WASP NETWORK: REDE DE ESPIÕES

'Wasp Network' propõe jogo de aparências em drama de espionagem

Baseado em aparato cubano de espionagem nos anos 1990, 'Wasp Network: Rede de Espiões' dramatiza tensões nas relações Miami-Cuba; confira crítica

Rostand Tiago
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Rostand Tiago
Publicado em 23/06/2020 às 14:51 | Atualizado em 26/06/2020 às 10:39
RONIN NOVOA WONG/NETFLIX/REPRODUÇÃO
PAPEL Wagner Moura interpreta desertor cubano em Wasp Network - FOTO: RONIN NOVOA WONG/NETFLIX/REPRODUÇÃO
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Desde quando começou a circular pelos festivais, Wasp Network: Rede de Espiões despertou a curiosidade em ver como o diretor francês Olivier Assayas conduziria um filme que foge dos contornos mais intimistas de seus últimos trabalhos, abraçando uma narrativa ligada mais a convenções de gênero, como neste drama de espionagem. O filme está disponível desde a última sexta-feira na Netflix. Para a empreitada, o diretor reuniu um star system de atores latinos queridinhos por Hollywood, passando pela cubana Ana de Armas, o mexicano Gael García Bernal, o venezuelano Édgar Ramirez, e o brasileiro Wagner Moura, além da espanhola Penélope Cruz. Um elenco diverso para construir um bom mosaico sobre aparências e a artificialidade de discursos simplistas, mas que acaba se perdendo na própria fragmentação.

Partindo da deserção de dois militares cubanos, René (Ramirez) e Juan Pablo (Moura), o filme se entremeia pela vivência do sentimento anti-Cuba a partir da chegada em uma terra prometida, como é vista Miami aos seus olhos. O primeiro deixou esposa (Cruz) e filha no país de origem, onde agora é classificado como traidor. Decidiu que não só iria atrás de uma nova vida, mas entraria nas fileiras de organizações anticastristas, realizando missões aéreas clandestinas em Havana. É quando entra em cena a figura de Manuel Viramontez (Bernal), cabeça de uma rede de espiões cubanos em solo americano que coloca em xeque a legalidade e a moralidade das organizações que atacam o governo de Fidel Castro.

Assayas engata um jogo de simplismos e de sentimento tão bajulador aos Estados Unidos nos discursos que, à primeira vista, chega a revoltar em seu reducionismo. Quando o personagem de Moura aporta na baía de Guantánamo para pedir asilo político, ganha um McDonald's como primeira refeição, vista como uma verdadeira especiaria para quem só comia "McCastro".

Os diálogos pintam o país vizinho como um lugar de fome e precariedade. Já sua montagem traz elipses que fazem o tempo passar de forma quase esquemática, só precisando pontuar sua tônica inicial de que em Miami há espaço para ter uma vida digna e, a partir de lá, há uma igualmente digna movimentação para "libertar" o povo cubano. Casamentos surgem, missões aéreas são realizadas sob o azul do céu e acima de um azul do mar lindo. 

Mas logo o filme revela a intencionalidade dessas tintas artificiais e se utiliza de uma virada na trama que, a partir dessa mesma artificialidade, vai reconfigurar o jogo dramático. Da mesma forma como o discurso é construído de uma forma simplista, Assayas mostra como é igualmente simples quebrá-lo, de uma forma quase didática e debochada. Bastam algumas palavras e flashbacks rápidos para demonstrar a fragilidade da narrativa anticomunista impulsionada pelos olhos de Miami. O filme ganha outro fôlego a partir desse truque e se abre para um potencial jogo de espionagem e paranoia, prometendo entrar por debaixo daquele azul bonito e falso que toma o mundo.

O que acaba sendo mais uma promessa do que um potencial plenamente alcançado. Assayas não consegue definir qual será a unidade a partir do novo fôlego. Enquanto uma trama de espionagem, em um terreno fértil para a complexidade e tons de cinza, ele não consegue criar a tensão necessária ou desenvolver uma estrutura.

Enquanto um drama familiar, ele não consegue substância, é fragmentado demais, sabotado pela montagem que continua com as elipses do primeiro momento, mas que já não cabem mais no esquema proposto de desvelar suas artificialidades. O filme não sabe qual eixo dramático tomar, o que acaba esvaziando também a proposta de encenação das aparências para se tornar apenas ilustração dos fatos narrados.

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