Cenário econômico em Pernambuco, no Brasil e no Mundo, por Fernando Castilho

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Por Fernando Castilho
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Pesquisadores disputam corrida mundial pelas vacinas contra a covid-19

No Brasil, o Portal da Transparência informa que dos R$ 23,4 bilhões que o Orçamento de Guerra reservou para aquisição de imunizantes, apenas R$ 2,22 bilhões foram gastos

Fernando Castilho
Fernando Castilho
Publicado em 25/04/2021 às 11:00
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ALEXANDER NEMENOV/AFP
ANÁLISE Profissionais da Anvisa viajaram para inspeção das fábricas da Sputnik V. Vacina já foi aprovada por outras agências reguladoras - FOTO: ALEXANDER NEMENOV/AFP
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No país que caminha para o absurdo número de 15 milhões de infectados e da trágica marca de 400 mil mortes, agora em maio, a questão das vacinas se tornou central para os políticos que, esta semana, iniciam os trabalhos de uma Comissão Parlamentar de Inquérito onde um dos objetivos é encontrar as razões da não contratação de vacinas pelo governo federal.

Já se sabe que não foi por falta de oferta de possíveis fabricantes, nem de dinheiro. O Portal da Transparência informa que dos R$ 23,4 bilhões que o Orçamento de Guerra reservou para aquisição de imunizantes, apenas R$ 2,22 bilhões foram gastos.

Os motivos para tal inação foram ideológicos com argumentos nacionalistas. Ideológicos porque o presidente da República, Jair Bolsonaro proibiu, em agosto, que o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, fechasse a participação da União na compra de 100 milhões de vacinas da fabricante chinesa que produz a CoronaVac, num dos episódios mais constrangedores para um militar do Exército da ativa, personificado na frase: "Senhores, é simples assim. Um manda o outro obedece", pronunciada pelo general Eduardo Pazuello.

Nacionalista porque o governo não reconheceu o contrato-padrão da americana Pfizer, que não se responsabiliza por possíveis efeitos colaterais de sua vacina em países onde não tem centros de pesquisa ou instituições parceiras. O Brasil recusou a oferta de 70 milhões de doses dos imunizantes.

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Enquanto o Brasil decidia como não fazer, o mundo corria atrás de vacinas e no maior esforço científico fora de uma Guerra Mundial, iniciando a pesquisa, desenvolvimento e produção industrial de 250 vacinas que, em menos de um ano, já levaram à OMS 14 projetos, dois deles já acabados.

Para completar, países ricos e emergentes decidiram comprar o que fosse oferecido, mesmo sabendo que nem todas as apostas dariam certo a tempo. O Reino Unido, por exemplo, comprou de vários fabricantes e começou a usar a vacina da Pfizer, mesmo tendo a da AstraZeneca desenvolvida com a Universidade inglesa de Oxford.

Por trás dessa corrida existe uma disputa de mercado (7 bilhões de habitantes do planeta Terra) e geopolítica, pois os países que obtiverem sucesso abrem as portas de outros fármacos para as suas indústrias. Nesse cenário, o Brasil também está atrasado, já que suas pesquisas (Butanvac, do Butantan) não passaram da fase pré-clínica.

A questão das vacinas embute um problema de escala industrial e defesa de patentes. Tecnicamente, as 90 plantas ao redor do mundo poderiam já estar produzindo vacinas já em fase 3 e 4 se os desenvolvedores autorizassem. Até existe um movimento de nações (e da qual o Brasil não faz parte) desejando quebrar patentes, avançar na produção e antecipar a vacinação global. Mas essa é uma briga econômica que levará tempo.

Enquanto isso, a corrida para produzir vacinas continua. O Brasil, mesmo com a desastrosa gestão da compra dos imunizantes, usa as duas soluções de maior sucesso (CoronaVac e AstraZeneca), com as quais tem imunizado sua população. E tenta correr atrás de, ao menos, outras quatro vacinas. Inclusive, a esnobada Pfizer.

