POR UM NOVO TRANSITAR

Trânsito brasileiro mata mais do que as armas de fogo

Série de reportagens Por um novo transitar discute esse fenômeno verificado nacionalmente e a matança que o trânsito brasileiro ainda segue promovendo no País

Roberta Soares
Roberta Soares
Publicado em 18/01/2021 às 8:00
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FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Existe uma indústria da infração. E das mais perigosas, tendo o excesso de velocidade e o uso incontrolável dos smartphones ao volante na liderança - FOTO: FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
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Vivemos uma guerra no trânsito. Nos últimos dez anos e também agora. Matávamos 43 mil mil pessoas por ano no Brasil, e conseguimos reduzir para 32 mil em 2019. Mas ainda são muitas as vítimas do trânsito urbano. Todas, todas mesmo, mortes evitáveis. O trânsito brasileiro segue matando muito. Mata mais do que as armas de fogo. Chegou a esse ponto. E o que é mais assustador: é um fenômeno ainda ignorado pelo País. Os crimes de trânsito ainda são cercados de muita benevolência da sociedade. Ao mesmo tempo, faltam condições para oferecer um trânsito mais seguro para pedestres, ciclistas, passageiros e motoristas. Por isso, a segurança viária em todas as suas faces precisa estar sempre em discussão. Esse é o propósito da série de reportagens Por um novo transitar, que a Coluna Mobilidade apresenta nos próximos quatro domingos.

CONFIRA A SÉRIE POR UM NOVO TRANSITAR

* A indústria é da infração, não das multas de trânsito

* Motos seguem sendo as vilãs do trânsito

* Histórias de dor e impunidade - As vítimas do trânsito brasileiro

ARMAS SOBRE RODAS
Nem mesmo o custo de R$ 132 bilhões por ano com vítimas - calculado em estudo recente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) - consegue reverter a situação. O trânsito brasileiro matou mais pessoas em 2019 do que as armas de fogo no País. O fenômeno assustador se repetiu, ainda, em nove capitais. O levantamento tem como base os dados de 2019 do DataSus, do Ministério da Saúde, fechados no fim de 2020, e foi realizado pela Iniciativa Bloomberg de Segurança Viária Global (BIGRS). Na verdade, os números mostram que houve praticamente um empate técnico nacionalmente, mas com o trânsito ainda matando mais.

Essa inversão dos números é preocupante porque o fenômeno das mortes por armas de fogo sempre foi discutido no País, tem políticas públicas. O trânsito não. E quando ele mata mais do que as armas mostra que segue em segundo plano",
Dante Rosado, Iniciativa Bloomberg

Foram 15,2 pessoas por cada grupo de 100 mil habitantes mortas em sinistros de trânsito nos doze meses de 2019 - precisamos parar de classificar como acidentes de trânsito porque são eventos, por diversas razões, sempre evitáveis. Enquanto que as armas de fogo mataram, no mesmo período, 14,7 pessoas por cada grupo de 100 mil habitantes. Foram 30.825 pessoas assassinadas a tiros contra 31.945 mortas ao volante ou por motoristas ao volante. Uma diferença de 1,03%. As nove capitais que se destacaram nessa lógica perversa são Palmas (TO), Teresina (PI), Boa Vista (RR), Campo Grande (MS), Cuiabá (MT), Brasília (DF), Curitiba (PR), Florianópolis (SC) e São Paulo (SP). A diferença entre as causas também seguiu uma proporção apertada em cinco dessas capitais, mas em outras quatro - Boa Vista, Campo Grande, Florianópolis e São Paulo - o número de óbitos no trânsito chegou a ser até quatro vezes maior do que as agressões por armas de fogo.

ARTES/JC
Arte série Por um novo transitar - ARTES/JC

“Essa inversão dos números é preocupante porque o fenômeno das mortes por armas de fogo sempre foi discutido no País, sob a ótica da segurança urbana. Temos políticas e recursos públicos nacionais e estaduais destinados ao combate dele há muitos anos. Mas quando revela que o trânsito brasileiro mata mais do que a violência urbana, reforça a ideia de que o Brasil banalizou as mortes nas ruas, avenidas e estradas. Que esse problema segue em segundo plano. O objetivo do uso da arma de fogo é matar alguém. O automóvel não. Isso precisa ser considerado”, alerta Dante Rosado, coordenador executivo da Iniciativa Bloomberg no Nordeste, que atuou por cinco anos em Fortaleza e chegou ao Recife em 2020. Também presente, no Brasil, em Salvador (BA) e em São Paulo.

