As estações-monstro do BRT pernambucano

Publicado em 26/05/2019 às 9:34
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Estações já foram símbolo da beleza, qualidade, conforto e eficiência do BRT pernambucano. Mas nada desse conceito existe mais. Viraram verdadeiros monstrinhos urbanos. Fotos: Bobby Fabisak/JC Imagem

 

Elas foram pensadas e construídas para simbolizar o conforto e a qualidade do Sistema BRT. Fechadas, espelhadas, refrigeradas e erguidas em vidros temperados, as estações de embarque e desembarque do BRT pernambucano, chamado Via Livre, encantaram quando inauguradas, em 2014. Imponentes, davam gosto de ver. De saber que aquilo tinha sido construído para a população que utiliza o transporte coletivo por ônibus na Região Metropolitana do Recife. As únicas estações de BRT refrigeradas do País e a segunda do mundo – além de Pernambuco, Dubai, nos Emirados Árabes, tem. Mas esse glamour se perdeu. Ficou no passado. A beleza, eficiência, caracterização e, principalmente, o conforto e a segurança se foram. As estações do Via Livre viraram estações-monstro. Quentes, feias, quebradas, descaracterizadas, perigosas e caras. Transformaram-se em mais um dos inúmeros e graves problemas do BRT pernambucano.

As estações custaram caro e ainda custam. Boa parte dos R$ 300 milhões gastos pelo governo de Pernambuco para construir os BRTs Norte-Sul (que liga o Centro do Recife a Igarassu, no Norte da RMR) e Leste-Oeste (faz a ligação do Centro da capital com Camaragibe, na Zona Oeste da RMR), a partir de 2011, foram usados na construção das 42 estações existentes nos dois corredores. Atualmente, são gastos R$ 31 mil por mês para manter a operação básica de cada unidade – limpeza, iluminação e refrigeração. Somente com manutenção e energia são R$ 4,5 mil/mês. Por ano, as unidades custam R$ 5,5 milhões. A manutenção delas, inclusive, representa 4% do custeio dos contratos do BRT em 2018, que foi de R$ 140 milhões. Um custo alto para um equipamento que passou a representar medo e desconforto para quem o utiliza – passageiros e funcionários.

CONFIRA O ESPECIAL BRT - E AGORA?

A convite do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação (SJCC), o engenheiro ambiental e de segurança do trabalho Diogo Soares fez a medição da temperatura de algumas estações de BRT do Norte-Sul e do Leste-Oeste, no horário da manhã, entre 8h e 12h, na segunda-feira (20/5). A constatação foi a pior possível. Todas as temperaturas (sensação térmica) se enquadraram na faixa desconfortável, a penúltima da lista, quando o chamado índice de temperatura efetiva fica entre 28,0°C (graus Celsius) e 34,9°C. E, mesmo assim, com o registro da temperatura do ar – que compõe a fórmula para alcançar a temperatura efetiva – registrando mais de 32,5°C.

 

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A mais quente das três visitadas foi a Estação Nossa Senhora do Carmo. A sensação térmica chegou a 29,5°C. Na Estação Derby o registro foi de 28°C. A Estação Riachuelo foi a que teve um quadro menos ruim: 27,8°C. “De fato, as temperaturas nas três estações foram muito altas, o que provoca uma sensação de desconforto nos passageiros que precisam esperar o transporte nessas estruturas. É possível, inclusive, que as pessoas passem mal. É preciso considerar que a temperatura considerada confortável seria entre 20°C e 23°C. Se os ar-condicionados estivessem funcionando de fato seria possível alcançar esse parâmetro e dar conforto aos usuários”, explica Diogo Soares. Mesmo quando não está quebrada, a refrigeração é insuficiente. É a realidade de quase todos os 42 equipamentos de embarque e desembarque do BRT. A escuridão, degradação e descaracterização do projeto original do BRT são outros problemas gritantes das estações, que tornaram-se mais evidentes nos quase cinco anos de operação do sistema – completados no próximo mês.

