ITÁLIA

Veneza não quer voltar ao "normal"

Moradores de uma das cidades mais visitadas do mundo pedem modelo de turismo menos predatório

Mona Lisa Dourado
Mona Lisa Dourado
Publicado em 28/06/2020 às 9:00
Análise
JORG HAMELTALY/PIXABAY
População de Veneza foi reduzida a menos de um terço em 70 anos - FOTO: JORG HAMELTALY/PIXABAY
Leitura:

Imagina abrir a porta e se deparar com câmeras apontadas para dentro de casa. Ou ter que se espremer em meio a uma multidão para chegar à padaria. Não poder relaxar em silêncio no banco da praça nem na areia da praia. Em casos extremos, ser obrigado a deixar a própria cidade por causa do preço exorbitante do aluguel e da escalada do custo de vida. Por essas e outras situações-limite, em alguns dos mais famosos destinos turísticos do mundo, os moradores não querem voltar ao “normal”.

>> Novo normal já é realidade. Confira fotos de atrativos turísticos reabertos no Brasil, Europa e Ásia

>> Número de estrangeiros no Brasil recua mesmo antes da pandemia. País será barrado na retomada do turismo internacional na Europa

>> Veneza assiste vida renascer nos canais e coronavírus nos ensina a repensar formas de estar no mundo

São lugares onde, ironicamente, o período de quarentena deu um respiro aos habitantes, sufocados pelo overturismo.

O excesso de turistas causa prejuízos como a degradação da qualidade de vida, infraestrutura sobrecarregada, especulação imobiliária, gentrificação e comportamentos abusivos (barulho, desrespeito às regras) que oferecem riscos ao sossego e à segurança dos residentes, além de danos irreversíveis ao patrimônio cultural”
define o professor do departamento de Hotelaria e Turismo da UFPE, Luís Souza

Barcelona, Lisboa, Berlim, Madri, Amsterdã e Dubrovnik estão entre os locais que sofrem com o problema, mas Veneza é o exemplo mais emblemático de uma cidade praticamente transformada em “museu para turista ver”. Um processo de desumanização nada positivo.

ELKLEIN/PIXABAY
Durante a pandemia, cidade encontrou a paz que não via há muitas décadas - ELKLEIN/PIXABAY

Em 70 anos, o destino viu a população minguar a menos de um terço (de 175 mil para 51 mil pessoas), enquanto a média anual de visitantes extrapola os 30 milhões. A maioria trazidos por grandes cruzeiros para passeios de apenas algumas horas, que quase não deixam recursos na cidade, mas são suficientes para superlotar as vielas estreitas, poluir os canais e danificar as já fragilizadas fundações dos edifícios locais.

Tudo o que os moradores não querem mais depois de experimentar a paz imposta pela pandemia. Mesmo quem nunca foi à Veneza se impressionou com as imagens das águas límpidas e do ressurgimento da vida marinha que correram o mundo.

ANDREAS H./PIXABAY
Sem o número exorbitante de turistas nem grandes navios, Veneza assistiu a vida renascer nos canais - ANDREAS H./PIXABAY

Com a perspectiva da reabertura aos turistas estrangeiros, manifestantes foram às ruas. Ao longo do cais, fizeram um cordão humano com cartazes em que se liam os slogans “Não aos grandes navios” e “Veneza não se come”.

REPRODUÇÃO
População foi às ruas protestar contra o turismo massivo - REPRODUÇÃO

É o apelo contra a massificação e por um modelo mais equilibrado de turismo, como o que deseja a funcionária pública Giulia Vianello.

CORTESIA
Giulia Vianello quer uma cidade adequada para os moradores - CORTESIA

"Veneza durante esses meses de emergência da covid-19 me fez tremer e sonhar. Senti medo de contágio, em uma cidade que, devido à sua arquitetura sinuosa, força as pessoas a se tocarem continuamente. Mas o lockdown também me fez acariciar o sonho de morar em uma cidade adequada para os habitantes. Andar pelas ruas silenciosas, observar o Grand Canal lisinho, caminhar em uma praça semideserta de San Marco foi um prazer que levarei em meu coração”, resume a veneziana, na esperança de um “renascimento” que possibilite a convivência harmoniosa com os visitantes, sem comprometer o bem-estar dos moradores.

ANDREAS H./PIXABAY
Sem o número exorbitante de turistas nem grandes navios, Veneza assistiu a vida renascer nos canais - FOTO:ANDREAS H./PIXABAY
REPRODUÇÃO
População foi às ruas protestar contra o turismo massivo - FOTO:REPRODUÇÃO
REPRODUÇÃO
Veneza não se come e Não aos grandes navios eram os slogans - FOTO:REPRODUÇÃO
ELKLEIN/PIXABAY
Durante a pandemia, cidade encontrou a paz que não via há muitas décadas - FOTO:ELKLEIN/PIXABAY
CORTESIA
Giulia Vianello quer uma cidade adequada para os moradores - FOTO:CORTESIA

O jornalismo profissional precisa do seu suporte.

Assine o JC e tenha acesso a conteúdos exclusivos, prestação de serviço, fiscalização efetiva do poder público e muito mais.

Apoie o JC

Comentários

Últimas notícias