MÚSICA

Miley Cyrus renasce à base do rock em novo disco, Plastic Hearts

Álbum exibe talento e versatilidade da cantora e é fruto de várias circunstâncias inesperadas, que alteraram os planos da cantora por completo

Márcio Bastos
Márcio Bastos
Publicado em 05/12/2020 às 2:00

VITAJ MOHINDRA/DIVULGAÇÃO
CONTROLE Toda a direção artística do projeto, incluindo os videoclipes, esteve sob o controle da cantora - FOTO: VITAJ MOHINDRA/DIVULGAÇÃO
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Encarnando uma espécie de Debbie Harry dos anos 2020, Miley Cyrus lançou recentemente Plastic Hearts, seu sétimo álbum e o primeiro com base no rock. Ainda que as escolhas estéticas e sonoras da cantora possam parecer estranhas diante do que o grande público estava acostumado a vê-la produzir, sua reverência ao gênero musical já se manifesta há algum tempo. Neste trabalho, ela encontra o veículo ideal, tanto em termos de composição como de sonoridade, para exibir seu talento e versatilidade, homenageando suas inspirações sem comprometer sua identidade no projeto.

Ainda que soe exatamente como o álbum que Miley Cyrus deveria fazer, Plastic Hearts é fruto de várias circunstâncias inesperadas, que alteraram os planos da estadunidense por completo. Se em Bangerz (2013) ela deixou para trás por completo a imagem pueril de Hannah Montana, personagem que interpretou durante a adolescência na Disney, com uma imagem sexualizada, uma documentada relação com as drogas, e se apropriando de elementos da cultura negra, especialmente o hip hop (o que a tornou, justificadamente, alvo de críticas), com Miley Cyrus & Her Dead Petz ela consolidou sua disposição em experimentar e subverter as expectativas sobre sua arte.

Distribuído gratuitamente na internet, o álbum é um caleidoscópio de referências, com colaboradores que iam da banda The Flaming Lips aos produtores Ariel Pink (Charli XCX, MGMT) e Mike Will Made It (Beyoncé, Rihanna, Kendrick Lamar, entre outros). Em suas turnês, também surpreendia o público com covers de canções de Bob Dylan, The Smiths, de sua madrinha Dolly Parton, entre outros.

Sua imagem e atitudes já se aproximavam mais do que se estabeleceu associar ao rock do que ao pop. Enquanto algumas de suas contemporâneas prezavam pela polidez, Miley parecia regozijar-se no caos. Por isso, foi uma surpresa geral quando em 2017 ela ressurgiu de cara lavada, afirmando que os tempos de festa e de drogas ficaram para trás, após reatar o namoro com o ator Liam Hemsworth. O disco Younger Now celebrava a paixão e a vida pacata e é fortemente influenciado pelo country (gênero que deu fama ao seu pai, Billy Ray Cyrus) e o pop-rock.

O disco teve uma recepção fraca e muitos apontaram um certo desnorteamento artístico da cantora, que só retornou dois anos depois, dessa vez com um EP, She Is Coming, novamente influenciado pelo hip hop e com uma Miley ferina, cantando sobre empoderamento feminino e desejo. A obra deveria ser a primeira de uma trilogia, interrompida após ela perder todo o material no incêndio que consumiu sua casa, no ano passado. Pouco tempo depois do incidente, ela e Hemsworth se divorciaram, colocando o ponto final na relação que, entre idas e vindas, já tinha quase uma década.

Outro ponto decisivo em 2019 para a cantora foi quando precisou se submeter a uma cirurgia nas cordas vocais. Em entrevista à Rolling Stone americana deste mês, da qual é capa, Miley explicou que o problema de saúde a fez reavaliar sua relação com o corpo e, por isso, abdicou de vez das bebidas e das drogas.

À VONTADE

Todas essas experiências estão impressas direta ou indiretamente em Plastic Heart. O disco é um retrato honesto e pulsante de uma mulher que cresceu em frente ao público e que, aos 28 anos, parece à vontade com suas várias contradições. Todas as faixas têm co-autoria da cantora, que brilha nas interpretações ecléticas, adequando-se às várias inspirações do álbum, majoritariamente dos anos 1970 e 1980, que vão do synth pop ao punk, new wave, entre outros subgêneros do rock, pop e da música eletrônica.

O fim do relacionamento com Liam Hemsworth e o processo de autoaceitação pautam o trabalho, como nas pulsantes WTF do I Know, na faixa-título e Night Crawler, com participação de Billy Idol, e em Midnight Sky, um dos melhores singles do ano. Nela, Miley parece mandar um recado direto para o ex: "A noite foi longa e o espelho está me dizendo para ir para casa/ Mas faz muito tempo desde que eu me sinto tão bem sozinha/ Foram muitos anos com minhas mãos amarradas nas suas cordas".

A canção sampleia a icônica Edge of Seventeen, de Stevie Nicks, que contribui com vocais no remix, um dos pontos altos do trabalho, junto aos covers de Miley para as Heart of Glass, de Blondie, e Zombie, da banda The Cranberries, que receberam elogios rasgados de ambas as bandas.

Em Gimme What I Want, ela aposta em uma pegada industrial e mais sombria, enquanto em Bad Karma, com Joan Jett & The Blackhearts ela assume um tom debochado e empoderado, homenageando as pioneiras que abriram espaço no misógino mundo do rock. Outro destaque é Prisoner, parceria com Dua Lipa, cujo disco Future Nostalgia foi um dos mais celebrados deste ano e também bebe na fonte dos anos 1980, porém na disco music, que a coloca em sintonia com suas raízes do pop.

Versátil, Miley também brilha nas baladas, permitindo que toda a sua potência seja explorada não para firulas vocais, mas para amplificar as emoções das letras, como em Never Be Me. Nela, em Hate Me e Angels Like You a cantora recusa o papel de algoz e de vítima, preferindo desnudar seus defeitos e qualidades, deixando claro que no jogo do amor, só entra, agora, em pé de igualdade.

Golden G String, que encerra faixas autorais e contém ecos de influência country, captura o recado de Miley e as motivações por trás de sua conturbada carreira. Ela se coloca como alguém em construção, tentando entender seu lugar, sua força, entre erros e acertos. "Há camadas neste corpo/ De sexo primitivo e vergonha primitiva/ Eles disseram que eu deveria cobri-lo/ Então eu fui por outro caminho/ Eu estava tentando possuir meu poder/ Ainda estou tentando."

 

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