8 DE MARÇO

No Dia da Mulher, confira histórias de quem viaja sozinha

Viajantes relatam experiências inspiradoras sobre percorrer o mundo por conta própria, vencer medos e superar estereótipos

Mona Lisa Dourado
Mona Lisa Dourado
Publicado em 08/03/2020 às 11:17
Artigo
MONA LISA DOURADO/JC
A sensação de liberdade, autoconfiança e independência que desbravar o mundo sozinha proporciona é irreversível - FOTO: MONA LISA DOURADO/JC
Leitura:

Por Mona Lisa Dourado, da Coluna Turismo de Valor

Que coragem! Você é louca? Vai ficar angustiada. E se adoecer? Não é perigoso?

Toda mulher que viaja sozinha provavelmente já escutou uma frase assim. Pode até ter se questionado e se sentido insegura, mas seguiu adiante. E nunca mais parou. Porque a sensação de liberdade, autoconfiança e independência que botar o pé no mundo proporciona é irreversível, viciante até. Sim, cair na estrada em sua própria companhia também é sobre empoderamento feminino. Sobre o direito de mobilidade, de ir e vir e de desbravar novos destinos sem tutela nem controle. Sobre superar medos, descobrir-se e transformar-se.

Sozinha, mas não necessariamente solitária. A não ser que seja uma escolha. Respeitar os próprios limites também é aprendizado de quem anda só. Ao mesmo tempo em que estão livres para definir horários e roteiros, fazer o que bem entendem no próprio ritmo e mudar de planos sem dar satisfação a ninguém, mulheres que viajam de forma autônoma se dizem mais abertas a novas experiências e amizades. Tenham ou não namoradxs, maridxs ou companheirxs. Pouco importa. Vale mais sentir-se plena.

Respeitar os próprios limites também é aprendizado de quem anda só

É o que contam as viajantes de diferentes idades, origens e profissões que colaboram com a coluna nesta edição especial do Dia Internacional da Mulher. De um jeito ou de outro, todas citam a alegria de vencer inseguranças e desbravar o mundo de uma perspectiva distinta. Inspiradora. Fazem parte de uma estatística que já aponta a preferência de 18% das mulheres no Brasil, em média, por viajar sós, contra 12% entre os homens, segundo o Ministério do Turismo.

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O crescimento do número de turistas independentes ajuda a desmistificar o estereótipo da "mulher que viaja sozinha". Não precisam ser "malucas", "aventureiras" nem "heroínas". Só necessitam ter seu acesso aos espaços públicos garantidos, sem preconceito nem ameaça.

Tema recorrente quando se trata de mulheres em qualquer contexto, a segurança é uma preocupação, principalmente para quem ainda está em busca de se livrar das amarras e fazer o primeiro voo solo. Em um mundo machista, o simples fato de ser mulher pode representar um risco, até sem sair de casa. As estatísticas de violência doméstica e feminicídio estão aí para provar. Mesmo enfrentando adversidades, elas reagem, protestam, unem-se, informam-se e, por que não, viajam.

Chance de conhecer gente boa

ACERVO PESSOAL
Servidora pública, há 8 anos desbrava o mundo por conta própria. Na foto, está em Ushuaia, na Argentina - ACERVO PESSOAL

Por Cintia Meneguelli, 31 anos

Minha primeira viagem sozinha foi por “acidente”, pois a amiga que me acompanharia teve que cancelar. De passagem comprada, resolvi ir assim mesmo. Desde então, viajar sozinha se tornou uma necessidade. É uma forma de satisfazer minha vontade de conhecer o mundo e, ao mesmo tempo, a mim mesma. Longe de tudo e de todos que conheço, me (re)descubro.

Muitos pensam que é uma experiência solitária, mas só vai ser se você quiser. Sem companhia, fico mais aberta a interagir com as pessoas de todas as partes do mundo que encontro pelo caminho. E assim conheci pessoas maravilhosas! Também nunca faltou alguém disposto a ajudar quando precisei.

Como mulher, infelizmente, ainda há aquela preocupação extra com a segurança. Mas viajar sozinha é descobrir, na prática, que logo após o medo e fora da zona de conforto estão as experiências mais incríveis e enriquecedoras. Além disso, é um reconfortante lembrete de que o mundo está repleto de pessoas boas.

Fora da zona de conforto 

ACERVO PESSOAL
Editora do Blog de Viagens Janelas Abertas. Na foto, em Jodhpur, cidade do estado do Rajastão, na Índia - ACERVO PESSOAL
Por Luísa Ferreira, 30 anos

Viajar sozinha já foi, para mim, algo assustador. E justamente por isso, escolhi fazê-lo.

