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Risco de colapso no front: Pernambuco tem 5.689 profissionais de saúde que já foram infectados pelo coronavírus

Escalada do adoecimento entre trabalhadores da saúde: 45% dos 5.689 casos tiveram confirmação da doença de segunda (18) até a sexta-feira (22)

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 23/05/2020 às 12:05
Análise
HANNAH MCKAY/POOL/AFP
Só na quinta-feira (21), na capital pernambucana, 489 trabalhadores estavam afastados dos postos de saúde, emergências, enfermarias e unidades de terapia intensiva (UTI) por apresentar sintomas de covid-19 - FOTO: HANNAH MCKAY/POOL/AFP
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Médicos, fisioterapeutas, nutricionistas, assistentes sociais, farmacêuticos, trabalhadores da enfermagem e tantos outros profissionais seguem com o papel de soldados do cuidado cara a cara com um agente infeccioso invisível: o novo coronavírus. Cada vez mais expostos no front, eles abraçam a missão do cuidado diariamente e, ao mesmo tempo, estão em sacrifício da própria vida. Em Pernambuco, a escalada do adoecimento desses trabalhadores, representada em números, revela o quanto eles estão em risco. Já são, no Estado, 5.689 profissionais de saúde que já foram infectados – 45% deles (ou 2.574, em números absolutos) com confirmações de testes laboratoriais divulgadas de segunda (18) até a sexta-feira (22).

Quando apresentam sintomas de covid-19, eles saem do front por, pelo menos, 14 dias. Só na quinta-feira (21), na capital pernambucana, 489 trabalhadores estavam afastados dos postos de saúde, emergências, enfermarias e unidades de terapia intensiva (UTI) por apresentar sintomas da doença. “Entre eles, estão 88 médicos, 164 técnicos e auxiliares de enfermagem e 100 enfermeiros. Temos um desafio imenso na recomposição das escalas de toda a rede de saúde. Procuramos vencer essa barreira com mobilização e deslocamento de especialistas de ambulatórios (não covid-19), além das contratações que estão sendo feitas para minimizar efeitos do adoecimento de profissionais”, disse o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia, em coletiva de imprensa transmitida pela internet.

A subida das confirmações de covid-19 nesses trabalhadores e, consequentemente, o déficit nas escalas de plantões vêm num momento em que a pandemia mais exige deles. Com a atual franca aceleração da curva epidêmica no Estado, os profissionais de saúde se tornam mais do que necessários para salvar milhares de vidas todos os dias. O desfalque nas escalas se soma à pressão que a covid-19 faz na assistência hospitalar. As taxas de ocupação dos leitos de UTI e de enfermaria permanecem em zona de criticidade. Na rede estadual, das 600 vagas de terapia intensiva para pacientes com suspeita e diagnóstico da doença, 97% estão ocupadas. Na capital, 85% dos 125 leitos de UTI estão com pacientes.

Eles precisam não apenas de um ambiente adequado com respiradores, mas principalmente necessitam das equipes de saúde para garantir a sobrevida e vencer a guerra contra o vírus. “Vejo o adoecimento desses profissionais com muita preocupação. Quando falamos sobre o número dos que estão infectados, não é para impressionar; é porque infelizmente é a realidade. Há muitos que estão afastados das UTIs e emergências. Isso inclui também os trabalhadores que circulam nas unidades de saúde, incluindo funcionários de setor administrativo e limpeza. Estão todos muito expostos, mesmo usando EPI (equipamento de proteção individual)”, diz o médico Marçal Durval Siqueira Paiva Júnior, presidente da Sociedade de Terapia Intensiva de Pernambuco. Para ele, é sério o cenário de colapso de recursos humanos a que assistimos. “São vários os profissionais capacitados que estão adoecendo. O que acontece? Vários têm dobrado plantão (pelo desfalque), outros vão trabalhar e não sabem se serão rendidos”, acredita Marçal.

Apesar de acumular o registro de quase 6 mil profissionais que já foram infectados pelo coronavírus, a Secretaria Estadual de Saúde (SES) informa que é difícil contabilizar quantos servidores estão atualmente afastados por causa da doença. “Não temos esse número, que é muito dinâmico. Enquanto alguns trabalhadores de saúde adoecem, outros voltam ao trabalho, mas a taxa de afastamento do Estado não tem sido diferente de outros países e partes do Brasil”, frisou, em coletiva de imprensa online, a secretária-executiva de Vigilância em Saúde de Pernambuco, Luciana Albuquerque.

VEJA A ESCALADA DO ADOECIMENTO DOS PROFISSIONAIS DE SAÚDE EM PERNAMBUCO:

Abril

11/04: 227 infectados

18/04: 868 infectados

25/04: 1.433 infectados

Primeira quinzena de maio 

02/05: 2.097 infectados

09/05: 2.750 infectados

16/05: 3.050 infectados

Semana atual

18/05: 3.115 infectados

19/05: 3.929 infectados

20/05: 4.371 infectados

21/05: 4.905 infectados

22/05: 5.689 infectados

Médicos residentes 

Com o afastamento dos profissionais doentes, o Estado reconhece a necessidade de reforçar a assistência. Na segunda-feira (18), em entrevista à Rádio Jornal, o secretário de Saúde de Pernambuco, André Longo, classificou como complexa a necessidade de reorganização das escalas para dar atendimento aos pacientes com suspeitas ou diagnóstico de covid-19. “Autorizamos a contratação de mais de seis mil profissionais desde o início pandemia. Primeiramente chamamos 5 mil. Desses, adentraram três mil. Estamos convocando mais dois mil e oitocentos, além daquilo que a gente já havia chamado inicialmente”, disse o secretário. Ele ainda acrescentou que a maioria dos trabalhadores que se infecta tem boa recuperação e volta a atuar nos serviços. “Estamos conseguindo fazer reposições.” Ainda assim, Longo anunciou que o Estado está no processo de elaboração de chamada para os médicos residentes ajudarem nos plantões de covid-19.

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