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A história de Davi, jovem que tirou livros do lixo para estudar e foi aprovado no Sisu

Margarida Azevedo
Margarida Azevedo
Publicado em 18/04/2021 às 0:00
YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
PERSEVERANÇA Davi Brito, 20, estudou com livros encontrados no lixo. Foi aprovado para o curso de bacharelado em geografia na UFPE - FOTO: YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Davi Eduardo Ferreira de Brito, 20 anos, é uma exceção. Entre tantas. Viu amigos de infância entrarem para o mundo das drogas, mas não seguiu o mesmo caminho. Encontrou livros no lixo, os recolheu e aproveitou para estudar por eles. Sem internet em casa, ano passado, em plena pandemia de covid-19, ano passado, usava o sinal de internet da casa da avó para baixar videoaulas e assim se preparar para o Enem, depois de passar o dia trabalhando descarregando cargas de caminhões. Seu sonho é ser professor, carreira pouco escolhida pelos jovens no Brasil. Anteontem (16), bem cedo, acordou a mãe, o padrasto e os irmãos. Correu também na residência dos avós. Estava eufórico. Viu seu nome entre os aprovados, pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), no curso de geografia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Saiu contando para todos que iria fazer faculdade. O primeiro da família a ingressar no ensino superior.

"Sempre quis ser professor. Gosto muito de transmitir o que aprendo. Quero ensinar para encorajar outros jovens, principalmente da minha comunidade, para estudarem. Muitos não têm esperança de que com os estudos podem melhorar de vida. Encaram a escola como uma fuga da realidade, vão só para comer a merenda e passar o tempo. Mas a escola é mais que isso", diz Davi. "A sensação de ter sido aprovado é de dever cumprido, que valeu a pena. Pensei em desistir algumas vezes, principalmente porque tive que arrumar um emprego para ajudar minha família, mas continuei. Espero que depois de me formar eu possa dar melhores condições para eles", afirma o jovem.

Davi passou no bacharelado em geografia, sua segunda opção no Sisu. A primeira era justamente a licenciatura, também na UFPE. "Queria ter ficado na licenciatura, mas estou feliz também porque vou entrar na universidade. Depois tento mudar", destaca. Ex-aluno da escola pública, ele entrou pelas cotas. Cursou o ensino médio na Erem Professor Moacir de Albuquerque, que fica em Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife, entre 2016 e 2018. No segundo semestre do ano passado, tinha sido aprovado numa universidade particular do Recife para estudar com bolsa, mas não conseguiu efetivar a matrícula porque não atendeu todos os requisitos do benefício. Por isso, a alegria nesta sexta-feira é ainda maior: agora será aluno de uma universidade pública.

LIVROS

Por um tempo, entre 2017 e meados do ano passado, ajudou a mãe a separar material reciclável num espaço que tem na sua casa, no bairro de Afogados, Zona Oeste do Recife. Ela não trabalha fora porque precisa cuidar dos dois irmãos menores dele. O padrasto é motoboy. "Foi nessa época que achei muitos livros descartados no lixo. Alguns até desatualizados, mas que não deveriam ser jogados fora. Ficava bastante chateado pois livro é uma coisa importante e que ajuda a transformar as pessoas", comenta Davi. Para se preparar para o Enem, ele contou com ajuda do cursinho Carolina de Jesus, iniciativa de um grupo de jovens como ele que decidiu ajudar estudantes da periferia a realizar o sonho de entrar no ensino superior público. Criado em 2019, o Carolina de Jesus já atendeu mais de 200 vestibulandos como Davi.

Atualmente, Davi está trabalhando no setor de estoque de uma empresa de produtos de saúde. Um dos desafios será conciliar o trabalho com a universidade, quando começar a estudar. Outro vai ser acompanhar as atividades remotas, caso ainda perdure as restrições por causa da pandemia. Ele não tem computador e continua sem internet em casa. "Mas vou dar um jeito, como fiz quando estudei para o Enem", garante o rapaz.

SATISFAÇÃO

"É um orgulho imenso ver meu filho chegar onde chegou. Nunca pensei que isso pudesse acontecer, apesar de sempre incentivá-lo. Ele acordou hoje (sexta) a família toda dizendo que ia fazer faculdade. Estamos felizes demais. Estamos abestalhados, já chorei e tudo. Houve vezes que nem dinheiro para o lanche no cursinho ele tinha, ficava com vergonha. Ajudei como pude", afirma a mãe de Davi, Claudia Feijó de Brito, 39 anos. "Ainda bem que ele não desistiu. Se Deus quider, vai ter uma vida diferente de tantos outros rapazes que vemos aqui na comunidade, que escolheram o caminho errado".

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