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Você sabe aonde vai parar a embalagem descartável do seu fast food?

Com o isolamento social cresceu o consumo de alimentos prontos como quentinhas e fast-foods entregues por delivery. A consequência é que mais embalagens descartáveis vão para o lixo e podem ser um risco para o meio ambiente

Edilson Vieira
Edilson Vieira
Publicado em 22/08/2020 às 13:00
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BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
ENTREGAS Cooperativa de reciclagem no Arruda tem recebido mais material plástico durante a pandemia - FOTO: BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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A facilidade em pedir uma refeição rápida pelos aplicativos de entrega tem resolvido o problema de muita gente que não tem tempo, ou paciência, para cozinhar em casa. Mas as embalagens utilizadas no acondicionamento desses alimentos podem estar gerando um problema para as cidades. Segundo a Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) a quantidade de resíduos recicláveis coletados por serviços de limpeza urbana aumentou 28% em maio de 2020, em todo o País, em relação ao mesmo período de 2019. Ao mesmo tempo, houve queda de 9% na coleta de resíduos sólidos urbanos.

No Recife, a Empresa Municipal de Limpeza Urbana (Emlurb), informou que durante a pandemia, houve uma pequena redução na quantidade de lixo coletada nos meses de maio e junho, e aumento em março, abril e julho. No mês passado, foram coletadas na capital 45.825 toneladas de lixo domiciliar (que também envolve comércio e escritórios). Foram 1.400 toneladas a mais do que em julho do ano passado. Bruno Cabral, diretor de Limpeza Urbana da Emlurb, disse que a interrupção das atividades econômicas durante a quarentena contribuiu para a produção menor de resíduos em alguns meses. “Mas, enquanto a coleta no Centro da cidade diminuiu, nos bairros aumentou”, explicou Cabral.

Segundo o diretor de limpeza urbana, cerca de 3% do lixo coletado em Recife é reciclado. “Outra parte, bem maior, que também poderia ser reciclada, não é contabilizada porque é misturada pela população ao lixo comum”, diz Bruno Cabral. Recife tem 54 pontos de coleta exclusiva para lixo reciclável e nove caminhões de coleta que circulam nos bairros para apanhar o lixo já separado pelos moradores. Recife tem cerca de 10 cooperativas de reciclagem associadas a prefeitura. Elas recebem o lixo coletado pelos garis e fazem a seleção dos objetos de acordo com o material (plástico, vidro, papel e papelão, e metais) para venda. Karina da Silva, cooperada da Associação Palha de Arroz, no Bairro do Arruda, Zona Norte da Capital, confirma que têm recebido nos últimos meses mais embalagens de alimentos junto com o material que é enviado pela prefeitura.

REJEITO

O que poderia se traduzir em mais renda para a associação, na prática, representa apenas mais trabalho. “Não aproveitamos canudos plásticos e nem embalagens de isopor porque não tem como reciclar”, explica Karina. Ela conta ainda que, antes da pandemia, havia uma empresa que comprava os pratos de plástico mas, depois da quarentena, não houve mais pedidos. “Sem falar que os pratos e embalagens plásticas que chegam pra gente vem sempre sujos, então vão direto pro rejeito”, diz Karina se referindo aos produtos não aproveitados e que vão parar nos aterros sanitários.

Para Eduardo Elvino, diretor de controle de fontes poluidoras da Agência Estadual do Meio Ambiente, os resíduos sólidos urbanos, incluindo os produtos descartáveis, ainda são um problema para Pernambuco. Mesmo com um avanço no número de aterros sanitários no Estado, em substituição aos antigos lixões. “Nós saímos de 11 aterros sanitários em 2015 para 19 aterros em 2020. Mas ainda temos 74 municípios descartando seus resíduos de forma inadequada, em lixões. O que nos dá um alento é que a maior parte dos resíduos sólidos são produzidos na Região Metropolitana do Recife e nas grandes cidades do interior, locais onde 75% do lixo coletado é enviado para os aterros”. 

