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Covid-19: transmissibilidade pode ocorrer além dos 14 dias após surgimento de sintomas, diz estudo

Pesquisador Lindomar Pena sugere que, para pacientes sintomáticos, o mais seguro é propor três semanas de isolamento, a partir do início de sintomas, em vez de duas semanas, como vem sendo feito

Cinthya Leite
Cinthya Leite
Publicado em 02/10/2020 às 1:15
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ASCOM/FIOCRUZ PERNAMBUCO
Lindomar sugere 3 semanas de isolamento a partir dos sintomas - FOTO: ASCOM/FIOCRUZ PERNAMBUCO
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Pela primeira vez, um estudo descreve aspectos demográficos, clínicos e epidemiológicos da covid-19 no Brasil, a partir de dados sobre os primeiros 557 pacientes pernambucanos acometidos pela doença. Entre os achados, um detalhe da virologia se destaca: pacientes graves diagnosticados após 14 dias do início dos sintomas tinham carga viral mais alta do que pacientes com quadro leve da infecção. "Um dos pacientes teve amostra (RT-PCR) coletada no 39º dia de sintoma de covid-19, e o resultado foi positivo. Isso sugere que o mais seguro é propor três semanas de isolamento, a partir do início de sintomas, em vez de duas semanas, como vem sendo feito. Essa recomendação é importante porque há casos em que há excreção viral além do 14º dia das manifestações da doença", explica pesquisador da Fiocruz Pernambuco, Lindomar Pena, coordenador da pesquisa.

Ele ressalta que uma carga viral alta tende a causar quadros graves de covid, e reforça os cuidados para evitar a infecção. "É importante as pessoas reduzirem a exposição ao vírus." No estudo, a idade dos pacientes infectados variou de 27 dias a 97 anos. O sintoma mais comum foi tosse (74%), seguido de febre (67%), falta de ar (56%), dor de garganta (28%) e saturação de oxigênio abaixo de 95% (24%). Entre os casos letais, 86% dos pacientes tinham mais de 51 anos. O tempo médio do início da doença até o diagnóstico foi de 4 dias (com variação de 0 a 39 dias).

Em relação à distribuição dos casos de covid-19 nas diferentes faixas de renda domiciliar, sete possuíam domicílios com renda superior a 10 salários mínimos, demonstrando que os primeiros casos da doença em Pernambuco foram ligados à população de alta renda. "Nosso estudo contribui para a literatura científica mundial ao caracterizar a covid-19 nos trópicos, além de ajudar médicos e profissionais da saúde a enfrentar a atual pandemia, visto que o novo coronavírus continua a se espalhar na população", explica o pesquisador.

Intitulado Características epidemiológicas e clínicas dos primeiros 557 pacientes sucessivos com covid-19 no Estado de Pernambuco, Nordeste do Brasil (em tradução livre), o trabalho foi publicado, na última terça-feira (29), na revista internacional Travel Medicine and Infectious Disease. A pesquisa utilizou ferramentas de geolocalização para traçar o caminho percorrido pelo vírus desde o início da transmissão comunitária da covid-19 em Pernambuco, em março. As análises permitiram observar o efeito da renda na dinâmica da dispersão do vírus, que inicialmente chegou nos bairros com maior poder aquisitivo e só posteriormente se espalhou nas áreas mais vulneráveis.

Análise

"Através da análise geoespacial, usada para identificar a população mais acometida pelo vírus nos primeiros casos de covid-19 em Pernambuco, será possível direcionar políticas de prevenção e controle e fortalecer programas que visem rastrear indivíduos que viajaram para diferentes locais do mundo e retornaram ao Brasil sem passar por quarentena e testes de triagem. Isso é fundamental para impedir que doenças infeciosas, não endêmicas em nosso País, sejam introduzidas e causem epidemias em larga escala", explica o biomédico do Laboratório Central de Saúde Pública de Pernambuco (Lacen-PE) Jurandy Magalhães, também autor do estudo.

A pesquisa vem de uma cooperação entre a Fiocruz Pernambuco, o Lacen-PE e a Universidade de Pernambuco/Câmpus Serra Talhada, no Sertão.

Confira os casos da covid-19 em Pernambuco por município:

 

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