Conheça o fiel cuidador do BRT

Publicado em 22/04/2017 às 16:00 | Atualizado em 26/04/2017 às 12:52
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Fotos: Jedson Nobre/JC Imagem Fotos: Jedson Nobre/JC Imagem   A primeira vez que seu Aguinaldo – na verdade, Aguinaldo Francisco da Costa, policial militar aposentado, 56 anos – passou na estação de BRT que tempos depois adotaria como sua, ele se sentiu menos cidadão. Sentiu nojo. A vegetação alta e abandonada há muito tempo pelo poder público escondia um verdadeiro lixão. Até animais mortos eram abandonados no local. Aquilo doeu na alma dele. Doeu e indignou. Alguém tinha que fazer alguma coisa - pensou quando voltava para casa, no Alto da Nação, bairro do município de Olinda, na Região Metropolitana do Recife, um dos cinco cortados pelo Corredor de BRT Norte-Sul, batizado de Via Livre. Retornou à estação decidido: iria transformar aquele espaço para a população. Viraria o cuidador do BRT. Com uma estrovenga nas mãos, começou a capinar a vegetação e não parou mais.  
  Já se vão quase três anos desde então. Hoje, seu Aguinaldo contempla a transformação. Conseguiu, de fato, mudar a imagem da Estação Quartel do BRT Norte-Sul. No lugar da degradação e do abandono – que têm marcado boa parte do entorno das 26 estações de embarque e desembarque do corredor –, os passageiros ganharam um jardim florido, um reduto de cidadania no meio da ausência de urbanização. Quem passa no corredor, seja como passageiro, motorista ou pedestre, percebe a diferença. São flores, mudas de árvores, vegetação cortada, lixeiras e até mensagens de incentivo à vida e à cidadania, produzidas por outro morador do bairro.  
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  “Ninguém acredita como era esse lugar. O mato chegava a dois metros. Ainda me lembro. Fui para o Centro do Recife de carro e não consegui um lugar para estacionar. Fiquei irritado. Voltei e resolvi pegar o BRT, afinal, a estação fica em frente à rua que moro, na Vila Nação. Quase não consigo chegar à estação de tanto lixo e sujeira. Fiquei incomodado, mas fui embora. Quando voltei do Centro, estava indignado e resolvi fazer alguma coisa. Não dava mais para esperar pelo poder público. Comecei a limpar”, relembra. Seu Aguinaldo conta que, mesmo enquanto trabalhava pesado, duas vezes ao dia, sob sol, as pessoas continuavam a jogar lixo na área da estação. Lembrando que a área compreende 500 metros de extensão e cem de comprimento. “As pessoas estavam acostumadas a desprezar aquele espaço. É como se cuidassem apenas do que é bonito. Mas eu fui, devagarzinho, pedindo que não jogassem, que estava cuidando do lugar para que ficasse mais bonito, limpo e seguro”, conta.   jn1404201730   O agradecimento de um motorista do BRT, ao vê-lo capinando, ficou marcado na lembrança de seu Aguinaldo. “Ele parou o BRT e me agradeceu por eu estar ali, tirando aquele mato com mais de dois metros de altura. Disse que estava vendo a hora acontecer um atropelamento dos estudantes que atravessavam o trecho diariamente porque a vegetação estava tão alta que não deixava o pedestre ver o ônibus nem o contrário. E eu disse que cuidaria daquilo a partir daquele dia”, recorda. E cuidou. Lentamente, seu Aguinaldo foi limpando tudo, plantando uma flor aqui, uma muda ali, uma lixeira mais à frente, mais uma do outro lado. Agora, até três Baobás existem no jardim do cuidador. Uma praça também foi feita. Todos os dias, no início da manhã e no fim da tarde, ele está na área, capinando, recolhendo o lixo e regando as mudas na esperança de que virem frondosas árvores com sombra. “Faço uma faxina todos os dias. Capino uma determinada área, recolho o lixo que ainda jogam ou voa do corredor de ônibus, limpo as lixeiras, rego tudo. São seis litros de água que carrego num carrinho de mão todos os dias”, conta.   jn1404201719   Além da limpeza, lentamente seu Aguinaldo foi fazendo novas conquistas, como a iluminação próxima à estação, e o respeito dos passageiros e moradores da área. “Essa é a melhor estação do Corredor Norte-Sul. A gente chega aqui e já percebe a diferença. O trabalho de seu Aguinaldo faz a diferença. Antes, tínhamos medo de chegar à estação e, principalmente, de esperar o BRT nela. Havia muitos assaltos também. Agora, está muito melhor. Precisamos de mais pessoas como ele”, elogia o estudante Márcio José da Silva Júnior. Mesmo tendo conseguido promover tantas mudanças positivas, o cuidador do BRT tem planos para o futuro. “Quero ajuda para conseguir transformar essa área num espaço de lazer para as pessoas. Nosso bairro, assim como a maioria da periferia, é tão carente de áreas para atividades físicas e brincadeiras das crianças. Esse é meu sonho. Também estou tentando construir a Porteira para o Conhecimento, uma biblioteca aberta às pessoas que passam por aqui, usando a doação de livros e geladeiras para armazená-los”, planeja. Quem quiser ajudá-lo de qualquer forma pode entrar em contato pelos fones: (81) 99858.3444/99730.4614/99142.5782.

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