Operação

Polícia vai apurar se vereadores do Recife e deputados financiam torcida organizada

Durante mandado de busca e apreensão, Polícia Civil encontrou caderno de contabilidade com nomes de políticos e valores supostamente doados à Torcida Jovem

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 15/09/2020 às 13:52
Notícia

BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
CORE deflagrou na manhã desta terça (15) a Operação Returno que prendeu integrantes da torcida Jovem. - FOTO: BRUNO CAMPOS/JC IMAGEM
Leitura:

A Polícia Civil de Pernambuco dará um novo passo nas investigações para tentar extinguir de vez as torcidas organizadas e diminuir a violência provocada pelos integrantes desses grupos. Durante as operações deflagradas nesta terça-feira (15) para prender integrantes das torcidas, policiais apreenderam um caderno de contabilidade que estava na casa do presidente da Torcida Jovem do Sport - um dos presos nesta manhã. Nas anotações, havia nomes de políticos que atuam no Estado e valores supostamente doados à organização. O material será analisado e eles também serão investigados. 

"A gente está analisando o caderno, porque há uma movimentação financeira, supostamente de doações feitas por vereadores do Recife e deputados estaduais. A gente vai verificar se se trata de alguma contabilidade legal ou se alguém está financiando atividades ilegais. Já temos alguns nomes e sabemos que há doações recentes. Se for o caso, vamos intimar essas pessoas e elas podem vir a responder por associação criminosa", afirmou o delegado Joel Venâncio, gestor do Comando de Operações e Recursos Especiais (Core). 

O delegado ainda destacou que, por se tratarem de torcidas organizadas extintas pela Justiça, em fevereiro deste ano, qualquer tipo e contabilidade já pode ser considerada ilegal. "Estamos investigando quem são os patrocinadores dessas torcidas", disse, em coletiva de imprensa. 

Nas duas operações deflagradas, simultaneamente, 10 pessoas foram presas e uma ainda está foragida. Os nomes não foram divulgados oficialmente pela polícia. 

Na primeira operação, seis homens foram presos suspeitos de assaltar e espancar um torcedor do Náutico no bairro da Encruzilhada, em 19 de janeiro deste ano. A camisa da vítima também foi levada. "Eles usam essas camisas, não pelo valor econômico dela, mas como troféu. É como se desafiassem as torcidas adversárias", explicou Joel Venâncio. Os presos têm entre 23 e 29 anos. Parte deles já com passagens pela polícia. Agora, estão sendo indiciados por associação criminosa e roubo.

A segunda operação, em que quatro pessoas foram presas, está relacionada ao ataque aos torcedores do Santa Cruz, em 03 de fevereiro deste ano. Na ocasião, um grupo comemorava o aniversário de 106 anos de fundação do time, na área central do Recife, quando foi alvo da organização criminosa. "Por meio de vídeos, conseguimos identificar algumas dessas pessoas", disse o delegado. Os presos, com idades entre 19 e 34 anos, vão responder por associação criminosa, lesão corporal, provocação de tumulto e corrupção de menor (havia adolescentes participando dessas confusões). 

Outros suspeitos de participação nos dois ataques que resultaram nas operações ainda não foram identificados pela polícia. 

O líder

Para a Polícia Civil, a prisão do presidente da Torcida Jovem é fundamental para interromper novos ataques da organização criminosa. O suspeito de 34 anos já tem antecedentes criminais por roubo, dano e tráfico de drogas. No momento da prisão, ele tentou fugir e pulou o muro da casa do vizinho, mas foi capturado. Na residência dele, vasto material, como camisas e bandeiras, foi encontrado e apreendido. Segundo o gestor do Core, o suspeito era o mentor de todos os ataques a torcedores rivais.

"Muitas vezes ele não está na linha de frente para não ser identificado. Mas é ele quem coordena, organiza, promove todos esses ataques", afirmou Venâncio. 

Relembre um dos casos

Durante a realização do evento de comemoração da fundação do Santa Cruz, que aconteceu no Largo da Santa Cruz, na Boa Vista, alguns integrantes de organizada do Sport provocaram tumulto no local, inclusive, com relatos de tiros. Na época, a Polícia Militar esclareceu que foi “surpreendida” pelo tumulto e que dispersaram os agressores e patrulharam a vizinhança logo após a confusão.

A corporação ainda disse que “dois dos agressores ficaram machucados e acabaram detidos, mas foram liberados porque ninguém quis representar contra eles”. No local, os poucos policiais militares presentes tentaram conter a confusão, mas tiveram dificuldades. Vários vídeos circularam nas redes sociais do momento que começou todo tumulto.

Pedras, pedaços de pau e todo tipo de objetos foram arremessados. Se tornando numa praça de guerra. Os torcedores do Santa Cruz, que não faziam parte da torcida organizada tricolor, e que estavam ali apenas para comemorar o aniversário do seu clube, tiveram de se esconder nos bares das redondezas para não serem agredidos. Muitos pais que levaram seus filhos foram obrigados a se protegerem dos vândalos, se escondendo nos banheiros dos bares.

 

 

O jornalismo profissional precisa do seu suporte.

Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Comentários

Últimas notícias