Elvino pondera que, apesar da lei federal de resíduos sólidos, de 2010, dizer que os municípios devem montar uma estrutura mínima de coleta seletiva, nem sempre isso acontece. Assim, o lixo que vai para o aterro sanitário não é necessariamente selecionado. “Ainda temos um grande percentual de material descartável sendo aterrado, que é o maior problema”, afirmou.

BIODEGRADÁVEL

A Associação Brasileira da Indústria do Plástico (Abiplast), informou que a produção de embalagens plásticas cresceu 12% em junho deste ano, em relação ao mesmo mês de 2019, mas não revelou quanto desse total foi reciclado ou produzido com material biodegradável. Há 20 anos o Brasil conta com uma tecnologia que torna o plástico utilizado em embalagens em biodegradável, através da adição de um composto químico no momento da fabricação. Isso faz com que o material plástico se decomponha em até três anos, se transformando em água, gás e biomassa.

Eduardo Van Roost, sócio administrador da RES Brasil, empresa pioneira nesta tecnologia no País, estima que no mundo, cerca de 2% do plástico produzido seja biodegradável. No Brasil esse percentual é menor que 1%. Para Van Roost, o aumento no custo de produção entre 5% e 10% deve explicar por que a tecnologia biodegradável ainda não deslanchou. “Um custo irrisório para o valor que tem proteger a natureza e a vida selvagem contra a poluição por plástico indevidamente largado pelas pessoas na natureza”, afirmou o empresário.

A Copobras, uma das maiores empresas nacionais de embalagens descartáveis para alimentos, com sede em Santa Catarina, informou através de nota que a demanda para embalagens para delivery de alimentos cresceu 30% durante a pandemia (de março a junho deste ano, em comparação ao mesmo período do ano passado) e considera que a “a população tem recorrido a estes itens descartáveis devido a segurança que o produto oferece contra contaminações”, diz a nota. A Copobras diz ainda que 100% de seus produtos são recicláveis. Já a linha produzida com plástico biodegradável representa menos que 1% das vendas totais.

CUIDADOS

O engenheiro ambiental Luís Cometti, diz que pelo próprio isolamento das pessoas em casa foi praticamente inevitável o aumento na produção de lixo, incluindo os descartáveis. Independente de pandemia, diz ele, tem como a população ajudar a reduzir o impacto que aquele lixo vai provocar no meio ambiente.
“Eu tento não usar nada descartável mas, quando acontece, tenho o cuidado de lavar as embalagens, copos e pratos para que sejam aproveitados pelos catadores. Separo esse material, e ainda vidro e metal, e deixo em casa, ou no porta malas do meu carro por pelo menos um mês. Tanto para juntar mais material como para afastar possível contaminação por coronavírus”, diz o engenheiro.

Depois de separado do lixo comum e lavado, Luís leva esse material para os postos de coleta seletiva da Prefeitura ou em supermercados que oferecem esse tipo de coleta. “Também entrego diretamente aos catadores na rua, quando encontro”, diz Cometti. Outras opções são optar por embalagens ou utensílios biodegradáveis e ainda reutilizar aquilo que não puder ser reciclado. “Por que não aproveitar o isopor para criar brinquedos pra crianças ou peças de artesanato?”. Cometti prega ainda que a reciclagem é apenas uma opção dessa cadeia. As outras são reduzir o consumo e reutilizar. “É preciso que o próprio consumidor faça um juízo de valor a respeito do que consome”, resume o engenheiro ambiental.

 

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Os catadores de material reciclável terão papel importante neste novo normal - FOTO:BOBBY FABISAK/JC IMAGEM
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Engenheiro ambiental Luís Cometti acredita que é possível cada um fazer a sua parte para reduzir o impacto ambiental das embalagens descartáveis - FOTO:Arquivo pessoal

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