ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DO TURISMO

Turismo internacional em queda no governo Bolsonaro mesmo antes da pandemia

Na contramão do resto do mundo, Brasil registrou retração na chegada de estrangeiros em 2019, apesar de isenção de vistos a visitantes dos principais países emissores

Mona Lisa Dourado
Mona Lisa Dourado
Publicado em 25/06/2020 às 8:00
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ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
Enquanto País patinava em terreno negativo, o mundo registrou, em média, aumento de 3,6% na entrada de visitantes internacionais - FOTO: ALEXANDRE GONDIM/JC IMAGEM
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A liberação de vistos de entrada para turistas vindos dos Estados Unidos, Canadá, Japão, Austrália, China e Índia foi alardeada no ano passado pelo governo federal como a panaceia que faria o Brasil multiplicar o número de visitantes internacionais. Na prática, o País teve um desempenho pífio na atração de estrangeiros. Isso antes mesmo da covid-19 se tornar um problema mundial. A constatação frustrante vem dos dados da Organização Mundial de Turismo (UNTWO, na sigla em inglês), que apresentou esta semana o desempenho do setor em 2019 e também no primeiro quadrimestre de 2020, já sob os efeitos da pandemia.

O Brasil recebeu no ano passado 6.353 turistas vindos do exterior, contra 6.621 em 2018, uma queda de 4,1%. Conseguiu ser pior que a performance dos últimos anos, marcada pela estabilidade. 

Desta vez, não adianta culpar só as gestões anteriores ou a conjuntura externa. Enquanto o País patinava em terreno negativo, o mundo registrou, em média, aumento de 3,6% na entrada de visitantes internacionais. Se a comparação for com os vizinhos sul-americanos, a vergonha é maior. Argentina teve aumento de 6,6%, com 7,4 milhões de turistas, Colômbia, de 3,4%, e até o Paraguai, menor e menos diverso que os demais, cresceu 2,9%.

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O que justifica os resultados no Brasil se a própria UNTWO atesta que a isenção de vistos tende a aumentar em até 25% a entrada de visitantes beneficiados? É que a facilidade burocrática sozinha não supera uma imagem internacional negativa, como a que o País vem cultivando. 

Foto: Adema/Governo de Sergipe
Manchas de óleo se espalharam por 132 pontos da costa brasileira - Foto: Adema/Governo de Sergipe

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Ao longo de 2019, não faltaram notícias nos principais veículos de imprensa do planeta sobre a turbulência político-econômica vivida no Brasil, o desrespeito aos direitos humanos, a violência urbana e os desastres ambientais, como o derramamento de óleo no Nordeste e as queimadas na Amazônia. Fatores como esses são determinantes na escolha dos turistas. Ainda mais daqueles com maior poder aquisitivo e mais habituados a viajar, como os vindos das principais nações emissoras, que o País tanto cobiça. Afinal, quem quer ser surpreendido nas férias por protestos e violência de todos os lados na rua, piche na praia ou incêndio na floresta?

Soma-se à questão pragmática da segurança, a tendência mundial de valorização do turismo consciente, que leva em conta a preocupação com a sustentabilidade e o desenvolvimento social nos destinos.

Corta para 2020.

Quando se considera o impacto da covid-19, os números da UNWTO são os esperados para um período de paralisação quase total das atividades. Na 46ª posição entre os países que contabilizam maior receita com o turismo, o Brasil registrou queda de divisas de 31,8% entre janeiro e abril. Já os gastos dos brasileiros no exterior caíram 46,1% em comparação com o mesmo período de 2019.

No mundo, o quadrimestre foi marcado por retração de 44% de chegadas internacionais, com prejuízo estimado em US$ 195 bilhões. Em abril, o primeiro mês sob as medidas mais restritivas de isolamento social, a queda na movimentação foi de 97% .

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Em abril, o primeiro mês sob as medidas mais restritivas de isolamento social, a queda nas chegadas internacionais foi de 97% - FERNANDO FRAZÃO/AGÊNCIA BRASIL

Primeiros mercados a serem atingidos pela pandemia, Ásia e Pacífico registram os piores resultados entre janeiro e abril, com recuo de 51%. A Europa teve a segunda maior queda, de 44%, seguida pelo Oriente Médio (-40%), Américas (-36%) e África (-35%).

TURISMO EM 2020

Para o fechamento do ano de 2020, a UNWTO, projeta reduções no número global de turistas internacionais de 58% a 78%, dependendo dos cenários apresentados pelos países. A entidade ainda prevê que somente entre dois e três anos o turismo mundial comece a voltar a patamares pré-pandemia. O ritmo dessa recuperação, no entanto, vai depender da seriedade no controle do surto, com a desaceleração da taxa de transmissão e o respeito às novas normas de segurança sanitária.

EVARISTO SA/AFP
Bolsonaro vai a manifestação de apoiadores em Brasília - EVARISTO SA/AFP

Tudo o que o Brasil não tem feito, a começar pelo presidente da República, que incita aglomerações e se recusa a usar máscara em ambientes públicos, ainda que a lei o determine.

Nunca é demais lembrar que o País atravessa a pior fase da pandemia sem um titular no Ministério da Saúde, além de ameaçar deixar a OMS. Nesta quinta-feira (25), completam-se 41 dias da saída de Nelson Teich. Nesse período, passamos a ocupar o segundo lugar no número de mortes (53.874), atrás apenas dos EUA (121,8 mil). Somente entre a terça (23) e a quarta (24), foram 1.103 novos óbitos e 40.995 novos casos, de um total de 1.192.474.

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Lá fora, quase 50 destinos se preparam para retomar o turismo. Na União Europeia, está em fase final a elaboração da lista de países que poderão cruzar as suas fronteiras na abertura aos estrangeiros fora do bloco, marcada para a próxima quarta-feira (1/7). Pelo andar (titubeante) da carruagem, dá para prever o nosso lugar na fila desse pão. É praticamente certo que o Brasil ficará de fora, como já foi excluído pela Grécia. Até o "irmão" Portugal declarou que vetará brasileiros se a Comissão Europeia assim determinar. EUA e Rússia provavelmente estarão conosco no clube do ostracismo. Já os visitantes da China, Uganda, Cuba e Vietnã devem ser aceitos, segundo publicação do jornal The New York Times (NYT).

 

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Presidente da Embratur e lutador de MMA em live - REPRODUÇÃO

Enquanto isso, o que anda fazendo Gilson Machado, o presidente da nova Embratur, agora Agência Brasileira de Promoção Internacional do Turismo? Algumas lives nas redes sociais, supostamente com especialistas em turismo. Entre eles, o lutador de MMA Vítor Belfort, a quem concedeu o título de Embaixador do Turismo Brasileiro nos Estados Unidos, onde, aliás, brasileiros também estão impedidos de entrar. A não ser que tenham passaporte diplomático. Mas isso já é outro capítulo da mesma história.

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Bolsonaro foi a várias manifestação de apoiadores em Brasília que negavam a covid-19. - FOTO:EVARISTO SA/AFP
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Passageiros e funcionários circulam vestindo máscaras contra o novo coronavírus (Covid-19) no Aeroporto Internacional Tom Jobim- Rio Galeão. (Fernando Frazão/Agência Brasil) - FOTO:FERNANDO FRAZÃO/AGÊNCIA BRASIL
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Presidente da Embratur e lutador de MMA em live - FOTO:REPRODUÇÃO

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