Ir para longe da minha zona de conforto foi uma forma que encontrei de aprender alidar com a ansiedade e o medo do desconhecido. Parece que tem dado certo, já quedesde então conheci dezenas de países na minha própria companhia.

Continuo viajando sozinha para superar medos e desenvolver a autoconfiança e a independência. Mas também porque viajar só me permite mergulhar mais profundamente na cultura local, fazer novos amigos e viver experiências que nunca imaginei.

Além disso, me dá liberdade para decidir o que fazer com base nos meus próprios desejos. E, assim, entender mais sobre quem sou longe da rotina, padrões expectativas. Porque quando ninguém nos conhece, a gente pode ser quem quiser.

Até quem a gente verdadeiramente é. Sempre há quem diga que o mundo é perigoso demais para que mulheres saiam sozinhas por aí. Infelizmente, o machismo torna perigoso existir como mulher, onde quer que a gente esteja. Mas a gente existe, e resiste.

Muito além do convencional 

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Ilustradora e designer gráfica, viaja sozinha desde os 20 anos e acaba de se mudar do Recife para uma temporada em Barcelona. Na foto, está em Lisboa - ACERVO PESSOAL
Por Hallina Beltrão, 40 anos 

Viajar sozinha pra mim é uma oportunidade incrível de encontro comigo mesma. Uma forma de meditação. Eu sou uma pessoa que ama viajar, mas particularmente não gosto muito de lugares turísticos.

Quando visito uma cidade, gosto de fazer coisas que as pessoas que moram no lugar fazem, como ir ao cinema, supermercado, lugares escondidos onde só os moradores vão. Por isso, sempre foi um pouco difícil viajar com mais gente. Muitas vezes eu gosto de passar semanas ou até mais de um mês na mesma cidade conhecendo a cultura, os hábitos, os bairros profundamente.

Foi assim com Bogotá, Berlim, Havana, Roma e tantos outros lugares que eu visitei. Como viajo sozinha, procuro sempre saber sobre possíveis riscos e formas para me proteger e o que devo fazer para ficar mais tranquila em relação à viagem.

Mas todas as precauções não me livraram de, por exemplo, ser pega de surpresa por um furacão em plena Havana, o Irma, em 2017. Na época, eu estava em Cuba em uma viagem de férias e me vi sozinha no meio de tudo. Foi bem assustador. Mas no fim tudo ficou bem e ainda conheci gente querida que são meus amigos até hoje.

Sonho é para ser vivido 

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Jornalista e relações públicas, já esteve por conta própria em 8 países e 17 Estados. A foto é nas Pirâmides de Teothiucan, no México - ACERVO PESSOAL

Por Angélica Renepont, 38 anos

Quando paro lembrar da minha primeira viagem “solo”, ainda sinto como se fosse hoje... o coração batendo mais forte e o friozinho na barriga. Afinal, não é sem medo que embarcamos nessa aventura. A minha primeira trip não foi planejada, apenas aconteceu. Não foi motivada pelo desejo de estar “sozinha” na minha companhia (se bem que descobri que isso faz um bem danado, ajuda a crescer e se conhecer melhor). Ela foi motivada pela convicção de não deixar de viver meus sonhos por falta de companhia.

Foi quando essa “ficha” caiu que decidi ir mesmo com medo. E, com a vivência dos últimos seis anos me permitindo essa experiência, posso garantir que foi uma das decisões mais libertadoras e enriquecedoras da minha vida. Costumo dizer às temerosas que nunca viajei sozinha. Na verdade, no máximo a gente pega o avião, ônibus ou carro sozinha; mas no caminho, se estivermos de coração aberto, sempre haverá bons encontros, novas amizades, descobertas e experiências te esperando na esquina.

Informação contra a adversidade

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Instrumentadora cirúrgica argentina que sempre busca viagens fora do roteiro <aspas>clássico<aspas>. A foto é na Pedra Furada, em Jericoacoara, no Ceará - ACERVO PESSOAL

Por Laura Bochetti, 27 anos

Tomar a decisão de empreender uma viagem só não foi fácil. No começo eu via a ideia como algo que uma vez na minha vida queria fazer, uma meta distante a cumprir. Logo aproximando-me da data de minhas férias pensei, por que não? Muita gente o faz! E contei... contei à minha família que queria fazer uma viagem sozinha. A ideia não agradou nada!

