SEGURANÇA

Secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua, é exonerado seis dias após ato desastroso da Polícia Militar no Recife

O delegado federal Humberto Freire, até então executivo, irá assumir a pasta interinamente

Raphael Guerra
Raphael Guerra
Publicado em 04/06/2021 às 17:42
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YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
Secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua - FOTO: YACY RIBEIRO/JC IMAGEM
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Atualizada às 19h40

Seis dias após o ato desastroso da Polícia Militar de Pernambuco contra manifestantes na área central do Recife, o secretário de Defesa Social, Antônio de Pádua, foi exonerado do cargo. O anúncio foi feito na tarde desta sexta-feira (04) pelo governo estadual. Oficialmente, a informação é de que o delegado federal colocou o cargo à disposição. O governador Paulo Câmara aceitou e nomeou o atual secretário executivo, Humberto Freire, como titular interino da SDS.

Na manhã desta sexta-feira, o governador Paulo Câmara já havia empossado o coronel Roberto Santana como novo comandante da Polícia Militar, em substituição ao coronel Vanildo Maranhão - exonerado na terça-feira. 

“Quero agradecer ao secretário Pádua por todo o seu trabalho em defesa do Pacto pela Vida nesses quatro anos, e ressaltar que a missão dada ao secretário Freire e ao comandante Roberto é que o episódio do último sábado não seja esquecido, para que nunca se repita. Os protocolos precisam ser revistos para que um comando de tropa na rua não possa se sentir autônomo a ponto de agir da maneira que agiu”, afirmou o governador, em nota oficial à imprensa.

HISTÓRICO

O delegado da Polícia Federal Antônio de Pádua estava à frente da Secretaria de Defesa Social desde 1º de julho de 2017.O secretário interino Humberto Freire também é delegado federal e fazia parte da equipe de Pádua desde o início da gestão dele.

OS DEPOIMENTOS DOS POLICIAIS

Depoimentos de policiais militares na Corregedoria Geral da Secretaria de Defesa Social (SDS) revelam que a ordem para dispersar os manifestantes que fizeram ato, no Recife, contra o governo Bolsonaro, no sábado (29),foi dada ainda enquanto eles estavam no quartel. Um tenente repassou o recado. Os militares do Batalhão de Choque seguiram, em ônibus, até o bairro do Derby, na área central, onde foi marcada a concentração. A ordem era impedir que o grupo saíssem em caminhada pelas ruas. No local, os PMs chegaram a se perfilar, mas os manifestantes já estavam saindo a caminho da Avenida Conde da Boa Vista. A nova ordem recebida: os PMs deveriam voltar ao ônibus. De lá, foram levados para a Ponte Duarte Coelho. Lá, começou a ação violenta e desastrosa.

Segundo os relatos dos policiais, ouvidos em depoimento, um capitão do Batalhão de Choque recebia ordens pelo celular. E repassava aos demais. Quem estava do outro lado da linha, no entanto, é uma incógnita para os PMs. O que eles perceberam é que a pessoa que falava com o capitão acompanhava em tempo real o que acontecia na ponte. O objetivo era claro: dispersar, de vez, a manifestação.
O conteúdo de alguns dos depoimentos dos PMs foi revelado por fontes da SDS à coluna Ronda JC.
O resultado já sabemos: manifestantes feridos e dois trabalhadores, que sequer participavam do ato, foram atingidos nos olhos por bala de borracha e acabaram perdendo a visão. Um deles, inclusive, ainda pediu socorro para policiais que estavam numa viatura. Mas não foi levado para uma unidade de saúde.

MONITORAMENTO

Pouco antes do meio-dia do sábado (29), imagens do Batalhão de Choque avançando contra manifestantes no Centro do Recife começaram a inundar as redes sociais e grupos de WhatsApp. No mesmo horário, o secretário de Defesa Social de Pernambuco, Antônio de Pádua, e o executivo, Humberto Freire, estavam no Centro Integrado de Comando e Controle Regional (CICCR) com comandantes da Polícia Militar. Todos acompanhavam, em tempo real, as câmeras da SDS.

Minutos depois, um vídeo de poucos segundos publicado no Instagram oficial da SDS mostrava a cúpula reunida numa mesa em frente ao telão onde é possível visualizar os principais pontos do Recife - inclusive a área central. Às 12h31, quando várias cenas de violência policial eram publicadas na internet e criticadas, Pádua, ainda no CICCR, concedia entrevista à TV Globo. Tranquilo, mostrava imagens de câmeras da Zona Sul do Recife. "É isso. Todo monitoramento de câmeras da cidade da cidade são feitas aqui (sic). Daqui, observamos o que está acontecendo", declarou o secretário, ao vivo, à repórter Bianka Carvalho. Nenhuma menção foi feita à ação policial no Centro do Recife.

Três dias após o episódio, o governo de Pernambuco exonerou o coronel Vanildo Maranhão, comandante geral da Polícia Militar desde fevereiro de 2017. Ele foi substituído por José Roberto Santana, que exercia até então a posição de diretor de Planejamento Operacional da PMPE.

O QUE DISSE PÁDUA

Em entrevista à TV Jornal, na quinta-feira (03), Antônio de Pádua disse não saber explicar quem deu a ordem para que os PMs atuassem daquela forma. Declarou que uma hipótese é de que a autorização "teria partido inicialmente do oficial que estava na coordenação da tropa de choque", mas que investigações ainda precisam ser feitas. "Nossa missão agora é encontrar e finalizar todas as investigações e procedimentos instaurados para dar essa resposta completa à nossa sociedade", disse Pádua.

"Temos seis procedimentos disciplinares instaurados até então na Corregedoria da SDS, um inquérito instaurado na Polícia Civil de Pernambuco para investigar as lesões corporais contra Jonas, Daniel (trabalhadores atingidos nos olhos) e mais quatro vítimas que apareceram na delegacia para prestar esclarecimentos, um inquérito policial militar que está sendo processado, além de um estudo de caso para a gente entender se os protocolos da polícia precisam ser modificados, tendo em vista as decisões [que foram] tomadas em campo", explicou o secretário.

Pádua também afirmou que faz parte do protocolo de segurança do Estado a Polícia Militar estar presente em toda e qualquer manifestação, mas com o objetivo principal de garantir a segurança dos manifestantes. "O Choque está presente, mas isso não quer dizer que tem autorização para atuar, usar armas menos letais ou lançar granadas; somente se houvesse uma situação que permitisse que isso acontecesse. A polícia, de forma geral, só pode agir dentro da proporcionalidade, legalidade e da necessidade", esclareceu.

 

 

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