CRÍTICA

'Os 7 de Chicago' é um morno e burocrático filme de tribunal

Dirigido por Aaron Sorkin, o filme retrata polêmico julgamento de ativistas políticos que lideraram protestos contra a Guerra do Vietnã

Rostand Tiago
Rostand Tiago
Publicado em 24/10/2020 às 13:00
Crítica

NICO TAVERNISE/NETFLIX
LIMITAÇÕES Filme tem a marca do roteiro de Sorkin, que ainda tateia no papel de diretor. Boas atuações conseguem transpor teor caricatural - FOTO: NICO TAVERNISE/NETFLIX
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Há um debate cinematográfico sobre a ida de proeminentes roteiristas para a direção, que gira em torno de suas limitações e habilidades no controle maior da obra. Dois nomes certamente se destacam nessa discussão. O primeiro é Charlie Kaufman (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, Quero Ser John Malkovich), que lançou recentemente, pela Netflix, seu segundo longa na direção, Estou Pensando em Acabar com Tudo, muito apontado como um amadurecimento de Kaufmann enquanto diretor. É também pela Netflix que o outro nome dessa discussão também lança seu segundo longa: Aaron Sorkin, roteirista de A Rede Social, Steve Jobs e da série The Newsroom.

Trata-se de Os 7 de Chicago, que estreou na última semana na gigante do streaming. o filme de tribunal carrega elementos que são bem a gosto do roteirista Sorkin: abundância de informações e fatos, relatos orais e diálogos também volumosos e movimentos de idas e vindas no tempo para dar conta dos eventos. Contudo, a direção do próprio Sorkin ainda apresenta muitas limitações na hora de encenar suas palavras e ideias. Ele passa muito longe de lidar dramaticamente com os espaços de um filme do gênero, como fez Sidney Lumet em Doze Homens e uma Sentença ou até mesmo ao lidar com sua própria proposta de testemunhos e idas e vindas no tempo que compartilham muita coisa com A Rede Social, mas distante da dimensão dada pela direção de David Fincher.

Ele conta a história do julgamento de oito ativistas políticos, incluindo nomes como Tom Hayden (Eddie Redmayne), então líder político universitário, Abbie Hoffman (Sacha Baron Cohen) e Jerry Rubin (Jeremy Strong), ícones do movimento de contracultura norte-americana, e Bobby Seale (Yahya Abdul-Mateen II), uma das principais cabeças do Partido dos Panteras Negras. Eles são acusados injustamente pelo Governo de promover motins e conspirações em protestos contra o desastre da Guerra do Vietnã em 1968, no mesmo período em que era realizada a Convenção do Partido Democrata na cidade. O grupo então precisa encarar suas diferenças ideológicas e de origem para montar sua defesa.

Nesse cenário, o interesse de Sorkin parece residir mais no lidar com as informações dos eventos de uma maneira dinâmica e ágil do que buscar uma força inerente à eles. O acaba gerando um filme muito morno e de apelo emocional artificial. Paradoxalmente, o dinamismo com o qual o diretor parece ter tanto carinho acaba tornando o filme muito burocrático.

Uma obra que é tão calcada em construir um quebra-cabeça de relatos, mas parece não se esforçar muito em torná-lo interessante de um ponto de vista cinematográfico. Há uma dificuldade em acertar um tom coeso, sua imagem flutua por uma atmosfera mais realista e documental, assim como também passa por um tratamento estilizado e espetacularizado sem uma lógica muito clara ou uma fluidez mais sólida.

Restam suas boas habilidades em construir diálogos expositivos que são muito consciente desse seu caráter, mas que conseguem ser articulados de uma forma que não soa muito artificial. Atuações como a de Baron Cohen e Abdul-Mateen ainda dão uma força extra nesse sentido, transpondo o que há de mais caricato em seus personagens, mas de uma maneira muito orgânica. Há também uma desenvoltura no lidar com os aspectos mais pedagógicos de suas intenções. O problema é sua incapacidade de ir muito além disso, que torna o filme engessado, com sua energia dramática dissipada.

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