Mas é um desastre diante do acirramento dos casos. Em maio, já se sabe que o ritmo da vacina vai cair, porque nem a Fiocruz nem o Instituto Butantan entregarão doses suficientes para acelerar o processo.

É uma vexatória ironia. O país referência em campanhas de vacinação patina na mais importante, por não ter vacinas, e sofre com médias de 60 mil casos/dia de infectados e 3.000 mortes. E sem perspectivas de reduzir essa tendência antes de setembro.

Brasil ainda sem pesquisa listada

ANTONIO MOLINA/ESTADÃO CONTEÚDO
CIÊNCIA Governo de São Paulo apresenta o imunizante Butanvac, que foi desenvolvido pelo Instituto Butantan - ANTONIO MOLINA/ESTADÃO CONTEÚDO

Embora tenha feito grande alarde para anunciar que além de fabricar e distribuir a Coronavac no País, o Instituto Butantan estava trabalhando em uma vacina contra covid-19 “100% brasileira” (Butanvac), a pesquisa sobre esse imunizante foi desenvolvida pelo Icahn School of Medicine, da Universidade de Mount Sinai de Nova York, que a já trabalhava numa vacina com vírus da doença de Newcastle desde novembro.

De fato, o Icanh já tinha colocado sua pesquisa no painel da OMS depois que sua solução, em desenvolvimento desde o começo 2020, passou a ser listada no painel da OMS com estado na fase pré-clínica entre as 186 pesquisas em desenvolvimento.

Atualmente, a mesma pesquisa, em parceria com a Universidade de Mount Sinai, está registrada também pelo Instituto Butantan como pré-clínica em desenvolvimento “com vírus da doença de Newcastle (NDV) quimérico total à base de ovo, inativado, que expressa a proteína trimérica SARS-CoV-2 S estabilizada com pré-fusão ancorada na membrana (Hexapro) + CpG 1018”. Essa é a única referência do Brasil no painel da OMS disponível na internet.

O Butantan pediu o aval da Anvisa para os testes clínicos nas fases 1 e 2 de desenvolvimento, 1.800 voluntários devem tomar a Butanvac.Se tudo correr bem, o Butantan poderá iniciar a fase 3 de testes, com 9.000 voluntários para garantir a sua eficácia. Se a vacina for aprovada para uso emergencial, o governo de São Paulo pretende produzir 40 milhões de doses até o final do ano.

Russos exibem fábricas para Sputnik V

DIVULGAÇÃO
Pharmstandard Rússia Vacina Sputnik V - DIVULGAÇÃO

Uma das coisas que mais chama a atenção na disputa global para se chegar a um imunizante contra a covid-19 é a ação da Rússia pelo mercado de insumos fármacos processados no Brasil.

A Rússia que, através do Fundo de Investimento Direto Russo, financiou a Sputnik V, desenvolvida pelo Instituto Gamaleya de Moscou, vê sua vacina um veículo de afirmação geopolítica na América do Sul.

Ele vendeu a vacina para a Argentina, mas mira o Brasil. E o Governo Putin quer o aval da respeitada agência sanitária brasileira para a Sputnik V.

O presidente russo já se queixou de que nenhum dos 50 países que já aplicam a vacina russa fez tantas exigências como o Brasil. Mas ele estendeu o tapete vermelho para os técnicos da Anvisa que, esta semana, inspecionaram suas indústrias.

O ministério da Saúde russo recebeu os técnicos em Moscou e os levou para as cidades de Ufa e Vladimir. As plantas de Ufa são uma espécie de showroom do que a Rússia produz em fármacos em parceria com AstraZeneca, Janssen, Roche, Senofi, Abbot e Novartis.

As fábricas de Ufa pertencem a Pharmstandard, controlada pelo Grupo Generium, com sede em Moscou. O mesmo fundo é sócio do Grupo Alium Sistema, dono da Binnopham onde as vacinas também são fabricadas.

