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Letalidade do coronavírus é maior em bairros mais pobres do Recife

Ter mais casos e mais mortes nem sempre é sinônimo de alta letalidade. Ela se revela na crescente entre os mais vulneráveis

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 09/07/2020 às 7:30
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ALEXANDRE GONDM/JC IMAGEM
A epidemia não se expandiu nem causou impactos de forma homogênea na capital pernambucana - FOTO: ALEXANDRE GONDM/JC IMAGEM
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O bairro de Boa Viagem, na Zona Sul do Recife, é o que acumula maior quantidade de pessoas que já apresentaram, na cidade, quadros graves da covid-19, que geralmente levam ao internamento. Ele também é o bairro da capital que tem o maior número absoluto de mortes pela doença. Mas, quando analisamos o recorte dos dez bairros do Recife com maior volume de óbitos, Boa Viagem é o que tem menor letalidade: 18,2%. Nesse mesmo grupo, a maior taxa é de 36,6%, correspondente ao Vasco da Gama, Zona Norte do Recife – um bairro que nem aparece entre os dez com mais casos graves da infecção pelo coronavírus e que desponta na sétima posição no número absoluto de óbitos. Indicador usado para medir a gravidade da doença, a letalidade representa o percentual de pacientes que evolui para óbito em decorrência da infecção. Ou seja, a taxa mede a chance de uma pessoa morrer em consequência de uma enfermidade; nesse caso, a covid-19. Dessa maneira, com um panorama dos bairros, percebe-se que a epidemia não se expandiu nem causou impactos de forma homogênea na capital pernambucana.

“Há distritos sanitários, por exemplo, que têm uma variação significativa da incidência da doença, o que pode refletir a localidade onde a epidemia deslocava-se com maior transmissibilidade. Há diferenças importantes entre os distritos, sobretudo diferenças de letalidade, sendo mais expressivas nas localidades mais pobres e de menor renda, o que reflete uma desigualdade social”, reconhece o secretário de Saúde do Recife, Jailson Correia, sobre as áreas geográficas que compreende os bairros com maior frequência da covid-19, especialmente nos primeiros meses da pandemia, quando a capital vivenciou picos de casos e mortes pelo novo coronavírus.

Essa presença heterogênea da doença na cidade, entre locais com características semelhantes ou até dentro de um mesmo bairro, revela o quanto a condição de “estar doente” não é uniforme e depende de variáveis como a situação social e econômica, a raça, a idade, a genética ou a existência de doenças preexistentes. Esse conjunto impacta a vulnerabilidade de uma pessoa a uma determinada doença, assim como a capacidade de cada um ser capaz de responder quando a doença se manifesta. “O risco de adoecimento não é só mediado por falta de saneamento ou acesso a serviços de saúde. Estudos da epigenética (área que estuda mudanças no funcionamento de um gene) têm mostrado que fatores como a vulnerabilidade social podem desregular a resposta imunitária frente a uma doença. Há uma dificuldade para mobilização de defesas (do organismo) para lidar com agentes infecciosos. Isso leva a uma modificação da capacidade de as pessoas responderem à infecção”, explica Jailson.

O secretário acrescenta que a covid-19 é uma doença democrática, que atinge populações diversas, todas as classes sociais e não deixa sequer alguém livre do risco de se infectar. “Mas claro que ela é muito mais dura entre os mais pobres.” Nesta fase da epidemia, em que o Recife vivencia a retomada gradual das atividades socioeconômicas, a prefeitura reforçou as ações educativas para orientar comunidades. Na última segunda-feira (6), agentes comunitários de saúde e de saúde ambiental e controle de endemias visitaram moradores de palafitas onde fazer isolamento e distanciamento social contra o novo coronavírus é praticamente impossível. De porta em porta, eles levaram máscaras, kits de higiene e informações sobre covid-19 para a população que vive nas áreas de palafitas dos Coelhos, área central da cidade, e do Pina, na Zona Sul.

Até amanhã, a Secretaria de Saúde do Recife, através do Programa Saúde em Todo Lugar, vai distribuir mais 200 mil máscaras, além de montar as Estações Itinerantes de Orientações sobre a Covid-19, com o intuito de também alcançar áreas ainda mais vulneráveis. Para isso, tendas estão na Praça do Mercado São José, no Mercado Público de Beberibe (Praça da Convenção), Mercado de Casa Amarela, Feira do Cordeiro, Praça Irmã Douraci Joaquim (Mustardinha), Brasília Teimosa (na frente da Unidade de Saúde da Família Bernard Van Leer), Largo Dona Regina (Nova Descoberta) e Avenida Dois Rios (em frente à Igreja Católica de São Sebastião, no Ibura). O horário de funcionamento vai das 8h às 16h.

Ontem o Recife confirmou 253 novos casos da covid-19, sendo 225 casos leves e 28 graves, totalizando 22.092 pessoas já infectadas, além de 1.927 mortes causadas pela doença.

"A ação de porta em porta leva máscaras, álcool em gel e informação sobre a covid-19 às pessoas que vivem em localidades mais vulneráveis”, diz o secretário de Saúde de Recife, Jailson Correia.

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