COLUNA MOBILIDADE

Bolsonaro, de novo, joga a legislação e a educação de trânsito no lixo. Veja vídeo

Presidente circulou de motocicleta no interior do Ceará sem capacete mais uma vez. É o chefe de Estado estimulando a impunidade no trânsito

Roberta Soares
Cadastrado por
Roberta Soares
Publicado em 24/03/2022 às 13:47 | Atualizado em 25/03/2022 às 11:12
Guga Matos/JC Imagem
Presidente Bolsonaro - FOTO: Guga Matos/JC Imagem
Leitura:

De novo. O presidente da República, Jair Bolsonaro, mais uma vez foi um mau exemplo para a educação do trânsito. Mais uma vez jogou no lixo a legislação e um pouco da luta diária de quem tenta mudar o trânsito brasileiro, uma máquina que matou em 2020 31.088 pessoas - já matou quase 45 mil em 2012, 2013 e 2014, vale ressaltar -, mutila e sequela outras 500 mil. E que custa, por tudo isso, R$ 132 bilhões por ano à sociedade brasileira.

Na viagem que fez ao Ceará nessa quarta-feira (23/3), depois de passar por Pernambuco, o presidente andou sem capacete na garupa de uma motocicleta que sequer tinha placa. E o condutor que o levou também não usava o equipamento. Assim como outros que acompanhavam a comitiva.

O mau exemplo de Bolsonaro no trânsito. De novo e de novo

Foto: Anderson Riedel | Palácio do Planalto | Divulgação)
Apesar do perigo e do simbolismo da imagem de ver o presidente da República do Brasil e o Ministro da Infraestrutura sem capacete numa moto, ele não poderia ser multado porque as infrações de trânsito só podem ser aplicadas em vias terrestres do território nacional, abertas à circulação - Foto: Anderson Riedel | Palácio do Planalto | Divulgação)

Um desrespeito que custa vidas. Não usar capacete pilotando uma motocicleta, quando não mata, deixa sequelas graves.

Somente naquela brincadeira eleitoreira - porque é importante ponderar que o presidente é candidato à reeleição e está no Nordeste inaugurando obras que ainda sequer existem de fato -, seriam três infrações de trânsito, duas delas gravíssimas.

Confira as infrações pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB):

Artigo 244

Conduzir motocicleta, motoneta e ciclomotor:

I - Conduzir motocicleta, motoneta ou ciclomotor sem usar capacete de segurança ou vestuário de acordo com as normas e as especificações aprovadas pelo Contran

Infração – gravíssima (R$ 293,47)

Penalidade – multa e suspensão do direito de dirigir

Pontuação: 7 pontos na CNH

II - Conduzir motocicleta, motoneta e ciclomotor transportando passageiro sem o capacete de segurança, na forma estabelecida no inciso anterior, ou fora do assento suplementar colocado atrás do condutor ou em carro lateral:

Infração – gravíssima (R$ 293,47)

Penalidade – multa e suspensão do direito de dirigir

Pontuação: 7 pontos na CNH

FOTO: ANDERSON RIEDEL/PALÁCIO DO PLANALTO
Presidente em maio, andando de moto e sem capacete com Luciano Hang - FOTO: ANDERSON RIEDEL/PALÁCIO DO PLANALTO
Foto: Anderson Riedel | Palácio do Planalto | Divulgação)
Bolsonaro sem capacete, conduzindo motocicleta, em Rondônia, e com o Ministro tarcísio Ferreira na garupa, também sem capacete - Foto: Anderson Riedel | Palácio do Planalto | Divulgação)

Art. 232

Conduzir veículo sem os documentos de porte obrigatório referidos neste Código:

Infração - leve

Penalidade - multa (R$ 88,38)

Medida administrativa - retenção do veículo até a apresentação do documento

Pontuação: 3 pontos na CNH

E isso numa rodovia estadual que dá acesso ao município de Quixadá, no Sertão Central cearense - regiões que, em qualquer Estado, enfrentam muito mais desinformação e praticam muito mais desrespeitos às regras de trânsito.

Em Pernambuco, por exemplo, o interior tem muito mais flagrantes de desrespeito à legislação do que as cidades do Grande Recife. Principalmente em relação ao uso de equipamentos de segurança por motociclistas - lembrando que são os motociclistas que respondem por quase 50% dos sinistros de trânsito do País. 

Em 2020 o Brasil pagou mais de 250 mil indenizações para vítimas de sinsitros de trânsito com motocicletas. O que representou 79% do total de indenizações, segundo os últimos dados divulgados pelo DPVAT.

Foram 110 mil vítimas por invalidez permanente e quase 12 mil vítimas fatais nesses veículos.

TARLA WOLSKI/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Embora tenha adotado o uso do capacete nas últimas "motociatas" realizadas pelo País, o chefe da nação escolheu o equipamento irregular aos olhos do CTB - TARLA WOLSKI/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

“DÓI NA ALMA”, DIZ DIRETOR DE FISCALIZAÇÃO DO DETRAN-PE

A indignação de ver o chefe maior da nação desrespeitar as regras do trânsito incomodou quem está na linha de frente da batalha.

Trânsito brasileiro mata demais, mutila e custa muito caro

Veja o desabafo do diretor de Fiscalização de Trânsito do Detran-PE, Sérgio Lins:

“Dói na alma. Passamos noites correndo, lutando sem ter perna, sem ter a estrutura ideal, para minimizar as mortes e os ferimentos no trânsito, e vem o presidente da Nação e adota uma postura dessas. Joga todo nosso trabalho no lixo”, diz.

“Quem trabalha com trânsito, seja na gestão, na fiscalização ou na educação, sofre. Quem está na luta diária não acredita. Ver o presidente da República, um chefe de Estado, que deveria ser a primeira pessoa, independente de lado político, a dar exemplo para todos”, reforça.

“Ele tem seguidores, pessoas que o admiram bastante. Deveria ser um exemplo. Ainda mais nesse tipo de infração, que é conduzir motocicleta sem capacete. Uma infração que mata e deixa sequelas. Principalmente de vidas jovens, aposentadas precocemente e com impacto na área previdenciária do País”, acrescenta.

“Acabamos de dar um exemplo significativo com o julgamento do caso da Tamarineira, mas com um gesto desses do presidente do País, andamos para trás”, finaliza Sérgio Lins.

Que feio, presidente. Mais uma vez.

Comentários

Últimas notícias