Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho
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Por Fernando Castilho
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Greve dos caminhoneiros: Sem caminhão (de transportadora), o Brasil não para

A tabela de fretes tão comemorada pela categoria na verdade derrubou o número de cargas disponíveis para caminhoneiros autônomos em 23% entre 2017 e 2019

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 01/02/2021 às 11:05
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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
ANTT disse que segue empenhada em encontrar "uma solução que harmonize os interesses de produtores, transportadores e sociedade" - FOTO: Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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Para se entender um pouco porque essa greve dos caminhoneiros, anunciada mais pelas rede sociais do que pelo volume efetivo de articulações, é preciso entender duas coisas.

Primeiro, o movimento é de caminhoneiro autônomo. Segundo, a participação deles no mercado de transportes já não passa dos 20%, o que reduz drasticamente a força na economia de uma paralisação, ainda que fosse de toda categoria, o que não é caso.

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O que pouca gente lembra, ao comparar a greve de 2018 com essa que vem sendo anunciada desde novembro sem ser levada a sério, é que a primeira foi um movimento das empresas transportadoras que usaram os caminhoneiros como fachada para obter financiamento barato para renovar a frota e, portanto, reduzir custos de operação a partir do diesel.

Depois, que os benefícios fiscais que o setor recebeu, em 2018, não puderam ser capturados pelos autônomos que simplesmente não tinham capacidade para pagar as prestações, mesmo com juros menores, porque perderam fretes com a ampliação da frota própria das empresas.

A tabela de fretes tão comemorada pela categoria na verdade derrubou o número de cargas disponíveis para caminhoneiros autônomos em 23% entre 2017 e 2019, segundo pesquisa da plataforma de transporte de cargas FreteBras.

Tem mais: a grande lição da greve de 2018 foi a descoberta da cabotagem. O transporte de navios entre os portos brasileiros cresceu nos últimos dois anos. E teve a ampliação dos serviços de transporte ferroviário. Então, o que sobrou para o autônomo foi um mercado menor.

O crescimento foi de 17,5% no volume transportado por navios desde o fim da greve até fevereiro deste ano. O levantamento é do Ilos (Instituto de Logística e Supply Chain). No sentido Nordeste-Sudeste, a alta passa de 20%.

A greve também serviu para que as transportadoras comprassem caminhões novos. Apenas os negócios na categoria pesados e extrapesados acumularam alta de 48,4%, em 2019, sobre o ano anterior, com 51,6 mil veículos, um volume que representou 50,7% a mais sobre o ano de 2018.

Para completar, muita gente do setor agrícola - que ganhou dinheiro com as exportações - decidiu ter sua própria frota de caminhões pesados criando uma empresa segregada da atividade agrícola. O financiamento era de 100% e o juros é bem baixo.

Na verdade, as perspectivas do setor de caminhoneiro autônomos são bem ruins.

Primeiro, porque a frota envelheceu, porque o autônomo não pôde trocar o caminhão por um novo. Boa parte está comprando caminhão que transportadora - com financiamento barato através do BNDES Crédito Caminhoneiro que financia até 100% do investimento com taxa de 12,35% a.a. - está descartando.

Segundo, porque a frota mais velha gasta mais. O ministro Tarcísio Gomes de Freitas tem razão que o problema dos autônomos é que eles gastam mais diesel. Gastam mesmo. Porque o caminhão usa mais combustível.

Então, embora seja possível que haja paralisação em alguns estados, é preciso entender que, desta vez, as empresas transportadoras não deixaram seus caminhões parados para pressionar o governo. Elas não estão no movimento e até vão pressionar seus agregados para também não entrarem.

Por exemplo, Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), entidade que representa as empresas de transporte rodoviário de cargas, desta vez é “frontalmente contrária a toda e qualquer paralisação dos serviços de transporte, considerado essencial para a garantia do abastecimento no país”. A NTC&Logistica apoiou, frontalmente, a greve de 2018.

E tem uma coisas complicadas na pauta. Isenção de impostos nos derivados de petróleo, para derrubar as despesas com combustível, pneus e itens de manutenção; fiscalização nas estradas que garanta o cumprimento da lei que estabelece piso mínimo do frete; gratuidade nos pedágios, entre outros itens.

Não dá para conversar. Não tem como aplicar isso. Até porque se acontecer, só vai ampliar a vantagem das transportadoras, porque elas também terão direito.

Depois, tem uma leitura errada do pessoal das Centrais Sindicais ligadas aos partidos de esquerda que como se viu hoje, estão mais interessadas em mostrar que apoiam os caminhoneiros que ajudar a categoria. Basta ver as faixas que exibiram, mesmo em lugar onde não teve paralisação.

Existe um velho slogan da categoria que diz: Sem caminhão o Brasil para. Isso ainda é verdade, mas o sentido agora é outro. Sem caminhão (de transportadora) o Brasil para.

O caminhoneiro autônomo, que a gente lembra da série Carga Pesada com Antônio Fagundes no papel de Pedro e Stenio Garcia no papel de Bino, pilotando uma caminhão Scania, não existe mais.

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