Sem contar com o apoio de minha família, decidi não viajar. Meu problema era que minhas amizades não podiam organizar uma viagem comigo, seja por questões econômicas ou porque não concordávamos nas datas. Então um mês antes desses dias tão esperados de férias, depois de um ano de trabalho duro, eu me disse: "não posso deixar de viver experiências, de conhecer outros destinos porque não tenho com quem ir".

E assim foi como tomei a melhor decisão: viajar sozinha!!

A verdade é que me disseram que eu não ia aguentar, que ia me aborrecer, que era perigoso, e muitas outras coisas, mas não me arrependo. Eu tive medo, dúvidas, mas eu sempre tentei buscar muita informação para ter todas as ferramentas para poder me defender de qualquer adversidade que possa surgir. Temos de ter cuidado? Sim, mas quando viajamos sozinhos, nunca estamos sozinhos, há sempre pessoas dispostas a partilhar e a passar bons momentos. Eu conheci muitas! É uma experiência única e maravilhosa e cada viagem é diferente, deixa novas lembranças e experiências felizes. Além disso, nada melhor que viajar só para reencontrar-se e reconectar-se consigo mesma!

Um encontro com você mesma 

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Professora, viaja na própria companhia desde os 26 anos. Na foto, está nos Lençóis Maranhenses - ACERVO PESSOAL

Por Wanderleia Ciríaco, 35 anos

“Viajar é trocar a roupa da alma”. Essa frase do grande escritor Mário Quintana, realmente fez sentido quando descobri que viajar sozinha te transforma. Que eu poderia ser a minha melhor companhia, vencer os meus medos, frustrações e me abrir para o novo, para novos saberes e amizades.

É claro que surgem várias incertezas, questionamentos e que infelizmente mulheres são mais vulneráveis à violência. Mas superar as dificuldades, acreditar que existem horizontes que te libertam das tuas próprias inseguranças é a sensação de que nada será capaz de te limitar. Viajar sozinha é realização, superação, descobertas, um encontro com o seu eu, com pessoas e lugares que irão te transformar em alguém cada dia melhor.

Ainda falta criar coragem 

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Fotógrafa que ama viajar. Na foto, está em Amsterdã, na Holanda - ACERVO PESSOAL

Por Álita Delmiro Sodré da Mota Menezes, 39 anos

Amo viajar e vivo dizendo às pessoas para viajarem. Viajar renova a alma, nos deixa mais leves, aprendemos a dar mais valor à vida do que às coisas materiais. Numa viagem, além de conhecermos novos lugares, também aprendemos sobre a história, a cultura, a gastronomia, vemos como as pessoas vivem naquele lugar e o melhor, nunca esquecemos de uma viagem. Desde que me casei em 2005, sempre tento fazer uma viagem por ano a algum lugar que nunca fui. Quando não dá para ir, agente repete algum lugar. Eu e meu marido já fizemos 5 cruzeiros e sempre quero fazer outro.

Até 2018, eu só viajava com meu marido ou família. Mas, em agosto de 2018, fiz a minha primeira viagem só com as amigas e foi surreal. Tive uma sensação de liberdade, sem cobranças e sem filhos pra dar atenção. Podia fazer os meus horários e ter minhas escolhas pra onde ir. Em 2019, repetimos e pretendo fazer isso todos os anos daqui para frente.

Outra meta de viagem que tenho é criar coragem para viajar sozinha. Tenho vontade, mas ainda me falta a coragem por não saber como será. Tenho amigas que já fazem isso e dizem que é maravilhoso. Tenho medo de acontecer algo e estar sozinha para resolver.

De mãe para filha

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Representante de vendas costarriquenha, que sempre viaja com a filha, hoje com 16 anos. Na foto, fazendo um tour de vinhos - ACERVO PESSOAL

Por Cynthia Vargas

Quando decidi viajar pela primeira vez, fui à Escócia. Como nunca havia viajado e fui com uma amiga nas mesmas condições, as pessoas diziam para não irmos, que se tratava de outro país muito distante, que não dominávamos a língua nem tínhamos experiência e íamos nos dar mal. Diziam coisas para impedir que fôssemos, mas nós fomos. Vivi a melhor experiência da minha vida.

Agora com a minha filha tento fazer com que ela viva as experiências, rompa mitos e que cuide de si, para que nunca limite os seus sonhos.

As pessoas falam tantas coisas para te colocar medo por puro preconceito. Dizem que por eu ser mulher e levar a minha filha que a exponho e a coloco em risco, só porque a ensino a não ter medo de viajar sozinha. Ela adora ser independente.

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