A escuridão domina os equipamentos por dentro e por fora. É maior no Corredor Norte-Sul, que por ter uma característica rodoviária e cortar cinco cidades (Recife, Olinda, Paulista, Abreu e Lima e Igarassu) é muito mais vulnerável aos problemas e à omissão das gestões municipais em relação à iluminação, por exemplo. As catracas altas, de ferro, que substituíram as originais – bonitas e baixas –, terminaram por desfigurar ainda mais os equipamentos. Foram instaladas numa tentativa de inibir as invasões, que superam os 10% de todos os passageiros transportados e já são maiores do que as registradas no sistema convencional.

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REQUALIFICAÇÃO

O governo de Pernambuco discorda da definição de estações-monstro. Reconhece que há problemas, mas não condena o modelo. Diz estar aprendendo com os erros e que os novos modelos – previstos para a Avenida Conde da Boa Vista, no Centro do Recife – já terão menos áreas de vidro para reduzir as depredações. Mas a refrigeração permanecerá. Na tentativa de amenizar os problemas, inicia no próximo mês uma espécie de requalificação de alguns equipamentos. Será gasto R$ 1,7 milhão para recuperar e remodelar sete unidades do BRT.

“Iremos adaptar os telhados das estações, retirando aquelas abas existentes nos modelos originais. Também estaremos substituindo os vidros, trocando o piso, a iluminação e revisando o ar-condicionado. Nossa meta é fazer essas mudanças em sete estações, começando pela Ístimo do Recife, no Centro, que tem baixa demanda e nos permitirá ter noção do tempo e do impacto que a reforma provocará. Porque teremos que fazer tudo sem interromper a operação”, promete André Melibeu, diretor de operações do Grande Recife Consórcio de Transporte (GRCT), gestor do transporte coletivo da RMR. Lembrando que a remodelação da cobertura das estações é uma alternativa à ausência do corredor exclusivo dos BRTs. Se a segregação física do corredor existisse – como premissa básica do modelo BRT no Brasil e no mundo –, caminhões e veículos altos não trafegariam próximo aos equipamentos e, assim, não arrancariam as coberturas.

 

 

 

A VIOLÊNCIA NAS ESTAÇÕES VIROU MAIS UM FANTASMA A violência é mais uma característica incorporada às estações do BRT pernambucano. Como se não bastasse o calor, a degradação e a escuridão, permanecer num dos equipamentos significa minutos ou horas de medo. Muitas vezes, de pânico. Principalmente no Corredor Norte-Sul, mais vulnerável à violência. Os passageiros sofrem muito. Mas são os funcionários os grandes reféns da falta de segurança. Não faltam histórias de medo e pânico provocados por furtos e assaltos de todos os tipos.

São pessoas que passam o dia assustadas e com o sentimento de abandono. Chegam com medo, enfrentam a jornada assustadas e agradecem quando a finalizam sem investidas de ladrões e vândalos. Sem segurança permanente, as estações são alvos fáceis da violência e quem está dentro delas também. A vulnerabilidade é tanta que os profissionais agora deixam seus pertences fora das estações, em estabelecimentos conhecidos do entorno, para que não sejam levados.

 

Carlos (nome fictício), 25 anos, já foi roubado cinco vezes em quatro anos de trabalho. “As estações do Norte-Sul são muito perigosas porque estão localizadas no meio de comunidades complicadas, violentas. E como estamos no mesmo lugar todos os dias, ficamos visados. Já fui roubado com revólver, faca e facão. No primeiro assalto cheguei a ser agredido na cabeça. E ninguém se importa. Nem as empresas nem o Estado fazem nada. Roubam celular, relógio, bolsa, carteira e o que tiver pela frente. Roubam a gente e os passageiros também”, relata.

As estações mais perigosas do BRT Norte-Sul também são conhecidas por todos: Complexo de Salgadinho, Santa Casa de Misericórdia, São Francisco, São Salvador e Cidade Tabajara, todas no corredor da PE-15, no trecho de Olinda. Fernando (nome fictício) é outro funcionário de estação que sofre com a violência. Já pediu até para ser demitido devido ao pânico de ir trabalhar. “Fico me tremendo o tempo todo. Sempre atento. Seguro os passageiros conhecidos para conversar como forma de me sentir mais seguro. Ficamos psicologicamente abalados. Imagine o que é ter que sair de casa todos os dias sabendo que vou enfrentar uma situação dessas”, diz.

