COMEMORAÇÃO

Dia da Mulher: elas estão mais livres e donas do próprio corpo

A descoberta da autonomia do corpo feminino é revolucionária. Os movimentos de aceitação, em todas as suas dimensões, estão no centro do debate da luta feminista

Ciara Carvalho
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Ciara Carvalho
Publicado em 06/03/2020 às 11:11 | Atualizado em 12/03/2020 às 11:42
DIEGO CRUZ/DIVULGAÇÃO
Larissa Santos, do Coletivo Bonita de Corpo, sofreu preconceito na infância e na adolescência por ter um corpo diferente das amigas. Aprendeu sozinha a descobrir seu próprio corpo - FOTO: DIEGO CRUZ/DIVULGAÇÃO

Um corpo que fala. Um não, muitos. Em cores, formas, tamanhos diversos. Mulheres magras, gordas, brancas. Mulheres negras, altas, baixas. O corpo como território de luta. Expressão de força, autonomia e liberdade. No Carnaval, o recado estava em toda parte. Nas ladeiras, nas esquinas, nas ruas. Seios à mostra, corpos mais desnudos, libertos de uma hipersexualidade que está nos olhos de quem julga. Não é a roupa (ou a falta dela) que vai dizer o que a mulher está querendo ou não. Nem é o padrão estético (ou o que escapa a ele) que vai definir sequer quem é essa mulher. A autonomia do corpo feminino é caminho sem volta. Desafia não só o machismo. Mas transforma o olhar que as próprias mulheres reservam para si.

Em 2015, a produtora cultural Dandara Pagu sentiu na pele o que é vivenciar a liberdade desse corpo. Sofreu violência policial ao sair às ruas, em Olinda, durante o Carnaval, com os seios de fora e uma máscara de vaca. Constrangida, quis reagir, mas terminou vestindo a camisa dada por um amigo. Só não recuou. No ano seguinte, nascia o Bloco Femmi Vaca Profana. Apenas sete meninas. Com os seios à mostra. Agora, elas somam milhares e, este ano, uma das belas cenas do Carnaval de Olinda foi uma ciranda dançada por centenas de mulheres, seios expostos ou não, na Praça dos Milagres.

SER QUEM É

“Nós, mulheres, precisamos fazer essa provocação diariamente: ‘Até que ponto esse corpo é nosso?’ Porque, toda vez que ele é tratado como objeto, ele é mais fácil de ser descartado. É a morte anunciada dessa mulher”, afirma Dandara, ressaltando que a reflexão proposta pelo bloco extrapola os dias de folia. “Essa militância permanece o ano inteiro. É uma mensagem poderosa. Somos donas do nosso corpo, independentemente de julgamentos. Quando a mulher se dá conta da força que carrega, a postura diante de si e dos outros muda completamente”, reforça.

Essa liberdade de “ser quem é” está na raiz do coletivo Bonita de Corpo. De tanto ouvir que “era bonita de rosto”, a fotógrafa Aline Sales colocou o próprio corpo na pista para desafiar os padrões estéticos de beleza. O grupo combate a gordofobia, com ações que valorizam a autoestima, principalmente entre as mulheres, já que são elas o alvo de maior julgamento estético. “Quantas de nós já não nos privamos de viver certas situações por não estarmos dentro do padrão? Essa ideia de que somos minoria é uma construção irreal. A maior parte da população brasileira está acima do peso. Os corpos gordos existem e precisam ser respeitados”, afirma Aline.

E não adianta só ter autoestima. Porque esse corpo, mesmo que se ame muito, ainda sofre diversas violências, alerta. Aline chama a atenção, por exemplo, para o mercado da moda, que ainda não oferece às mulheres gordas a mesma variedade de roupas e estilos disponibilizada para os corpos magros. “Eu mesma sofri muito, por exemplo, para conseguir encontrar uma hot pant para usar no Carnaval. É como se a mulher gorda não tivesse direito à mesma imagem de beleza.”

Uma “cegueira”, que, na avaliação da jornalista Geisa Agrício, não é mais aceitável. “Não abrir espaços para esses outros corpos vai continuar sendo problematizado pelas pessoas que estão dizendo: eu não preciso desse corpo irreal para encontrar a minha felicidade e a minha existência”, defende a jornalista. Ela lembra que as mulheres gordas eram obrigadas a se esconder, com vergonha dos próprios corpos. “A gente não tinha outras referências. Era um corpo para ser negado. A partir do momento que essa visão começa a mudar, surgem outras demandas. As pessoas começam a exigir que também sejam vistas nas marcas que usam, nas escolhas de consumo que fazem.”

São vozes que se multiplicam. Basta olhar nas artes, nas redes sociais, nas ruas. Os movimentos de aceitação do corpo feminino, em todas as suas dimensões, estão no centro do debate da luta feminista. “Nenhuma liberdade é total se não incluir a autonomia do corpo da mulher. O feminino não é feio, não é vulgar. Precisamos sempre perguntar: Por que só o nu feminino é objetificado? É claro que isso é uma construção social. A maldade está nos olhos de quem vê”, assinala a sexóloga Maria Eduarda Lopes.

Ao olhar para o curso da história, ela diz que a visão estreita dos corpos femininos está diretamente associada ao processo de silenciamento da mulher. Porque a liberdade do corpo também é um ato político, de transformação. “Quanto mais as mulheres descobrem o próprio corpo, o prazer que podem sentir com ele, mais elas se tornam seguras, independentes. Essa autonomia, claro, vai se refletir nas relações pessoais, de trabalho, em todos os espaços sociais”, pontua a sexóloga. Numa sociedade machista como a nossa, essa descoberta é revolucionária.

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