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Com persistência e rede de solidariedade, fera passa em medicina na UFPE depois de ter saído da escola há duas décadas

Pedro Henrique Garcia, 36 anos, acredita que a persistência e a solidariedade foram fundamentais para que passasse em medicina, um dos cursos mais concorridos da UFPE

Margarida Azevedo
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Margarida Azevedo
Publicado em 18/04/2021 às 19:38 | Atualizado em 18/04/2021 às 22:46
ACERVO PESSOAL
META Pedro Henrique ouviu de muita gente que ele deveria parar de estudar para trabalhar. Mas não desistiu - FOTO: ACERVO PESSOAL
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Pedro Henrique Barreto Garcia, 36 anos, concluiu o ensino médio em 2000. Somente agora, 21 anos depois de sair da escola, ele viu seu nome entre os aprovados no curso de medicina da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), cujo resultado saiu na última sexta-feira (16), dia que os listões do Sistema de Seleção Unificada (Sisu) foram divulgados. Ele começou a tentar uma vaga no curso médico há oito anos, em 2013. Em duas décadas, formou-se em relações públicas, passou uma temporada na Espanha e peregrinou bastante pedindo bolsas de estudos nos melhores pré-vestibulares do Recife. Diz que sua conquista é resultado de muita persistência mas sobretudo de solidariedade: foi entre colegas de cursinhos, professores, amigos da igreja que frequenta e até de desconhecidos que encontrou apoio e motivação para continuar buscando uma vaga em medicina.

"A principal mensagem que fica para mim é a solidariedade que precisamos ter enquanto sociedade. Se eu cheguei até aqui, depois de oito anos tentando aprovação em medicina, passando por tantas dificuldades, foi porque existiu solidariedade. De alguém que dividiu o almoço comigo no cursinho porque tinha sobrado um pouco de comida, de professores que me deram bolas. Ou de um grupo de médicos da igreja que faço parte, em Boa Viagem, que pagou um ano de mensalidades em cursinhos para mim de todas as disciplinas. Ou tantos amigos que me encorajaram com apoio psicológico", ressalta Pedro Henrique.

Muitas vezes ele ouviu que deveria deixar o desejo de ser médico de lado para trabalhar. Não deu atenção e seguiu com os estudos. "Quando fiz vestibular tinha 16 anos e era muito imaturo. Naquela época não pensei em cursar medicina pois não tinha esse sonho e achava que só quem fosse muito inteligente ou tivesse condições de pegar cursos caros teria chance. Não era o meu caso", comenta Pedro. "Escutei demais pessoas sugerindo eu desistir e ir trabalhar. Nunca pensei em parar. Não sou tão corajoso, mas pensava que poderia seguir em frente. Tive que me adaptar a esse modelo de provas do Enem, que é muito extenso e precisa ser revisto".

Fernando Beltrão, Fernanda Pessoa, Carlos Valença e Marcelo Menezes estão entre tantos docentes que o ajudaram com bolsas e apoio. "Lembro que uma vez ia vender um violão para pagar umas despesas e Fernanda não deixou. Outra vez o professor Carlos Valença pegou umas contas minhas e pagou sem nem se preocupar com os valores. Virei monitor no curso de Fernandinho e no de Marcelo para ter uma ajuda financeira. Sem contar tantos outros professores", relata Pedro. 

O que mais o deixou feliz, desde a última sexta-feira, foi a quantidade de mensagens que recebeu de amigos dizendo que sua vitória era também deles. "Muita gente se envolveu e acompanhou minha trajetória nesse tempo todo. Alguns amigos estão na faculdade, outros já se tornaram médicos. A cada parabéns que recebi vinha uma mensagem dizendo que eles se sentiam também aprovados com minha aprovação, que era uma conquista deles", ressalta Pedro. "Em casa vivi essa história muito sozinho. Mas essa solidão foi amparada na rua, com tanta solidariedade."

 

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