SÉRIE

'Better Call Saul' prova não ser só um puxadinho de 'Breaking Bad'

Com sua quinta temporada já disponível e alcançando o número de sua série mãe, 'Better Call Saul' vai além de ser apenas um spin-off de 'Breaking Bad'; confira crítica

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 27/04/2020 às 16:04
Crítica
Greg Lewis/AMC/Sony Pictures Television
'Better Call Saul' chega em sua quinta temporada - FOTO: Greg Lewis/AMC/Sony Pictures Television
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Ao encerrar seu quinto ano, Better Call Saul, spin-off do fenômeno Breaking Bad, alcançou sua série mãe em números de temporadas. Na verdade, a história de origem do advogado Saul Goodman (Bob Odenkirk) e do submundo do tráfico em Albuquerque, Novo México, será finalizada ainda com uma sexta temporada, ultrapassando as cinco da trama de Walter White. Talvez o apelo popular não seja o mesmo, claro, mas Better Call Saul prova, mais uma vez, que nunca foi apenas um puxadinho de Breaking Bad, mas um vizinho com vida própria. Além de ser dono de particularidades narrativas e estilísticas que muitas vezes se mostram mais maduras do que as de seu material de origem.

Lançada em 2015 por meio de uma parceria do canal AMC com a Netflix, Better Call Saul faz Vince Gilligan, criador de Breaking Bad, retornar ao universo que o consagrou, ao lado do antigo parceiro Peter Gould, que também assina a criação. Agora é hora de saber como o carismático e trambiqueiro Saul Goodman se tornou o que é. Na verdade, antes de Saul Goodman, ele era Jimmy McGill, brilhante, mas escanteado advogado que vivia a sombra do irmão e lutava para ser reconhecido dentro do direito. McGill ainda demonstrava uma certa aptidão teatral que se combinava bem com uma quedinha pela maracutaia. Esse seu jeito "especial" de lidar com a lei acaba por levá-lo a caminhos em que as fronteiras morais ficam cada vez mais turvas e o crime vai se tornando algo muito relativo.

Em paralelo, há também a história de Michael Ehrmantraut (Jonathan Banks), outra figura saída da trama de Breaking Bad e seu envolvimento gradual com o submundo do crime, em especial com grande traficante Gustavo Fring (Giancarlo Esposito), que no futuro se tornaria a maior dor de cabeça de Walter White. São dois mundos, o dos tribunais e os das ruas, que vão correndo ora paralelamente, ora costurados. E a partir dessa estrutura narrativa de uma duplicidade que se aproxima e se distancia, Better Call Saul consegue evocar uma energia dramática muito própria.

Dois mundos?

Se em Breaking Bad, vemos um certo estudo de personagem sobre um homem que entra de cabeça no crime e precisa lidar com as consequências disso, em Better Call Saul as coisas não são tão claras assim. Lá, o crime era uma realidade concreta que, no máximo, precisava ser escondida. Aqui, as coisas estão mais no terreno da ambiguidade, não de uma realidade só, mas duas que se desenrolam paralelamente e viram motivo de tensão quando se aproximam. Ainda assim, o mundo Ehrmantraut e o mundo McGill quando não se chocam, já carregam grandes tensões e conflitos por si só, o que confere um senso de amplitude e complexidade à obra. Várias tônicas e até gêneros são bem equilibrados dentro da série, do filme de tribunal ao drama mafioso.

Mesmo com essa diversidade, há uma unidade na forma como esses dois mundos são encenados. Gilligan usa aqui uma construção visual que parecia ser empregada como tentativa e erro em Breaking Bad, mas que agora está bem madura e consciente. Ao mesmo tempo em que estamos em lugares muito fincados em uma abordagem real no campo arquitetônico, o olhar é estilizado e os planos constantemente carregam outras dimensões pictóricas e simbólicas para além do trivial.

Os aspectos mais banais de uma delegacia ou dos corredores de um fórum são enquadrados por grandes angulares ou ângulos inusitados, com a câmera dentro de uma caixa de correspondência, por exemplo. Há também um apelo muito grande para enquadramentos com espaços vazios encurralando personagens ou o céu se impondo, carregando uma ambiguidade que ora passa um sentimento de poder, mas também de opressão ou de estar perdido em um cenário vasto. Um bem trabalhado reflexo da ambiguidade temática no contexto da encenação.

NETFLIX/REPRODUÇÃO
O apelo estilizado de Better Call Saul - NETFLIX/REPRODUÇÃO

Nessa busca por uma grande amplitude narrativa, os dois lados carregam laços afetivos sempre colocados a prova dentro de um universo de escolhas morais. Há uma dedicação e um carinho no tratamento de personagens que orbitam os protagonistas oficiais e, em muitos momentos, se tornam os verdadeiros protagonistas. Nacho Varga (Michael Mando) vive uma trama de redenção que ilustra a violência em um campo muito material, com seus problemas sendo de uma ordem de resolução muito física, entre escalar prédios e sabotar medicamentos. Já Kim Wexler (Rhea Seehorn), parceira de McGill, tem seus conflitos em um contexto perpassado mais pelo campo psicológico e ético. É uma diversidade que poderia afundar o todo, dissipando a atenção e a empatia, mas são desenvolvidos com uma eficiência que não permite isso.

Agora, rumando ao final, esses dois mundos parecem ter se chocado de uma forma irreversível e a tensão, um dos principais motores de Better Call Saul, ganha contornos ainda maiores. O advogado assume profissionalmente a alcunha de Saul Goodman, diminuindo muito o que ainda resta de Jimmy McGill. As dualidades crime/lei, moral/imoral, renome/fracasso estão menos delineadas, a sobrevivência parece ser a tônica que vai suprimir isso tudo. Já sabemos aonde tudo vai chegar, agora resta saber como foi o finalzinho dessa estrada até lá.

 

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