É difícil chegar aos números de assaltos no Sistema BRT. Nem o governo do Estado nem o Sindicato dos Rodoviários os repassam com um recorte separado do sistema convencional. Além disso, como é um sistema no qual não há circulação de dinheiro – já que só opera com bilhetagem eletrônica –, os assaltos nas estações e nos veículos BRTs têm apenas a população como alvo. Não há renda das empresas operadoras e, por isso, naturalmente a subnotificação predomina.

 

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O CUSTO DAS ESTAÇÕES DE BRT

JC – Qual o custo de manutenção das estações por mês, separando pelo tipo das despesas

GRCT – Custos com conservação, limpeza e vigilância:

-  Vigilância: R$ 15.707,66

- Limpeza: R$ 2.608,70

- Celpe: R$ 2.155,70

 

Manutenção

- Portas (acionamento) e Catracas: R$ 3.044,70

- Ar condicionado: R$ 2.328,93

- Vidros: R$ 5.330,50

Total: R$ 31.176,19 (por estação/mês)

 

JC – De onde sai o dinheiro gasto com essa manutenção? Cofres do Estado ou do sistema?

GRCT – Do Tesouro Nacional

 

JC – Quanto é gasto com o ar-condicionado das estações (energia e manutenção)?

GRCT – R$ 2.155,70 (energia) + R$ 2.328,93 = R$ 4.484,63 (por estação/mês)

 

JC – Quantos ares condicionados existem por estação?

GRCT – Temos em média 4 equipamentos por estação, totalizando 160 equipamentos (em 42 estações)

 

JC – Quanto é gasto para repor os danos?

GRCT – São gastos, em média, R$ 32.795,62 (por mês), nas 42 estações de BRT.

 

JC – No contexto do sistema como um todo, qual o percentual que a manutenção e a recuperação das estações representa?

GRCT – A manutenção corresponde a 4%, ou seja, R$ 5,5 milhões. E o orçamento de custeio do Grande Recife, em 2018, foi de R$ 140 milhões.

 

JC – Quais os dados disponíveis sobre a evasão do BRT?

GRCT – Estima-se que 10% dos passageiros que utilizam o sistema de transporte público andem nos ônibus sem o pagamento da tarifa.

 

Carcaça de estação do Corredor Leste-Oeste sobre o elevado do Engenho do Meio. Foto: Alexandre Lopes/Especial para o JC

 

A OPINIÃO DOS EMPRESÁRIOS DE ÔNIBUS

JC – O setor empresarial avalia, cinco anos após o início de operação do sistema, que a escolha de estações refrigeradas e com vidros temperados foi um erro?

URBANA-PE – Não podemos colocar como erro, mas como uma concepção em um momento em que as perspectivas econômicas eram bem animadoras. Hoje estamos sentindo na pele as consequências da crise econômica e sua repercussão na manutenção das estações climatizadas em nosso sistema deficitário, que também sofre com ações frequentes de vandalismo.

 

JC – Qual a opinião do setor sobre as catracas que foram instaladas nas estações e que descaracterizam totalmente o modelo BRT?

URBANA-PE – Apostou-se num comportamento social diferenciado para o sistema BRT. A substituição das catracas originais pelas atuais foi a forma encontrada para minimizar as fraudes, que impactam sobremaneira na elevação do custo da operação, na falta de controle da ocupação dos ônibus e no nível de qualidade do serviço.

 

JC – Quais os dados disponíveis sobre a evasão do BRT?

URBANA-PE – Estimamos em 10% a evasão em todo o STPP/RMR.

 

JC – Em relação à degradação, ausência de iluminação e de acessibilidade no entorno das estações, o que o setor tem a dizer?

URBANA-PE – O planejamento da mobilidade deve contemplar toda a jornada do passageiro, das calçadas ao acesso ao transporte público. Entendemos que o sistema que poderia estar rodando com um nível de conforto, regularidade e segurança acima do que é possível ofertar hoje.

 

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