O objetivo da Rússia é impactar a Anvisa e conseguir a aprovação da Sputnik V que será feita pela União Química, cujas fábricas também já foram inspecionadas pela Anvisa. A estratégia é obter da Anvisa a aprovação. Mas o problema é que o Gamaleya não entregou os estudos da fase 3 da vacina, o que vem atrasando a análise final da Anvisa. Se conseguir, o futuro da vacina será muito promissor em termos de mercado global.

Chineses e americanos disputam o novo mercado 

CADU ROLIM / ESTADÃO CONTEÚDO
DOSES Brasil precisa de três vezes mais do que Ministério já garantiu - CADU ROLIM / ESTADÃO CONTEÚDO

O melhor espaço para ser observar a disputa de classe mundial sobre a pesquisa, desenvolvimento e produção industrial de vacinas para a covid-19 é o painel criado pela OMS que avalia quem está disputando e suas chances de sucesso.

Hoje, existem 14 vacinas nas fases 3 e 4. Apenas as duas que estão sendo aplicadas no Brasil (CoronaVac e AstraZeneca) estão prontas. E algumas das outras 12 já são aplicadas como Sputnik (Rússia), Janssen e Moderna (EUA) SinoFarm (China) e BharatBiontec (Índia). A OMS classifica de fase 3 como autorizadas para uso emergencial.

Mas existem, em pesquisa, 88 trabalhos já nas fases clínicas que vai de 1 a 4 e outras 188 (entre elas a Butanvac) que podem evoluir do laboratório para se tornar uma nova vacina. Ou seja, a pesquisa da covid-19 movimenta 272 equipes de cientistas ao redor do mundo.

Mas a briga econômica e financeira para os que vem atrás dessa lista é feroz. Pelo painel da OMS, os Estados Unidos estão com 18 vacinas em fase 3. A China com 15 sendo que uma delas já na fase 4 (Coronavac). A seguir, vem o Reino Unido com seis (A AstraZeneca na fase 4), a Índia com cinco e a Coreia do Sul também com cinco, todos com vacinas na fase 3.

Isso revela como os países com grande volume de pesquisa farmacêutica veem o negócio de vacinas no futuro. Parece claro que o coronavírus viabilizou um extraordinário pacote de vacinas a partir de novas tecnologias vacinais.

Dos tradicionais métodos de Vírus Inativado, subunidade de proteína e vírus atenuado ao vivo foram adicionadas novas linhas de pesquisa como RNA, DNA, Vetor viral (sem replicação) e até uma pesquisa de célula de apresentação de antígeno VVnr + que poucos cientistas sabem do que se trata.

Na verdade, esse é um mercado para os próximos anos. Como parece certo de que os 7 bilhões de habitantes do planeta, em algum momento, terão que tomar uma vacina, temos um novo mercado de pelo menos 12 bilhões de imunizantes nos próximos anos. E uma nova disputa entre China e Estados Unidos.

HÉLIA SCHEPPA/SEI
Estudo, divulgado em pré-publicação, mostrou que as inoculações com a vacina da Pfizer e da AstraZeneca foram tão eficazes em idosos quanto em pessoas jovens - HÉLIA SCHEPPA/SEI

 

 

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QUEIXA Dimas Covas cita 'preciosismo' da Anvisa para autorização de teste - FOTO:ANTONIO MOLINA/ESTADÃO CONTEÚDO
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DOSES Brasil precisa de três vezes mais do que Ministério já garantiu - FOTO:CADU ROLIM / ESTADÃO CONTEÚDO
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Estudo, divulgado em pré-publicação, mostrou que as inoculações com a vacina da Pfizer e da AstraZeneca foram tão eficazes em idosos quanto em pessoas jovens - FOTO:HÉLIA SCHEPPA/SEI

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