As bicicletas pedem passagem no Recife

Publicado em 30/09/2019 às 8:57
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Contagens realizadas pela Ameciclo e Bike Anjo revelam um crescimento de até 75% do número de viagens de bicicletas em algumas vias do Recife. Foto: Brenda Alcântara/JC Imagem

Os ciclistas estão por todo lado na cidade do Recife. As viagens de bicicleta aumentaram entre 40% e mais de 70% em algumas ruas e avenidas da capital nos últimos três anos. Por mais que parte da sociedade e da gestão pública subestime o papel da bicicleta como meio de transporte, ela é a primeira e melhor opção para muita gente. Seja por vontade ou necessidade. E mais. Quem pedala na capital não está nas vias secundárias e de tráfego mais calmo – o que as torna mais convidativas à bicicleta. Essa lógica, usada como princípio pelo poder público para implantar a maior parte da estrutura ciclável existente até hoje, não se confirma na prática. Os ciclistas estão pedalando é nos corredores de transporte público, nas grandes e largas avenidas recifenses voltadas para o veículo motorizado – com o carro tendo muito mais prioridade do que o ônibus, vale ressaltar. Em vias como a Avenida Agamenon Magalhães, pulmão viário da cidade que, quando para, todo o resto para junto, e a Avenida Caxangá, eixo de ligação imprescindível com o Centro não só para a capital, mas também para a Zona Oeste da Região Metropolitana.

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A constatação é feita a partir das contagens e recontagens da Ameciclo (Associação Metropolitana de Ciclistas do Recife) em parceria com a ONG Bike Anjo, realizadas entre 2013 e este ano. Os números impressionam. A Avenida Agamenon Magalhães, por exemplo, teve um aumento superior a 70% na quantidade de viagens de bicicleta. Mesmo com um tráfego pesado – são 100 mil veículos trafegando por dia –, o cruzamento com o Derby registra, atualmente, mais de duas mil viagens de bicicleta em cada uma das pistas (Leste e Oeste). Na pista Leste, atualmente acontecem 2.077 viagens, um aumento de 74,83% em relação a 2016. Já na pista Oeste é ainda maior: aumento de 75,08% no mesmo período, passando de 1.292 em 2016 para 2.262 viagens de bike por dia este ano.  

 

Ciclistas na Agamenon Magalhães, no cruzamento com o Derby. Aumento de 75% e nenhuma infraestrutura para a segurança da bicicleta. Fotos: Ameciclo/Bike Anjo
A1 - Ciclistas na Agamenon Magalhães, no cruzamento com o Derby. Aumento de 75% e nenhuma infraestrutura para a segurança da bicicleta. Fotos: Ameciclo/Bike Anjo
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Apesar dos números e da dimensão viária da Agamenon Magalhães – 12 faixas de rolamento totalmente exclusivas para o automóvel, sem sequer uma Faixa Azul para as 50 linhas de ônibus que usam o corredor –, a avenida segue sem qualquer infraestrutura para a bicicleta. E o que é pior. Sem previsão. Desde 2017 a Prefeitura do Recife promete uma Faixa Azul para o corredor, mas descartou a ciclovia prevista no Plano Diretor Cicloviário (PDC) da Região Metropolitana e prometida na época em que o projeto do Ramal Agamenon de BRT ainda não tinha sido engavetado pelo governo de Pernambuco.

“As contagens evidenciam o quanto a política de ciclomobilidade do Recife está equivocada ao não implantar uma infraestrutura ciclável nas grandes avenidas e corredores. O aumento do número de viagens de bicicleta é uma confirmação disso. E, mesmo assim, a Prefeitura do Recife segue jogando os ciclistas para as vias onde eles não querem andar. Construindo infraestrutura onde a necessidade é menor porque são vias que têm limite de velocidade mais baixo e, por isso, é possível a bicicleta e o carro compartilharem o espaço. Mas nas vias onde a velocidade é de 60 km/h e há, sim, necessidade de oferecer segurança para quem pedala, falta a decisão política de implantar. É o caso da Avenida Agamenon Magalhães, da Avenida Caxangá e do Viaduto Capitão Temudo, por exemplo”, destaca Mariana Oliveira da Silveira, arquiteta, especialista em mobilidade ativa, associada da Ameciclo e responsável pela relatoria das contagens.