O atestado de óbito de uma pessoa morta por arma de fogo ou arma branca não deixa dúvidas. Já as vítimas do trânsito não. Muitas vezes é dito apenas que a morte teve como causa um traumatismo craniano, uma infecção generalizada ou uma parada cardiorespiratória. Mas não revela a origem da internação, que pode ter sido uma colisão ou atropelamento no trânsito, por exemplo. Por isso a subnotificação”,
Paulo César Pêgas, da Cepal/ONU

SUBNOTIFICAÇÕES
O estrago do trânsito brasileiro, superando até mesmo as mortes por armas de fogo, pode ser ainda maior do que mostra o comparativo a partir dos dados atualizados do DataSus. A subnotificação nas questões do trânsito é fato e, no caso dos óbitos, a fragilidade dos registros é reconhecida pela própria Organização Mundial de Saúde (OMS), que estima uma diferença de aproximadamente 30% nos dados oficiais. Enquanto que os registros de óbitos por armas de fogo são extremamente confiáveis devido à facilidade de identificação da causa original. Ou seja, o trânsito brasileiro deve ter um número ainda maior de vítimas do que os 39 mil de 2019.

 

ARTES JC
A MATANÇA EM NÚMEROS CORRETO - ARTES JC

Quem faz o alerta é Paulo César Pêgas, consultor sobre custos com acidentes de transportes da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), da ONU, pesquisador para redução de mortalidade no trânsito e colaborador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). “O atestado de óbito de uma pessoa morta por arma de fogo ou arma branca não deixa dúvidas. Já as vítimas do trânsito não. Muitas vezes é dito apenas que a morte teve como causa um traumatismo craniano, uma infecção generalizada ou uma parada cardiorespiratória. Mas não revela a origem da internação, que pode ter sido uma colisão ou atropelamento no trânsito, por exemplo. Por isso a subnotificação”, explica.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
O estrago do trânsito brasileiro, superando até mesmo as mortes por armas de fogo, pode ser ainda maior do que mostra o comparativo a partir dos dados atualizados do DataSus - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

E a razão para tanta subnotificação está, segundo diz Pêgas, na dificuldade do diagnóstico da morte no trânsito, cheio de detalhes que transformam o preenchimento de um atestado de óbito em algo demorado e minucioso. “O tempo de sobrevida das vítimas da violência urbana é pequeno. Já no trânsito não, pode levar meses e meses. E, muitas vezes, essa vítima morre de parada cardiorrespiratória. Ou seja, não será computada como trânsito. Por tudo isso, é urgente a adoção de políticas públicas sérias, com financiamento certo, embasadas em leis rígidas e responsabilizando quem tem responsabilidade por essa matança”, ensina o pesquisador.

QUANDO O AUTOMÓVEL VIROU UM REVÓLVER
Ninguém esperava tamanha brutalidade. Ninguém acreditava que um carro pudesse ter sido usado como arma para matar a engenheira de computação Patrícia Cristina Araújo Santos, 46 anos. No início, pareceu uma colisão de trânsito. Chegou a ser noticiado dessa forma: “Mulher morre em acidente na Boa Vista”. Mas o alerta da família levou a polícia a descobrir que se tratava de um feminicídio no trânsito. Guilherme José de Lira Santos, 47, representante farmacêutico e marido de Patrícia por 19 anos, pai dos dois filhos dela – um casal de 12 e 14 anos –, foi denunciado na Justiça por jogar o carro que dirigia contra uma árvore na Rua Fernandes Vieira, na Boa Vista, área central do Recife, e matar na hora a mulher e mãe de seus filhos. Patrícia recebeu o impacto de uma tonelada de ferro sobre o corpo, como descreveu a perícia criminal. Naquela ocasião, o automóvel funcionou como um revólver.

FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM
Selo para rede sociais da série Por um novo transitar - FELIPE RIBEIRO/JC IMAGEM

O crime aconteceu numa noite de novembro de 2018. Imagens do local mostram o veículo do casal se chocando em alta velocidade contra uma árvore. Todo o impacto é exatamente do lado do passageiro. A destruição foi tanta que os bombeiros não conseguiram tirar Patrícia pela porta do passageiro. O corpo foi retirado pela porta traseira. Ela morta e o marido sem ferimentos, como contaram familiares da mulher. Guilherme Santos foi preso dias depois, indiciado pela Polícia Civil e denunciado pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE) por feminicídio praticado por motivo torpe. Na época, chegou-se a pensar que o acusado também queria se matar, mas a possibilidade foi descartada pela polícia. Ao analisar as imagens, ficou claro que ele direcionou o veículo apenas para o lado do passageiro. Guilherme Santos aguarda julgamento pelo Tribunal do Júri, adiado devido à pandemia. Ele sempre negou o crime e insistiu na versão de uma colisão de trânsito.

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