olinda. Porém, o acervo mais consistente, na avaliação do pesquisador, remonta ao século 19: fichas de pacientes atendidos nos hospitais administrados pela instituição, livros de entrada e saída dos enfermos e certidões de morte.

Nos atestados de óbito há informações sobre a cor do paciente, estado civil, filiação, profissão, naturalidade, endereço residencial e por quanto tempo a pessoa esteve doente. Antônio dos Santos, jornaleiro de 18 anos de idade, por exemplo, morreu de epitelioma espinocelular (tumor maligno de pele) em 25 de dezembro de 1934. O rapaz, de cor branca e morador de Glória de Goitá, na Zona da Mata, passou dois anos hospitalizado.

Agricultor em Catende, também na Zona da Mata, José Manoel de Lima era pardo e tinha 19 anos quando morreu de verminose e nefrite, em 27 de dezembro de 1934, no Asilo de Mendicidade, uma enfermaria criada pela Santa Casa para acolher os mendigos. “Os documentos contam a história da medicina e das enfermidades, as coleções estão completas, ano a ano”, diz Tiago César, professor do Centro de Teologia e Ciências Humanas da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

O acervo permite outras vertentes de pesquisa, como acompanhar os passos de africanos pobres atendidos pela entidade ou que desempenhavam funções na Santa Casa, adianta o historiador. É possível saber, também, quem eram as pessoas que doavam bens à instituição. “Todas as doações, contas e despesas eram anotadas, é um acervo riquíssimo.” Mais de 50% da papelada é composta de manuscritos, das diferentes áreas e departamentos da entidade.

Toda essa riqueza histórica estava guardada em condições precárias. Na tentativa de descobrir o destino do material, Tiago lançou um desafio a seus alunos da disciplina paleografia e pesquisa histórica, em 2013. Eles teriam de se dividir em grupos e visitar os arquivos da cidade. Quem encontrasse o acervo ganharia pontos na nota.

Com uma mãozinha da irmã, que à época trabalhava no Hospital de Santo Amaro, da Santa Casa, a estudante Valeska Ferreira achou o tesouro e venceu o desafio. Ela se deparou com os papéis jogados pelo chão, em salas, sem nenhum tipo de ordenamento.

Em 2014, a entidade assinou convênio com a Unicap e desde então Tiago César coordena o projeto Resgate do acervo documental da Santa Casa de Misericórdia do Recife, com as estudantes Valeska Ferreira e Adriana Firmino. O trabalho prevê limpeza, higienização e classificação, antes de abrir o arquivo histórico ao público, possivelmente no fim de 2016.

“Por enquanto, estamos salvando os documentos da situação de risco, numa ação emergencial, não temos nem como saber a quantidade ainda”, declara o professor. Em sacos plásticos, o acervo foi transferido para o Convento Santa Tereza (Olinda), vinculado à Santa Casa, onde passa por limpeza e é acondicionado da forma correta.

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