Outro corredor simbólico para a cidade e para quem pedala é a Avenida Caxangá. Mais uma grande via que tinha previsão para receber uma ciclovia e até hoje não recebeu. Também é uma importante ligação utilizada para viagens de bicicleta. A Caxangá é, inclusive, a segunda via que mais recebe ciclistas pelas contagens da Ameciclo e do Bike Anjo. Teve um aumento de quase 30% entre 2015 e 2019 – atualmente são 3.976 viagens de bicicleta por dia. Até mesmo onde o número de ciclistas bate recorde na cidade não há infraestrutura cicloviária correta. É o caso da Rua 21 de abril, em Afogados, na Zona Oeste da capital, onde foram contabilizadas 4.305 viagens de bicicletas por dia. Lá, no entanto, existe o resto do que um dia foi uma ciclorrota, a primeira do Recife, que em quase nada protege quem pedala.

 

Ciclistas na Avenida Caxangá, a segunda via com o maior volume de viagens de bicicleta. Fotos: Ameciclo/Bike Anjo
caxanga 01 - Ciclistas na Avenida Caxangá, a segunda via com o maior volume de viagens de bicicleta. Fotos: Ameciclo/Bike Anjo
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Vale destacar que os ciclistas contabilizados pela Ameciclo e Bike Anjo não são pessoas que usam a bicicleta para lazer. Ao contrário. São trabalhadores que, em sua maioria, sequer conseguem pagar o valor da passagem do ônibus. Como se não bastasse, todas as vias que receberam o levantamento deveriam ter infraestrutura prevista no PDC – elaborado há cinco anos ao custo de quase R$ 1 milhão. Ou seja, a contagem de ciclistas das duas entidades deveria ser, mas ainda não virou, o livro de cabeceira da Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU). Infelizmente.

 

CTTU garante que expansão da rede ciclável é uma das principais metas da autarquia A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU), por sua vez, mostra números da ampliação da infraestrutura para bicicletas na cidade e garante que a expansão da rede ciclável é uma das principais metas do setor de engenharia de tráfego do órgão. Afirma que atualmente existem 86 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas na cidade, o que significa um aumento superior a 250% desde 2013. E que não para de trabalhar, entregando este mês a Zona 30 e a Rota Cicloviária Ilha do Leite, com 2,4 km de extensão.

 

Rua 21 de Abril, em Afogados, é a campeã em viagens de bicicleta do Recife: mais de 4 mil por dia. E, mesmo assim, tem apenas lembranças do que um dia foi uma ciclorrota. Foto: Guga Matos/Acervo JC Imagem

 

Confira a resposta oficial da autarquia: “A Autarquia de Trânsito e Transporte Urbano do Recife (CTTU) informa que a expansão da rede ciclável do Recife é uma das principais metas do setor de engenharia de tráfego do órgão. A ação garante mais segurança viária aos ciclistas e permite a utilização mais equitativa do espaço público entre os diferentes modais de transporte. Neste mês de setembro, a CTTU entregou a Zona 30 no bairro da Ilha do Leite, uma área de trânsito calmo, cujo principal objetivo é garantir a segurança viária dos pedestres através do conceito de "trânsito calmo", que busca humanizar espaços viários e incentivar a mobilidade consciente entre os modais. Além disso, haverá, também, a Rota Cicloviária Ilha do Leite, com 2,4 km de extensão. O equipamento já está em fase de implantação, com previsão de conclusão até o fim deste mês. Atualmente existem 86 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas na cidade, que significa um aumento superior a 250% desde 2013. As novas rotas implantadas compõem a Rede Cicloviária Complementar, previstas pelo Plano Diretor Cicloviário (PDC), e estão sendo projetadas para que haja uma conexão com as rotas já existentes e com a Rede Cicloviária Metropolitana, que está sendo elaborada pelo Governo do Estado. Os projetos priorizam o atendimento aos bairros que abrigam polos de interesse público, como parques, praças, mercados públicos e terminais de ônibus, criando pontos de conectividade entre esses equipamentos”.

 

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